Jornal da Mostra

Festival cresce com homenagens, encontros e uma boa seleção de filmes latino-americanos
Un Mundo Maravilloso
Nº 404 > 29ª Mostra > 31/03/2006



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Leon Cakoff, de Guadalajara, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff

Festival cresce com homenagens, encontros e uma boa seleção de filmes latino-americanos

O Festival Internacional de Cine en Guadalajara (24 – 31 Março/ 06) cresce e muito em sua 21ª edição, sob nova direção do produtor e diplomata Jorge Sánchez. Guadalajara sempre ofereceu ao seu público (especialmente composto pelos estudantes da rede universitária) e a seus convidados (basicamente representantes de outros festivais internacionais) a melhor oportunidade de se ver todas as novidades do cinema mexicano.



Nesta nova edição, ampliou-se o panorama do cinema latino-americano e espanhol. Discutiu-se o importante papel das instituições promotoras do cinema latino-americano como co-produtoras e agentes estimulantes de novos filmes; homenageou-se a atriz espanhola Marisa Paredes, destacou-se a carreira do ator Pedro Armendáriz que, como o pai, é símbolo marcante do cinema mexicano.



Vários júris foram compostos para uma generosa premiação em todas as categorias participantes. Uma inclusive para eleger bons projetos de filmes ainda em criação. Com o seu talento de diplomata e produtor de cinema, Jorge Sánchez reuniu importantes apoios políticos e empresariais, sempre relevantes no panorama social mexicano, para marcar o seu festival como estratégico na geopolítica latino-americana.



O preço deste sucesso também é um pouco o sacrifício da cultura mexicana aos olhos estrangeiros. Saíram de cena os mariachis e prevaleceram os inconvenientes DJs com suas seleções techno music na maioria das recepções oficiais do festival. Embora modesta, um dos pontos altos do festival de Guadalajara foi a exposição dedicada ao cineasta espanhol Luis Buñuel a partir da repercussão mundial de “Los Olvidados”, rodado em 1950 no México, sobre infância abandona e delinqüência juvenil. O cineasta saía de seus marcos surrealistas rodados na França em 1928 e 1930 (“Un Chien Andalou”, co-dirigido com Salvador Dali, e “L’âge d’or”) para um realismo social implacável. Foi aclamado como herói por todos os intelectuais de resistência na época, mas também provocou a ira de muitos mexicanos que viram “Los Olvidados” como um produtor muito prejudicial para a imagem do México para o mundo.



O efeito globalização acaba sendo satirizado em um filme mexicano que não coube na seleção de Guadalajara por ter estreado nos cinemas do país antes do início do festival. “Un Mundo Maravilloso”, de Luis Estrada, satiriza exatamente os que atacaram “Los Olividados/ Os Esquecidos” há mais de 50 anos. A comédia ácida do xará de Buñuel trata da classe de políticos e tecnocratas que criam gráficos estatísticos sobre o declínio da pobreza e mesmo sobre a sua fantasiosa inexistência. Na vida real os pobres são confinados e maquiados. O inesperado acontece quando um sem-teto é confundido com um suicida e ganha notoriedade na imprensa. O ministro da Economia posa como seu salvador para não prejudicar suas ambições carreiristas. No final o filme reserva uma amarga surpresa de humor negro na interpretação do lema preferido da troupe de miseráveis: “é melhor ser rico por um dia do que miserável para sempre”.

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