Jornal da Mostra
Penélope Cruz em “Volver”
Nº 414 > 29ª Mostra > 23/05/2006
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Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
Cineastas com estilo, a arte fascinante de se reconhecer um filme pela assinatura.
Diretores como Ken Loach e Pedro Aldomovar têm uma longa carreira de filmes para definir seus estilos e sua comunicação com as platéias de todo o mundo. Ambos estão em competição no 59º Festival de Cannes e serão julgados por um júri presidido por Wong Kar Wai, que também é de um estilo melodramático inconfundível. Mas o admirável é ver como outros três diretores igualmente na competição de Cannes, conseguiram construir com tão poucos filmes estilos igualmente próprios, como uma assinatura, como uma pintura de Picasso inconfundível.
“Volver”, de Pedro Almodóvar, é o retorno de Almodóvar ao seu retrato do mundo feminino, com uma riqueza de detalhes que faz a essência da sua marca. Mais que isso, a cada filme de Almodóvar, uma das atrizes do seu rico universo humano é coroada como a rainha da vez. E em “Volver” quem brilha esplendorosa é Penélope Cruz. Para consagrar a força feminina em “Volver”, Almodóvar é capaz de aniquilar qualquer moral masculina. Os poucos homens do filme, um deles apenas em memória, ou são cafajestes extremos ou frouxos. Um deles, ao desistir de tocar um restaurante na aldeia, deixa para a desesperada Raimunda um livre campo criativo. Até para cantar um velho tango de Gardel.
O cineasta turco Nuri Bilge Ceylan também é estiloso e reconhecível, apesar de estar apresentando em Cannes o seu quarto filme – “Iklimler/ Climates/ Os Climas”. A sua consagração, através do mesmo festival, foi com o anterior “Uzak”. Embora reconhecível, a sua fonte vem do cinema da incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni e, mais ainda, desta vez, das paisagens desoladas de inverno retratadas por Abbas Kiarostami. “Iklimler” é obsessivamente focado na própria imagem do cineasta, pois reserva sempre a sim os papeis principais de seus filmes. Sua mulher Ebru Ceylan divide a outra metade da tela e fica com a principal interpretação feminina. Em cena, o casal de namorados não se entende. A felicidade de um anula a do outro. O mundo real parece não existir, pois ambos também trabalham em diferentes equipes de televisão. Um dos grandes prazeres do filme é oferecido pela sua captação em digital de alta definição. Pela primeira vez o Festival de Cannes exibe um filme da sua lista de competição em projeção digital. Belíssima e impecável projeção. Felizmente ou infelizmente o futuro de um filme digital na tela avança.
Ao contrário do turco, o filme finlandês de Aki Kaurismäki “Lights in the Dusk/ Laitakaupungin Valot”, foi rodado do modo clássico, em película, e se mostrou exuberante na sua seleção de cores densas, num perfeito equilíbrio para os seus personagens vencidos pela dureza da vida real. Seu pequeno herói é um inocente guarda noturno que se apaixona por uma mulher fria e sedutora. Ela está a mando de uma quadrilha e só quer o código de acesso da joalheria. Como Almodóvar, Kaurismäki também constrói o seu estilo há muito tempo e tem sua marca registrada. Até os objetos em cena parecem ter a sua assinatura. Nos filmes do finlandês, a realidade é trapaceira e os humanos têm seus instintos primários todos corrompidos. Vagam como robôs tentando apenas sobreviver no dia-a-dia. Com personagens assim aturdidos o cinema de Kaurismäki também é inconfundível.
O mexicano Alejandro González Iñarritu é mais um dos fenômenos recentes possíveis de reconhecer por seu estilo próprio. Com “Babel”, apenas o terceiro filme que faz (os outros dois foram “Amores Perros/ Love’s a Bitch” e “21 Gramas/ 21Grams”), Iñarritu está consagrado pela marca de uma narrativa fragmentada que aos poucos forma para o espectador um mosaico compreensível. Com o esperado “Babel”, em competição, personagens no Japão, nos Estados Unidos e a fronteira do México, e no deserto do Marrocos, formam uma frágil rede que se identifica através das várias e cruéis nuances da intolerância. Como se vê, Wong Kar Wai, um dos maiores estilistas do cinema, terá problemas para dar o prêmio do festival a um igual. Almodóvar?
Mais informações em:
www.festival-cannes.org