Jornal da Mostra
Grbavica
Nº 400 > 29ª Mostra > 18/02/2006
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Leon Cakoff, de Berlim, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
Visão feminina no festival destaca `Grbavica`, tragédia grega na guerra da Bósnia.
Prevalece a autoridade feminina da atriz Charlotte Rampling, presidente do júri, nas premiações do 56º Festival de Berlim, que deu o seu prêmio máximo a “Grbavica”, filme de estréia da diretora bósnia Jasmila Zbanic, 30 anos, sobre a geração de jovens nascidos de estupros durante a guerra de esfacelamento da Iugoslávia. Prevalece a tristeza traduzida em melancolia, daquele sentimento de tristezas vistas a distância. Inspirado na triste realidade das mães acidentais, o cinema balcânico teve uma safra anterior de filmes sobre os casos de estupros e traumas de mulheres bósnias. Agora vemos como que fatos o drama dos filhos indesejados como na relação mãe solteira e filha sem pai no ótimo “Grbavica”.Outra estreante, a dinamarquesa Pernille Fischer Christensen, de “Em Soap/ A Soap”, dividiu os Ursos de Prata com “Offside”, do sempre vencedor diretor iraniano Jafar Panahi. Ambos, filmes empenhados na defesa das liberdades femininas. A dinamarquesa segue o sufoco de uma mulher descasada que acaba se solidarizando em seu novo apartamento com um vizinho transexual. O cinema dinamarquês consegue apresentar com crueza a radiografia de uma sociedade aparentemente baseada na harmonia e no progresso social.
Já Panahi segue o drama de um grupo de adolescentes iranianas que tentam entrar no estádio de futebol em Teerã e são presas por ser um território proibido para mulheres. O cinema iraniano consegue dizer com aparente inocência todas as barbaridades cometidas pelo regime tirânico dos aiatolás.
Mais Ursos de Prata para a dupla inglesa Michael Winterbottom e Mat Whitecross, pelo fulminante “The Road to Guantanamo”, como melhores diretores. O docudrama refaz o roteiro de terror de três jovens ingleses, de pais paquistaneses, que são presos por engano no Afeganistão e vão ser torturados pelas tropas americanas na baia de Guantanamo onde os EUA mantém um posto avançado, uma base militar, um enclave colonial, um protetorado em território cubano.
Ficaram com os extraordinários talentos alemães os Ursos de Prata de melhor atuação: Sandra Hüller por “Réquiem”, de Hans-Christian Schmid, um filme tenso e arrepiante sobre exorcismo e possessão. Como melhor ator, Moritz Bleibtreu, em “Elementarteilchen/ The Elementary Particles”, um drama sobre veleidades e traumas familiares, com muito humor e revelações escandalosas sobre a sociedade alemã de fim de século (20). O filme deve repetir o sucesso do livro cult alemão de Michel Houellebecq, em que é inspirado.
Outro ator alemão, Jüngen Vogel, levou Urso de Prata por sua contribuição artística como ator, co-escritor e co-produtor de “Der Freie Wille/ The Free Will”, um filme de amor flagelado e doentio, mais um no fértil repertório da cinematografia alemã. Sabine Timoteo, atriz que duela com Vogel no filme, bem que também merecia um prêmio.
O último Urso de Ouro foi para Peter Kam, chinês de Hong Kong que fez o belíssimo “Isabella”, um filme que tem como pano de fundo os traços da colonização portuguesa em Macao. Mas o prêmio do filme foi pela sua trilha sonora que se fecha com um belo fado. O cinema latino se destacou apenas com o impacto de grande originalidade “El Custodio”, do argentino Rodrigo Moreno, seguindo a perspectiva e o ponto de vista de um guarda-costas na sua relação com o ministro de estado que deve seguir e proteger. Levou o prêmio Alfred Bauer.
Nada como um bom júri para salvar um bom festival. O vencedor de Berlim do ano passado, por exemplo, foi um desastre com a premiação de uma versão esquisita da ópera “Carmem”, que ninguém sabe de que se trata ou quase ninguém viu.