Jornal da Mostra

Egito conta sua história através de `Yacoubian Building`
Yacoubian Building
Nº 397 > 29ª Mostra > 14/02/2006



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Leon Cakoff, de Berlim, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff

Egito conta sua história através de `Yacoubian Building`

No ano de 1934, um rico comerciante armênio teria construído o imponente “Yacoubian Building” no coração do Cairo, no melhor estilo da arquitetura européia, com a idéia de agregar luxo e conforto num só espaço. Hoje a história do edifício seria outra e é o que veremos sem quase piscar os olhos através da fascinante narrativa do filme “The Yacoubian Building”, de Marwan Hamed, uma epopéia que se inscreve como a mais cara produção do cinema egípcio de todos os tempos, de US 4 milhões. Não é quase nada para os padrões do cinema americano, mas o resultado é muito bom para os padrões melodramáticos do cinema do universo árabe.

Como não poderia deixar de ser, no melhor estilo dos filmes do Oriente Médio, também há números musicais em “Yacoubian Building”, mas aqui executados com sofisticação. A narrativa segue o drama de vários seres que circulam pelo edifício na atualidade. Um dos personagens lamenta a decadência do edifício e a associa com o declínio da própria cultural social egípcia. O filme é ainda mais corajoso do que isso. Ao seguir vários personagens, cruzamos com um jovem desempregado que tem o seu desespero amparado por radicais muçulmanos. Em pouco tempo ele é transformado um agitador raivoso que acaba preso e torturado pela polícia política. Tem seguimento do seu ponto de vista mais um dos infinitos ciclos de terrorismo vividos na região.

Mas “La Vie em Rose” (uma das canções executadas no filme) que dá a falsa aparência farsesca do drama segue com outros planos não menos conflituosos. O que prevalece é o de um velho playboy decadente que insiste em flertar com jovens de aparência inocente. Todas as histórias têm seus reversos imprevisíveis. Inclusive a do homossexual que se expõe perigosamente sua condição oficialmente condenada para conquistar parceiros.

O afresco pleno da sociedade egípcia, sem esquecer de todas as palhetas do sofrimento e das condições femininas nas mais diversas classes sociais, existe graças ao romance de mesmo nome, escrito por Alaa Al Aswani, já em sua 14ª edição. O suporte a esta ótima adaptação ao cinema é dado por um grande elenco de atores, sem pieguices ou atuações forçadas como forma de apelo popular. Nesse grupo altamente experiente de atores egípcios, o grande destaque é Adel Imam, que faz justamente o playboy decadente.

Um dos produtores do filme, Imad Adeeb, presente no 56º Festival de Berlim, onde “The Yacoubian Building” foi apresentado na seção Panorama, fala com entusiasmo do sucesso de “Yacoubian Building” e anuncia para a edição berlinense da revista americana Variety sua próxima super-produção, de US 7 milhões, que vai traçar o perfil de Osama Bin Laden. E antecipou o que deverá ser a linha do novo filme: “As primeira vítimas de Bin Laden não foram o Ocidente e os cristãos; foram os árabes e os muçulmanos.”


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