Jornal da Mostra
Carlos Alberto Riccelli e Malu Mader em ‘Brasília 18%’
Nº 405 > 29ª Mostra > 12/04/2006
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Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
Acadêmico Nelson Pereira dos Santos rompe o silêncio dos intelectuais com ‘Brasília 18%’
O mestre Nelson Pereira dos Santos foi eleito recentemente novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). É o primeiro cineasta a integrar essa irmandade acadêmica que nos últimos anos foi maculada com o ingresso de escritores de qualidades descartáveis. Nelson Pereira dos Santos ainda é a meu ver o autor do filme mais importante de toda a história do cinema brasileiro – “Vidas Secas”, de 1963, inspirado na obra de Graciliano Ramos, um dos clássicos também da literatura brasileira. Agora as atenções se redobram sobre as opiniões do ‘imortal’ Nelson Pereira dos Santos, uma vez que cingido pelo título acadêmico, ao revelar o conteúdo de seu novo filme “Brasília 18%”. Podemos dizer que o acadêmico Nelson Pereira dos Santos rompe o silêncio dos intelectuais com este seu novo filme sobre corrupção política na capital do país.Antes tarde do que nunca. Para complicar o estarrecimento nacional diante dos escândalos de corrupção de um governo federal lotado de agitadores da bandeira do Partido dos Trabalhadores, pesa o silêncio solidário de intelectuais sempre simpatizantes a miragens vermelhas à esquerda de seus horizontes. “Brasília 18%” passa a ser o primeiro filme brasileiro que coloca o dedo nessa ferida institucional aberta e sangrando. No balanço da sua carreira cinematográfica, Nelson Pereira dos Santos resulta mais literário do que estético. Isso mais do que justifica o seu ingresso na ABL. Portanto, nada de comparações com “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, outro marco político do cinema brasileiro, de 1967, e que acaba de ser restaurado e lançado em DVD.
“Terra em Transe” constrói uma alegoria pessimista sobre a corrupção.
Nelson Pereira não, vai direto aos fatos da atualidade. Dá nome de escritores e artistas a seus personagens de políticos e corruptos, sua única licença poética, mas não disfarça nada. A bela Brasília torna-se até feia, sem encantos, seca com os seus apenas 18% de umidade no ar. A inspiração de Nelson Pereira veio de um outro tempo de corrupção, de 1993, conhecido como escândalo dos ‘anões do orçamento’. Uma quadrilha de congressistas e funcionários públicos manipulava os orçamentos da União, envolvimentos de prestadores de serviço ao governo, grandes empreiteiras que depois de favorecidas com obras milionárias destinavam comissões igualmente milionárias aos corruptos (ou corruptores?).
Semelhanças com a atual crise ética, moral, institucional são tantas que os personagens de “Brasília 18%” aparecem confortáveis para vestir qualquer carapuça. Não importa o grau de corrupção. Nelson Pereira não permite complacência a nenhum desses personagens com graus de envolvimento que fazem a temperatura sempre caminhar para a máxima de 100%. E lá chegaremos ao final do filme, estarrecidos com a impossibilidade de redenção. O salto de “Terra em Transe” para “Brasília 18%” enoja pela sugestão da corrupção não ser apenas cíclica, mas endêmica. E que diria um filme ser agora o símbolo de ruptura do vergonhoso silêncio dos ditos intelectuais.
Mais informações em www.brasilia18.com.br