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Nº 326 - 04/03/2005



 
SOL CREPUSCULAR ILUMINA A NOVA OBRA-PRIMA DE SOKUROV
 
Leon Cakoff para o ‘Jornal da Mostra’
 
"O Sol", novo filme de Alexander Sokurov

Não há cinema mais crepuscular do que este inventado pelo gênio de Alexander Sokurov. O cineasta russo foi homenageado pela 26ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em 2002. Ele anunciou em São Paulo que "O Sol/The Sun"iria ser o terceiro longa de sua tetralogia dedicada aos tiranos da história contemporânea (e o quarto será sobre Stalin). O filme foi apresentado em competição no 55º Festival de Berlim. Não recebeu prêmio algum, mas isso não afeta a carreira do grande cineasta que tem suas produções garantidas graças a fundos europeus de cinema, principalmente os da Itália. É curioso observar que "The Sun", concentrado sobre o caráter do imperador japonês Hiroito, não obteve financiamento japonês. O tema da capitulação japonesa na Segunda Guerra Mundial e da desdeificação do seu imperador parece ainda ser tabu para os japoneses, mesmo 60 anos depois do fim do conflito.

Os déspotas 'humanizados' nos dois filmes anteriores da tetralogia de Sokurov haviam sido nada menos do que Hitler e Lenin. Que não se entenda por 'humanizar', a transfiguração dos personagens reais em seres cândidos e arrependidos dos crimes contra a humanidade cometidos ao longo de suas violentas histórias. Significa desce-los dos pedestais da divindade. A 'humanização' de Hitler no filme "Moloch" significa acuar o monstro em um claustrofóbico refúgio alpino, onde ele se abstrai com veleidades dos horrores da carnificina de seus soldados e das duas frentes - do Exército Vermelho do bloco russo - e das forças Aliadas - contra o seu império nazista.

Em "Taurus", Sokurov acompanha o declínio físico de Lenin sem que o personagem perceba a voracidade com que está perdendo o seu poder imperial. "Humanizar tiranos é reduzí-los à insignificância da temporalidade", diz Sokurov.

A reconstituição histórica em "The Sun" conta com a grandiosa interpretação de Issey Ogata, que representa um imperador vacilante e patético, indiferente aos absurdos sofrimentos de seu mundo exterior. A ação do filme vai do momento em que o Japão é ocupado pelas tropas americanas em agosto de 1945 até janeiro de 1946. É no dia 15 de agosto que o imperador Hiroito faz o seu apelo público pelo fim das operações militares, com sua declaração de rendição. Milhões de japoneses ficam chocados em ouvir pela primeira vez, no rádio, a voz do imperador. A segunda decisão crucial do imperador que o filme mostra bem é a relação íntima com o general americano Douglas MacArthur que tenta trazer o imperador para seu lado visando um futuro melhor para o Japão.

Um único capricho do diretor prejudica o grandioso filme. A tênua luz crepuscular é tão baixa em algumas seqüências que infelizmente quase não se vê nada.

Também a fotografia é assinada pelo diretor russo. A seguir, trechos da entrevista de Alexander Sokurov, distribuída no press release do filme:

Encontramos Hitler em "Moloch" no início de um colapso de sua individualidade. Vemos Lenin em "Taurus", forte, violento, sem nenhum desejo de sucumbir à morte, apaixonado pelo poder. Cada um dos dois enfrenta uma catástrofe ocasionada pelas suas próprias decisões e ações. Hitler traz a situação a uma tragédia sem sentido: claro que a guerra está perdida porém, em obediência à sua vontade, soldados continuam a morrer. Ele leva muitas vidas consigo à não-existência. E Lenin também resiste à não-existência - como se pretendesse arremessar para o futuro seu desespero moribundo, sua intolerância.

Parece haver maneiras diferentes de sair de situações trágicas. O Imperador Hiroito do Japão é o símbolo de um fim construtivo ou, mais acertadamente, não de um fim, mas de uma continuação - da vida. É possível, com uma visão interior, vislumbrar as ruínas de uma cidade destruída: mas também podemos discernir dezenas de construções poupadas - para colocá-la em perspectiva. Para tal, faz-se imprescindível, uma natureza humana especial.

Hiroito, um pequeno, mirrado cientista de voz fina, envolvido em hidrobiologia, foi o mais improvável dos tiranos. Seu palácio foi destruído pelo fogo durante um bombardeio pelos americanos e o imperador vivia ora no seu bunker subterrâneo, ora na única construção de pedra que sobrara, intacta, nos jardins do palácio - o laboratório.

Não parecia, de maneira alguma, um deus da guerra, sedento de sangue. Pelo contrário, Hiroito optou por salvar vidas humanas em preferência à idéia de um orgulho nacional. Este foi o grande legado de Hiroito e dos políticos americanos que o compreendiam e eram sensíveis à sua posição. Em 1945, Hiroito e MacArthur encontraram uma saída para uma situação aparentemente impossível. Esta é a lição - o bem pode ser forte, pode ser inteligente.

É difícil definir e compreender o poder no Japão. O Japão caracteriza-se por um poder silencioso, indistinto, profundo e reprimido. Os japoneses não são asiáticos. São mais próximos aos ingleses com sua consciência de si mesmos, típica de uma ilha. E têm a mesma missão, porém os altos e baixos do desenvolvimento são diferentes.

Existe, aparentemente, pouca diferença entre a adoração pelo imperador do Japão e, por exemplo, a adoração por Stalin. A exaltação da instituição do poder há muito penetrou profundamente na consciência da sociedade humana. E é difícil imaginar o que deva ser feito hoje para convencer as pessoas que o poder não constitui dádiva de Deus. Os japoneses representam um mundo humano diferente. Esta separação total gera exemplos únicos de delicadeza e graça, mas também um coração endurecido.

Hiroito acrescentou mais uma tonalidade ao mundo que estamos tentando retratar, criar. Este é um novo aspecto de um personagem humano impossível de compreender, totalmente. O personagem é o elemento. O personagem é um objeto artístico jamais esgotado...

... Não faço filmes sobre ditadores, mas faço filmes sobre aquelas pessoas que se sobressaem mais do que o restante. Parecem ser possuidoras de poder máximo. Porém a fragilidade humana e a paixão afetam seus atos, mais do que o status e as circunstâncias. As qualidades e a personalidade são mais elevadas do que qualquer situação histórica - mais elevadas e mais fortes.

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