Jornal da Mostra
Vitus
Nº 398 > 29ª Mostra > 15/02/2006
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Leon Cakoff, de Berlim, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
Comédia dramática `Vitus`, com Bruno Ganz, encanta audiências do festival
A comédia dramática “Vitus”, do diretor suíço Fredi M. Murer, com Bruno Ganz no papel sedutor de um avô excêntrico, foi a mais agradável surpresa na primeira metade do 56º Festival de Berlim, não em competição como deveria, mas na paralela Panorama. A sessão pública que contou com a presença de Bruno Ganz, que interrompeu os ensaios de uma peça teatral em Munique, serviu para provar como o ator, também suíço, é muito querido pelo público alemão desde a sua marcante participação em “Asas do Desejo/ Wings of Desire”, de Wim Wenders e, mais recentemente como Hitler em “A Queda/ Downfall”.Depois dos aplausos emocionados para Bruno Ganz, mais aplausos em várias passagens do inteligente filme sobre um menino prodígio predestinado a ser um pianista virtuoso, e infinitos aplausos ao final da projeção, com muitas lágrimas nos olhos da platéia. Um prodígio para um festival que em geral tem mão pesada na seleção e que dá preferência a temas adultos e problemáticos.
“Vitus” encanta por seguir a infância e a adolescência de um pequeno gênio, que tem ouvido apurado de morcego, e toca piano como um jovem Mozart, é interpretado com impressionante espontaneidade por dois atores mirins inesquecíveis – Frabrizio Borsani, que faz Vitus com a idade de seis anos, e Teo Gheorghiu, um real pianista mirim virtuoso, que faz o personagem já com 12 anos de idade.
O conflito principal do filme surge na pressão de uma mãe obsessiva que quer cuidar da agenda asfixiante do filho gênio para que ele não se desconcentre dos estudos. Bruno Ganz encanta por sugerir sempre os pontos de fuga para o seu querido neto. Vitus, de fato, prefere o refúgio da oficina do avô, onde eles constroem bumerangues, engenhocas voadoras e até se divertem em um simulador de vôo de verdade, do que realmente seguir os estudos programados pela mãe. O real ponto de fuga de ambos é realmente sair voando. A comédia fica dramática quando o menino tenta voar num planador do avô, salta do balcão de sua casa e vai parar no hospital com trauma cerebral. A pancada faz desaparecer o que havia de gênio no menino. Para os pais isso é uma tragédia, mas para Vitus isso é liberdade para ser uma criança normal, como todas as outras.
O filme tem também piadas prontas que funcionam muito bem na narrativa, como quando Vitus tenta salvar as finanças da família e investe no mercado de ações, e diz: “Investir na bolsa é ótimo. A gente pode ganhar 1000% do investimento, mas só pode perder no máximo 100%”. Em outra seqüência brilhante o pequeno Vitus confessa sua paixão por uma adolescente seis anos mais velha e constrói uma simpática equação sobre a lógica dos homens se unirem a mulheres mais velhas já que os homens estatisticamente morrem antes que as mulheres.
Teo Gheorghiu, que faz Vitus aos 12 anos, foi realmente selecionado entre alunos extremamente talentosos no famoso Purcell School London. Nasceu em 1992 na Suíça, fala cinco línguas e toca piano desde os nove anos de idade. A sua participação ao piano com orquestra, encerra o filme com extrema e inesquecível emoção.