CINEMA ITALIANO PEDE RESISTÊNCIA,
CONTRA A CENSURA E PELA VIDA
Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
A galeria de gênios
do passado glorioso do cinema italiano não é, faz
tempo, inspiração para seus novos realizadores.
Em meio a denúncias de censura da era Berlusconi, da burocracia
e da ditadura da televisão, o novo cinema italiano presente
nas seleções da 62a Mostra de Veneza faz o que pode
para chamar atenção. E a sua imprensa, bairrista,
sempre com os mesmos lamentos, conta a cada vez, mais um ano sem
o prêmio principal do festival.
Em meio a essa crise de longa duração, mais um
festival é anunciado oferecendo como palco o mesmo Auditorium
di Roma, que serviu de libelo ao documentário satírico
Viva Zapatero!, de Sabina Guzzanti.
O documentário de Sabina é o maior atestado da falta
de liberdade de expressão na Itália contemporânea,
que coloca o país no absurdo 63o lugar dos países
mais censurados do mundo. O festival de Roma, previsto para novembro
de 2006, é preocupante para a fundação Bienal
de Veneza que gere o festival de cinema.
Viva Zapatero! foi apresentado em Veneza como
filme surpresa, sob responsabilidade da Associazione degli
Autori, certamente para não sofrer censura antes do
tempo. Ele foi produzido a partir da proibição do
programa de sátira política “RaiOt”,
que deveria ser apresentado na televisão italiana, a cargo
da própria humorista Sabina Guzzanti. Como protesto, ela
fez o programa previsto na TV em forma teatral, no Auditorium
di Roma completamente lotado, com mais de uma centena de milhares
de espectadores-protestantes na praça do lado de fora,
acompanhando pelo telão.
Sabina apresenta um panorama assustador de como a censura foi
se insinuando e se impondo na imprensa italiana dominada pelo
governo multimídia de Berlusconi. Seus entrevistados apelam
para reação dos jornalistas, faz um levantamento
de como a imprensa foi calada aos poucos no início do fascismo,
traz o manifesto de intelectuais inconformados e o escapismo dos
políticos que dirigem atualmente as telecomunicações
italianas.
Em outro documentário emocionante da 62a Mostra de Veneza,
Kill Gil (Parte 1), foi realizado entre vida
e morte por Gil Rosselini, filho adotivo do mestre do neo-realismo
italiano Roberto Rosselini. De um ano para o outro, vemos primeiro
Gil Rosselini no festival de Veneza de 2004 em plena forma, desfilando
como produtor prestigiado. Poucos meses depois ele está
em coma num hospital na Suécia, sendo vorazmente destruído
por uma terrível infecção bacteriana. Gil
Rosselini volta a Veneza em uma cadeira de rodas. E o seu documentário,
que promete prosseguir com mais partes, é um corajoso manifesto
pela vida, uma luta que o próprio cineasta e produtor realizou
enquanto o seu corpo era mutilado com 20 cirurgias e resistia
num centro de reabilitação na Suíça.
“Foi a vontade de viver, de resistir com todas as forças,
de expor o meu exemplo, que me salvou”, diz Gil Rosselini.
O seu filme é estarrecedor, em muitos momentos com imagens
difíceis de se ver, mas tem uma emoção rara,
regeneradora. Expõe aos limites o espectador e também
lhe dá ótimos exemplos de resistência.