Jornal da Mostra

“Il Caimano”, o cinema que ataca a era cínica do político multimídia Berlusconi
“Il Caimano”, de Nanni Moretti
Nº 415 > 29ª Mostra > 26/05/2006



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Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff

“Il Caimano”, o cinema que ataca a era cínica do político multimídia Berlusconi

Documento sem título “Il Caimano/ The Caiman”, de Nanni Moretti, um dos filmes mais esperados da temporada, grande sucesso em seu país, foi destaque na competição do 59º Festival de Cannes. O cinema italiano segue cumprindo o seu papel de interferência política, de colocar o dedo na ferida toda vez que urge, de desconfiar do cinismo real, de se entregar à sua melhor arte que é o autodeboche.

Este é o segundo filme italiano do ano que desafio o personagem político multimídia Silvio Berlusconi (ver ‘Jornal da Mostra nº403) Mas o filme de Nanni Moretti não centra seu fogo no político que há quase duas décadas espalhou o seu poder sobre as mentes italianas e dividiu o eleitorado do país até recentemente quando perdeu a reeleição por pouquíssimos votos.

“Il Caimano” também é um filme sobre a complicada paixão de fazer cinema. Ele começa centrado nos problemas pessoais de um cineasta de filmes de baixo orçamento, há dez anos sem trabalho, em crise de casamento, mas que não desiste. Nem de abandonar o seu velho estudo e o plano de rodar um novo filme, nem a casa, a mulher e os dois filhos.

O roteiro sobre a era Berlusconi lhe cai nas mãos por obra do acaso, entregue por uma fã que o vê numa sessão em homenagem ao diretor alçado à categoria de cult. Afinal, ele é diretor de filmes como “Killer Mocassin” e “Maciste vs. Freud”, estrondosos fracassos de bilheteria e adorado por poucos. O roteiro de Berlusconi chega ao seu encontro num momento certo. É quando o banco quer lhe tomar tudo por falta de pagamento e quando ele está com dificuldades em conseguir produzir um novo filme épico chamado “The Return of Christopher Columbus”.

Pior com o projeto Berlusconi, que continua afugentando produtores. Mas com o cinismo característico de Moretti, vamos sabendo como poderia ser o filme de denúncia sobre Berlusconi só pelas leituras e ensaios do filme que se ensaia fazer. O caimão do título é o nosso chamado jacaré-de-papo-amarelo. Um réptil que o filme sugere como um ser que se insinua nas mentes ao mesmo tempo em que chafurda na lama. Um político essencial com campanhas milionárias, projetos imobiliários suspeitos, fortunas sem origem conhecida, aquisições ilegais de veículos de comunicação, jornais, rádios e emissoras de televisão... Já vimos este filme? O filme de Nanni Moretti certamente não, que começa a ser visto agora fora da Itália. Mas a urgência de fazê-lo dentro do próprio filme de Nanni Moretti é imperativa.

Mais informações em:
www.festival-cannes.org




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