Jornal da Mostra
The Road to Guantanamo
Nº 395 > 29ª Mostra > 13/02/2006
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Leon Cakoff, de Berlim, para o Jornal da Mostra
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
Festival Alemão com olhar melancólico
Os gênios da pintura com seus olhares sobre situações melancólicas ficam logo do outro lado da avenida que separa o auditório do 56º Festival de Berlim do Neue Nationalgalerie, na Potsdamer Platz, onde se inaugura a exposição inspirada nos sentimentos da Melancolia. A mesma inspiração é confessada por Dieter Kosslick, diretor do festival, que agrega glamour, diversão, globalização e conflitos na sua fórmula de seleção. Como sempre, é preciso estar de olhos bem abertos. Nasceu em Berlim, desse caldeirão de idéias, em 2005, com participação financeira do próprio festival, o principal concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2006 – “Paradise Now”, do palestino Hany Abu-Assad (também na 29ª Mostra).A competição, com júri presidido pela eletrizante atriz Charlotte Rampling, deverá manter a tradição do festival em relevar e premiar filmes de produção independente, com um empurrãozinho ao mercado exibidor. Mas é tarefa complicada com veteranos como Robert Altman (“A Prairie Home Companion”), Sidney Lumet (“Find me Guilty”) e Claude Chabrol (“L´Ivresse du Pouvoir/ Comedy of Power”). A pressão dos filmes alemães, que também pede sempre um empurrãozinho, no ano em que se anuncia uma queda de 17% de público nos cinemas, também é forte na competição com “Der Freie Wille/ The Free Will”, de Matthias Glasner; a co-produção com a Argentina “El Custodio”, de Rodrigo Moreno; a co-produção com Áustria-Bósnia/Hezergovina-Croácia “Grbavica”, de Jasmila Zbanic; “Réquiem”, de Hans-Christian Schmid; e “Shnsucht/ Longing”, de Valeska Grisebach.
Com o filme “Snow Cake/ Bolo de Neve”, do canadense assinado pelo galês Marc Evans, escolhido para inaugurar o festival, a marca da melancolia marcou forte. Com um duelo de interpretações de Alan Rickman e Sigourney Waver, vemos dois personagens atormentados. Ele pelo seu passado criminoso e ela pelo seu autismo. É uma tragédia que os aproxima, mas com todo o contágio do frio do inverno exterior. A mulher autista está indiferente com a morte da filha, envolvida em um acidente na estrada, provocada pelo homem que a visita. Apenas a disponibilidade de Sigourney Waver para a data de abertura do festival justifica essa escolha.
Dois outros filmes na seleção oficial lembram indiretamente este perigoso e delicado momento político em que massas furiosas no mundo islâmico se lançam contra símbolos cristãos e ocidentais depois do impacto de charges sobre símbolos sagrados as muçulmanos. O filme austríaco “Slumming”, de Michael Glawogger (excelente documentarista de “Megacities” e “Workingman´s Death/ Trabalhos Mortais”, seleção da 29ª Mostra), faz um poeta alcoólatra blasfemar sobre a imagem da Santa Maria, chamando-a de puta. É de se imaginar hordas de catálicos ameaçando a produtora do filme e até mesmo os cidadãos austríacos? Evidentemente que não. Dividiu-se o poder radical do Vaticano baseado no medo e na ignorância.
Simultaneamente, o ótimo filme americano “Syriana”, de Stephen Gaghan, apresentado fora de competição e segundo e raro filme político americano da temporada com George Clooney, conclui por coincidência o que vem acontecendo nos territórios feudais em que tiranias ou monarquias sustentadas por interesses americanos de extração de petróleo: ignorância secular que não muda, falta de trabalho e educação, asfixia fascista de censura e dominação. E uma única luz: a mística religiosa. E ai de quem for progressista neste mundo de radicalismos.
Os malefícios da política norte-americana serão lembrados ainda em um registro imperdível – “The Road to Guantanamo”, dirigido pelo inglês Michael Winterbottom (Prêmio Urso de Ouro em Berlim 2004 com “In this World/ Neste Mundo”). Num misto de documentário com imagens de arquivos, entrevistas e muita imaginação, Winterbottom vai nos levar ao território sem lei de Cuba onde uma base ilegal americana torra milhões de dólares em inteligência e interrogatórios de supostos terroristas, para decifrar que mal os acomete. A resposta não seria muito difícil – ignorância – se os interesses da indústria bélica não nos distraíssem tanto com suas explosões cinematográficas. E haja melancolia para traduzir todos esses males que assistimos a distância.