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Cena
de 'Quando o Amor é Mentira'
Ao
renunciar a realização de Verso Damasco, Valerio Zurlini declarou:
"Na vida, nós fazemos os filmes que podemos, não aqueles que queremos".
Uma carreira de mais de trinta anos dedicados ao cinema e apenas
oito longas-metragens realizados; entre elas, cinco obras-primas
definitivas do cinema, recuperadas há três anos pelo Festival de
Locarno, que vem sendo redescobertas, sucessivamente, de três em
três meses, em deflagradoras retrospectivas pelo mundo afora. Chegou
a vez do Brasil descobrir a obra integral do "poeta imagético da
melancolia", tal como foi apelidado recentemente por um prestigiado
crítico de Chicago, o falecido cineasta italiano Valerio Zurlini
(1926-1982). Nascido em Bologna, em 19 de março de 1926, Valerio
Zurlini se interessou por teatro durante os estudos de direito em
Roma. Aproximou-se do cinema profissional no final dos anos quarenta,
realizando uma série de curtas-metragens de qualidade reconhecida
e ganhadora de muitos prêmios. Em 1954, realizou seu primeiro longa
metragem, Le ragazze di San Frediano (Quando o Amor é Mentira),
inspirado no romance homônimo de Vasco Pratolini. A partir daí,
Zurlini marcou sua filmografia pela busca obsessiva de uma dramaturgia
existencial, quase sempre, de teor autobiográfico (embora não assumido),
visando a relação do cinema com outros meios de expressão, como
a literatura e a pintura. Sua influência pictórica, que marca o
rigor de seus enquadramentos e a busca obsessiva por uma textura
muito além do limites do negativo _em Cronaca Familiare (Dois Destinos),
em intensa parceria com o diretor de fotografia Giuseppe Rotunno,
revolucionou o esmaecimento de matizes subvertendo a subexposição
do diafragma_ o aproxima imageticamente do purismo e da metafísica
de Ottone Rosai, Carlo Carrá e Giorgio Morandi. A obra inteira de
Zurlini pode ser comparada ao objetivo da pintura de Carrá e Rosai
e em ambas as ânsias por "uma metafísica das coisas ordinárias".
Na literatura dos grandes autores italianos modernos como Italo
Svevo, Vasco Pratolini, Ugo Pirro e Dino Buzzati, Zurlini foi buscar
a inspiração e a essência; mas, afirmava que foi, com seu autor
de cabeceira, Leon Tolstoi, que aprendeu a amar as relações triviais
do ser humano "que só se tornam relevantes quando contadas tendo
como pano de fundo um momento traumático da história". Mesmo em
seus filmes menos literários e mais autobiográficos como Estate
Violenta (Verão Violento), La Ragazza com la Valigia (A Moça com
a Valise) e La Prima Notte di Quiete (A Primeira Noite de Tranqüilidade),
Zurlini remete a outros autores extraordinários e melancólicos,
como Cesare Pavese, por exemplo. Zurlini teve a infelicidade de
surgir autoral e simultaneamente a Michelangelo Antonioni e sua
obra foi erroneamente comparada com a do amigo. Zurlini foi o cineasta
dos sentimentos mais prosaicos do ser social; Antonioni filmava
a impossibilidade de entendimento e a alienação. Difícil encontrar
discrepâncias tão óbvias em duas obras tão contemporâneas. Os heróis
de Zurlini chegam a ser obscenos de tão altruístas; os de Antonioni
são poços de egoísmo. Os "outsiders" afetivos de Zurlini nunca conseguem
encontrar o ambicionado isolamento absoluto porque estão condenados
à afeição; os de Antonioni precisam se agrupar para atingir a exclusão.
Talvez a obra inteira de Zurlini possa ser compreendida por um paradoxo.
Em A Primeira Noite de Tranqüilidade, o personagem de Alain Delon,
um professor substituto, pede em seu primeiro contato com os alunos
de uma Rimini chuvosa e fora de temporada, para optarem em escrever
sobre si mesmos, expondo suas ânsias e dúvidas, ou se isolarem na
abstração do tema "a noção de pureza e pecado na literatura de Manzoni".
É isso. O cinema de Valerio Zurlini, ao reverenciar o melhor da
literatura sócio-existencial e os artífices pictóricos da angústia,
anseia, na verdade, transcender as próprias limitações do artista
criador. É curioso e sintomático observar que os personagens de
Zurlini estão sempre de passagem pelo cenário principal. Zurlini
fala de experiências efêmeras, de vidas provisórias; por isso, a
sua obsessão por estações de trens, que por sinal, sabia filmar
como ninguém. Como o próprio Zurlini afirmava, seu tema recorrente
é o fim dos sentimentos, não o fim de uma relação ou de um casal.
"Duas pessoas podem viver muito bem juntos durante 30 anos, mas
aqueles anos de sentimentos muito intensos que o casal viveu no
começo de sua relação estão destinados a ter um fim". Le Ragazze
di San Frediano (Itália, 1954)é a única comédia realizada por Zurlini.
Trata-se na verdade de uma "comédia melancólica" a respeito das
atribulações afetivas de um rapaz "bonito como Robert Taylor". Estate
Violenta (Itália-França, 1959) foi o primeiro filme que abordou
um momento tabu e traumático da história da Península: o ano de
1943. A lição de Tolstoi se explicita: "Os clássicos são sempre
a simbiose perfeita de uma história privada e um acontecimento histórico".
Realizado com extremas dificuldades de produção, Estate Violenta
é um dos filmes chaves do cinema italiano do início dos anos 60.
Carlo, 20 anos, filho de um chefe fascista é exonerado do serviço
militar e passa as horas se divertindo com seus amigos de férias.
Um acidente faz o rapaz conhecer Roberta, uma viúva de um herói
de guerra. Nasce uma relação amorosa quase impossível à sombra da
demissão de Mussolini e a guerra em processo. Obra-prima! La Ragazza
con la Valigia (Itália-França, 1960) é um filme extraordinário que
nasceu de uma conversa de Zurlini, em Milão, no final dos anos quarenta,
com uma futura celebridade feminina, com qual o diretor preparava
um filme publicitário. Durante dois dias, a jovem modelo contou
coisas pessoais de sua vida para o atento curta-metragista. As pequenas
vicissitudes narradas pela futura estrela ficaram guardadas na memória
e acabaram compondo o perfil da personagem Aída (numa antológica
participação de Claudia Cardinale). Zurlini assumiu que o personagem
de Jacques Perrin foi inspirado em sua própria experiência adolescente.
La Ragazza con la Valigia é uma aula de decupagem e encenação fílmica.
Suas seqüências na varanda e na estação de trens estão entre as
mais bem construídas da história do cinema. Aqui, todo o aparato
do cinema e o talento de manipulá-lo existe e é exercido para dar
vida à emoção trivial dos personagens. Cronaca Familiare (Itália,
1962) depura inda mais a dramaturgia do essencial e é, até hoje,
o melhor filme que eu vi na vida. Para muitos, o mais triste da
história. O texto de Vasco Pratolini é filmado com a economia e
ascetismo. Com este clássico, Zurlini pode ser chamado de "Yasushiro
Ozu do cinema ocidental". Ambos inventaram os chamados "planos de
respiro"; ambos flagraram os sentimentos submersos do ser humano
na aridez perversa do cotidiano (com ou sem encanto). A cópia a
ser exibida na retrospectiva deve ter restaurado os matizes de Carrá
e Rosai e a enquadratura do mestre renascentista Piero della Francesca,
obtidos pela cumplicidade entre Rotunno e Zurlini. A frase final
do filme é definitiva: "Bem aventurados os miseráveis que passaram
pela vida sem jamais terem conhecido a renúncia ou a transgressão!".
Le Soldatesse (Itália-França, 1965) é um projeto herdado das mãos
de Gillo Pontecorvo e o único filme de Zurlini ainda absolutamente
inédito no Brasil. Um jovem oficial italiano recebe a missão de
conduzir um pelotão de prostitutas durante a ocupação de Atenas.
Aparentemente, trata-se do único filme italiano que mostra um massacre
perpetrado por tropas italianas. Uma participação antológica (mais
uma) de Lea Massari como a prostituta que gosta do que faz e sente
prazer com todos os homens, inclusive com o apaixonado e enciumado
protagonista. Dos oito longas metragens, Sedutto alla sua Destra
(Itália, 1968) chama a atenção por ser considerada uma obra atípica
do diretor, incluindo os curtas-metragens. Zurlini confessa ter
feito o filme movido por sua admiração pelo militante africano Lumumba.
Poucas vezes o cinema prestou uma homenagem tão intensa e relevante
a um mito histórico. Zurlini imaginou uma afinada parábola bíblica
sobre a intolerância e a violência. Odiado na França, o filme foi
criticado pelo viés, aparentemente, ecumênico. Besteira! Pobre do
cinema italiano se não existissem os católicos! Sedutto alla sua
Destra desconcerta, mas impregna a memória e a sensibilidade de
quem ama os filmes necessários e imperfeitos. La Prima Notte di
Quiete (Itália-França, 1972) é o filme paveseano (de Cesare Pavese)
de Zurlini, embora ele não gostasse da comparação. De longe, a sua
obra mais niilista e com um desfecho digno de Fritz Lang. Quinta
obra-prima de uma filmografia impecável. O tema musical de abertura,
do fiel colaborador Mario Nascimbene, executado à perfeição pelo
sopro de Maynard Ferguson é a marca registrada do desespero na obra
de Zurlini; num prenúncio agônico da tragédia existencial do protagonista
condenado à danação da sensibilidade. Terceira e única parte realizada
de um ambicioso projeto tríptico, La Prima Notte di Quiete foi,
como a maior parte dos filmes do diretor, adorado por uns e detestado
por outros. Com o protagonista Alain Delon, as relações foram complicadíssimas.
O maior crítico da Itália, Adriano Aprá confessou para mim que falou
mal do filme, injustamente, no "Cahiers du Cinema". A explicação
veio anos depois, já que Aprá assistiu o filme, pela primeira vez,
em Paris. Alain Delon, que detinha os direitos de exploração comercial
do filme para a França, remontou-o à revelia do diretor, eliminando
todas as cenas que se achava feio e sem carisma, deixando-o sem
pé, nem cabeça. Ao conhecer a versão italiana do filme, quase vinte
anos depois, Aprá atestou a sua excelência. Il Deserto dei Tartari
(Itália/França/Alemanha/Irã, 1976) é o exemplo típico do filme submetido
ao culto de uma obra literária. Mesmo realizando sua adaptação fílmica
do clássico de Dino Buzatti à luz da influência de Franz Kafka,
Zurlini não se deu por satisfeito com a empreitada. Apesar do elenco
primoroso, é um filme menor na carreira de seu diretor, embora tenha
seus defensores extremados (o que não é o meu caso). Entre os curtas
metragens a serem apresentados, pelo menos um, se torna obrigatório:
Soldati in Città, de 1953, que era exibido na Itália como complemento
de um filme americano de Delmer Davies (The Son Of Texas). Nesta
comovente e desencantada "crônica dos povos amantes" é possível
detectar com nitidez a poesia cotidiana dos sentimentos que irá
marcar a obra única, perfectiva e "nos limites da sacralidade" de
Valerio Zurlini.
Carlos
Reichenbach
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