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Nº 361 - 13/09/2005


 
CINEMA BRASILEIRO FAZ BONITO
Ralph Fiennes e Rachel Weisz em O Jardineiro Fiel

Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’

Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff

The Constant Gardener/ O Jardineiro Fiel, a primeira direção do brasileiro Fernando Meirelles depois do sucesso mundial de Cidade de Deus/ City of God, causou grande impacto ao final de sua primeira exibição, na competição da 62a Mostra de Veneza. Foi na sessão para a imprensa onde ganhou a unanimidade com aplausos e comentários superlativos.

Meirelles se mantém fiel ao estilo de edição fragmentada do filme anterior, do agrado da crítica, com a mesma estrutura tensa, ao mesmo tempo em que deverá cair no gosto das platéias com um thriller que denuncia a cruel insensibilidade das indústrias farmacêuticas, mais preocupadas no lucro de seus acionistas do que em salvar vidas humanas. Veneza chegou a um consenso nos últimos dias da sua boa mostra panorâmica sobre o cinema que será notícia na segunda metade de 2005. E O Jardineiro Fiel estará certamente no centro de suas atenções.

Mais uma vez Fernando Meirelles demonstra que o cinema escolado pela indústria da publicidade, muito mais rica que a do cinema autoral, pode servir para o bem.

A parceira de Meirelles em Cidade de Deus, Kátia Lund, também fez bonito em Veneza, com o seu episódio Bilu & João, no filme All the Invisible Children/ Todas as Crianças Invisíveis, extremamente triste, porém nada apelativo e cheio de dignidade. Também ela veio com a mesma linguagem de narrativa nervosa que a consagrou mundialmente com Cidade de Deus, fazendo universal o drama de duas crianças catadoras de lixo reciclável pelas ruas de São Paulo, e fazendo bonito com o seu episódio ao lado de talentos reverenciados com Emir Kusturica e Spike Lee.

Na seção ‘Orizzonti’ Veneza aplaudiu mais o longa brasileiro - Árido Movie, de Lírio Ferreira, um road-movie passado na paisagem desértica do nordeste seco e violento, de grande impacto visual e com fotografia esplendorosa em cores sépia, captada pelo cineasta e produtor do filme Murilo Salles. Jovens urbanos drogados, em busca do paraíso das plantações pernambucanas de maconha, promovem o nervoso choque cultural com as tradições seculares nordestinas nesta viagem no tempo que possibilita várias leituras e interpretações. No centro da narrativa está o homem do tempo, cujo quadro no programa de televisão mais enxerga o ciclo das águas nas metrópoles do sudeste, e que viaja para o enterro do seu pai devasso e desconhecido. Corre paralelo o ciclo deflagrado de violências e vinganças seculares entre latifundiários e seus explorados e o inevitável misticismo que é classicamente gerada por esse entorno miserável parado no tempo.

Exibido incompreensivelmente fora de concurso no programa da seleção de curtas, Veneza destacou também o comovente curta-metragem De Glauber para Jirges, de André Ristum. Imagens de época, fragmentos fotográficos e como que imagens do inconsciente compõem este belo afresco sobre do Brasil dos anos 70, com cartas de exílio e esperança, de delírios criativos e impressões políticas entre o mítico cineasta Glauber Rocha e seu colaborador próximo Jirges Ristum, que vivia então em Roma. O mais emocionante de tudo é ver o resgate desta memória ser materializado com extremo carinho pelo filho de Jirges Ristum.

Galeria de fotos::

All the Invisible Children/ Todas as Crianças Invisíveis

Árido Movie

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