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Nº 362 - 14/09/2005


 
Gil Rosselini em Veneza

CINEMA ITALIANO PEDE RESISTÊNCIA,
CONTRA A CENSURA E PELA VIDA


Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’

Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff

A galeria de gênios do passado glorioso do cinema italiano não é, faz tempo, inspiração para seus novos realizadores. Em meio a denúncias de censura da era Berlusconi, da burocracia e da ditadura da televisão, o novo cinema italiano presente nas seleções da 62a Mostra de Veneza faz o que pode para chamar atenção. E a sua imprensa, bairrista, sempre com os mesmos lamentos, conta a cada vez, mais um ano sem o prêmio principal do festival.

Em meio a essa crise de longa duração, mais um festival é anunciado oferecendo como palco o mesmo Auditorium di Roma, que serviu de libelo ao documentário satírico Viva Zapatero!, de Sabina Guzzanti. O documentário de Sabina é o maior atestado da falta de liberdade de expressão na Itália contemporânea, que coloca o país no absurdo 63o lugar dos países mais censurados do mundo. O festival de Roma, previsto para novembro de 2006, é preocupante para a fundação Bienal de Veneza que gere o festival de cinema.

Viva Zapatero! foi apresentado em Veneza como filme surpresa, sob responsabilidade da Associazione degli Autori, certamente para não sofrer censura antes do tempo. Ele foi produzido a partir da proibição do programa de sátira política “RaiOt”, que deveria ser apresentado na televisão italiana, a cargo da própria humorista Sabina Guzzanti. Como protesto, ela fez o programa previsto na TV em forma teatral, no Auditorium di Roma completamente lotado, com mais de uma centena de milhares de espectadores-protestantes na praça do lado de fora, acompanhando pelo telão.

Sabina apresenta um panorama assustador de como a censura foi se insinuando e se impondo na imprensa italiana dominada pelo governo multimídia de Berlusconi. Seus entrevistados apelam para reação dos jornalistas, faz um levantamento de como a imprensa foi calada aos poucos no início do fascismo, traz o manifesto de intelectuais inconformados e o escapismo dos políticos que dirigem atualmente as telecomunicações italianas.

Em outro documentário emocionante da 62a Mostra de Veneza, Kill Gil (Parte 1), foi realizado entre vida e morte por Gil Rosselini, filho adotivo do mestre do neo-realismo italiano Roberto Rosselini. De um ano para o outro, vemos primeiro Gil Rosselini no festival de Veneza de 2004 em plena forma, desfilando como produtor prestigiado. Poucos meses depois ele está em coma num hospital na Suécia, sendo vorazmente destruído por uma terrível infecção bacteriana. Gil Rosselini volta a Veneza em uma cadeira de rodas. E o seu documentário, que promete prosseguir com mais partes, é um corajoso manifesto pela vida, uma luta que o próprio cineasta e produtor realizou enquanto o seu corpo era mutilado com 20 cirurgias e resistia num centro de reabilitação na Suíça. “Foi a vontade de viver, de resistir com todas as forças, de expor o meu exemplo, que me salvou”, diz Gil Rosselini. O seu filme é estarrecedor, em muitos momentos com imagens difíceis de se ver, mas tem uma emoção rara, regeneradora. Expõe aos limites o espectador e também lhe dá ótimos exemplos de resistência.

 
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