Não há cinema mais crepuscular do que este inventado
pelo gênio de Alexander Sokurov. O cineasta russo foi homenageado
pela 26ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo,
em 2002. Ele anunciou em São Paulo que "O Sol/The
Sun"iria ser o terceiro longa de sua tetralogia dedicada
aos tiranos da história contemporânea (e o quarto
será sobre Stalin). O filme foi apresentado em competição
no 55º Festival de Berlim. Não recebeu prêmio
algum, mas isso não afeta a carreira do grande cineasta
que tem suas produções garantidas graças
a fundos europeus de cinema, principalmente os da Itália.
É curioso observar que "The Sun", concentrado
sobre o caráter do imperador japonês Hiroito, não
obteve financiamento japonês. O tema da capitulação
japonesa na Segunda Guerra Mundial e da desdeificação
do seu imperador parece ainda ser tabu para os japoneses, mesmo
60 anos depois do fim do conflito.
Os déspotas 'humanizados' nos dois filmes anteriores da
tetralogia de Sokurov haviam sido nada menos do que Hitler e Lenin.
Que não se entenda por 'humanizar', a transfiguração
dos personagens reais em seres cândidos e arrependidos dos
crimes contra a humanidade cometidos ao longo de suas violentas
histórias. Significa desce-los dos pedestais da divindade.
A 'humanização' de Hitler no filme "Moloch"
significa acuar o monstro em um claustrofóbico refúgio
alpino, onde ele se abstrai com veleidades dos horrores da carnificina
de seus soldados e das duas frentes - do Exército Vermelho
do bloco russo - e das forças Aliadas - contra o seu império
nazista.
Em "Taurus", Sokurov acompanha o declínio físico
de Lenin sem que o personagem perceba a voracidade com que está
perdendo o seu poder imperial. "Humanizar tiranos é
reduzí-los à insignificância da temporalidade",
diz Sokurov.
A reconstituição histórica em "The
Sun" conta com a grandiosa interpretação de
Issey Ogata, que representa um imperador vacilante e patético,
indiferente aos absurdos sofrimentos de seu mundo exterior. A
ação do filme vai do momento em que o Japão
é ocupado pelas tropas americanas em agosto de 1945 até
janeiro de 1946. É no dia 15 de agosto que o imperador
Hiroito faz o seu apelo público pelo fim das operações
militares, com sua declaração de rendição.
Milhões de japoneses ficam chocados em ouvir pela primeira
vez, no rádio, a voz do imperador. A segunda decisão
crucial do imperador que o filme mostra bem é a relação
íntima com o general americano Douglas MacArthur que tenta
trazer o imperador para seu lado visando um futuro melhor para
o Japão.
Um único capricho do diretor prejudica o grandioso filme.
A tênua luz crepuscular é tão baixa em algumas
seqüências que infelizmente quase não se vê
nada.
Também a fotografia é assinada pelo diretor russo.
A seguir, trechos da entrevista de Alexander Sokurov, distribuída
no press release do filme:
Encontramos Hitler em "Moloch" no início de
um colapso de sua individualidade. Vemos Lenin em "Taurus",
forte, violento, sem nenhum desejo de sucumbir à morte,
apaixonado pelo poder. Cada um dos dois enfrenta uma catástrofe
ocasionada pelas suas próprias decisões e ações.
Hitler traz a situação a uma tragédia sem
sentido: claro que a guerra está perdida porém,
em obediência à sua vontade, soldados continuam a
morrer. Ele leva muitas vidas consigo à não-existência.
E Lenin também resiste à não-existência
- como se pretendesse arremessar para o futuro seu desespero moribundo,
sua intolerância.
Parece haver maneiras diferentes de sair de situações
trágicas. O Imperador Hiroito do Japão é
o símbolo de um fim construtivo ou, mais acertadamente,
não de um fim, mas de uma continuação - da
vida. É possível, com uma visão interior,
vislumbrar as ruínas de uma cidade destruída: mas
também podemos discernir dezenas de construções
poupadas - para colocá-la em perspectiva. Para tal, faz-se
imprescindível, uma natureza humana especial.
Hiroito, um pequeno, mirrado cientista de voz fina, envolvido
em hidrobiologia, foi o mais improvável dos tiranos. Seu
palácio foi destruído pelo fogo durante um bombardeio
pelos americanos e o imperador vivia ora no seu bunker subterrâneo,
ora na única construção de pedra que sobrara,
intacta, nos jardins do palácio - o laboratório.
Não parecia, de maneira alguma, um deus da guerra, sedento
de sangue. Pelo contrário, Hiroito optou por salvar vidas
humanas em preferência à idéia de um orgulho
nacional. Este foi o grande legado de Hiroito e dos políticos
americanos que o compreendiam e eram sensíveis à
sua posição. Em 1945, Hiroito e MacArthur encontraram
uma saída para uma situação aparentemente
impossível. Esta é a lição - o bem
pode ser forte, pode ser inteligente.
É difícil definir e compreender o poder no Japão.
O Japão caracteriza-se por um poder silencioso, indistinto,
profundo e reprimido. Os japoneses não são asiáticos.
São mais próximos aos ingleses com sua consciência
de si mesmos, típica de uma ilha. E têm a mesma missão,
porém os altos e baixos do desenvolvimento são diferentes.
Existe, aparentemente, pouca diferença entre a adoração
pelo imperador do Japão e, por exemplo, a adoração
por Stalin. A exaltação da instituição
do poder há muito penetrou profundamente na consciência
da sociedade humana. E é difícil imaginar o que
deva ser feito hoje para convencer as pessoas que o poder não
constitui dádiva de Deus. Os japoneses representam um mundo
humano diferente. Esta separação total gera exemplos
únicos de delicadeza e graça, mas também
um coração endurecido.
Hiroito acrescentou mais uma tonalidade ao mundo que estamos
tentando retratar, criar. Este é um novo aspecto de um
personagem humano impossível de compreender, totalmente.
O personagem é o elemento. O personagem é um objeto
artístico jamais esgotado...
... Não faço filmes sobre ditadores, mas faço
filmes sobre aquelas pessoas que se sobressaem mais do que o restante.
Parecem ser possuidoras de poder máximo. Porém a
fragilidade humana e a paixão afetam seus atos, mais do
que o status e as circunstâncias. As qualidades e a personalidade
são mais elevadas do que qualquer situação
histórica - mais elevadas e mais fortes.