Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
The Constant Gardener/
O Jardineiro Fiel, a primeira direção do
brasileiro Fernando Meirelles depois do sucesso mundial de Cidade
de Deus/ City of God, causou grande impacto ao final
de sua primeira exibição, na competição
da 62a Mostra de Veneza. Foi na sessão para a imprensa
onde ganhou a unanimidade com aplausos e comentários superlativos.
Meirelles se mantém fiel ao estilo de edição
fragmentada do filme anterior, do agrado da crítica, com
a mesma estrutura tensa, ao mesmo tempo em que deverá cair
no gosto das platéias com um thriller que denuncia a cruel
insensibilidade das indústrias farmacêuticas, mais
preocupadas no lucro de seus acionistas do que em salvar vidas
humanas. Veneza chegou a um consenso nos últimos dias da
sua boa mostra panorâmica sobre o cinema que será
notícia na segunda metade de 2005. E O Jardineiro
Fiel estará certamente no centro de suas atenções.
Mais uma vez Fernando Meirelles demonstra que o cinema escolado
pela indústria da publicidade, muito mais rica que a do
cinema autoral, pode servir para o bem.
A parceira de Meirelles em Cidade de Deus, Kátia
Lund, também fez bonito em Veneza, com o seu episódio
Bilu & João, no filme All
the Invisible Children/ Todas as Crianças Invisíveis,
extremamente triste, porém nada apelativo e cheio de dignidade.
Também ela veio com a mesma linguagem de narrativa nervosa
que a consagrou mundialmente com Cidade de Deus,
fazendo universal o drama de duas crianças catadoras de
lixo reciclável pelas ruas de São Paulo, e fazendo
bonito com o seu episódio ao lado de talentos reverenciados
com Emir Kusturica e Spike Lee.
Na seção ‘Orizzonti’ Veneza aplaudiu
mais o longa brasileiro - Árido Movie,
de Lírio Ferreira, um road-movie passado na paisagem desértica
do nordeste seco e violento, de grande impacto visual e com fotografia
esplendorosa em cores sépia, captada pelo cineasta e produtor
do filme Murilo Salles. Jovens urbanos drogados, em busca do paraíso
das plantações pernambucanas de maconha, promovem
o nervoso choque cultural com as tradições seculares
nordestinas nesta viagem no tempo que possibilita várias
leituras e interpretações. No centro da narrativa
está o homem do tempo, cujo quadro no programa de televisão
mais enxerga o ciclo das águas nas metrópoles do
sudeste, e que viaja para o enterro do seu pai devasso e desconhecido.
Corre paralelo o ciclo deflagrado de violências e vinganças
seculares entre latifundiários e seus explorados e o inevitável
misticismo que é classicamente gerada por esse entorno
miserável parado no tempo.
Exibido incompreensivelmente fora de concurso no programa da
seleção de curtas, Veneza destacou também
o comovente curta-metragem De Glauber para Jirges,
de André Ristum. Imagens de época, fragmentos fotográficos
e como que imagens do inconsciente compõem este belo afresco
sobre do Brasil dos anos 70, com cartas de exílio e esperança,
de delírios criativos e impressões políticas
entre o mítico cineasta Glauber Rocha e seu colaborador
próximo Jirges Ristum, que vivia então em Roma.
O mais emocionante de tudo é ver o resgate desta memória
ser materializado com extremo carinho pelo filho de Jirges Ristum.
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