Jornal da Mostra
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Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
Guillermo del Toro filma conto de fadas para adultos
Ofélia é uma menina que acompanha a mãe, recém-casada com um capitão de armada fascista, a uma região onde ainda há guerrilheiros resistentes em 1944 contra a vitória das tropas de Franco. Ela receberá três provas, três desafios de um velho fauno da floresta para voltar a ser uma princesa. Quando o filme fica ao seu lado a narrativa é fantástica, como se visasse espectadores pré-adolescentes ainda amantes das aventuras de Harry Potter. Mas quando o filme fica no campo da sua realidade, entre a resistência contra os franquistas e a brutalidade de suas tropas, o filme é puro terror.
Entre a fantasia e o terror real, Guillermo del Toro vai nos guiando por um labirinto insidioso, mas com fronteiras bem definidas entre as criaturas dos reinos mágicos e as criaturas demoníacas. O ótimo ator Sergi Lopez, no papel do coronel fascista, é uma das mais assustadoras personificações sem artifícios do terror no cinema. O que estará querendo nos dizer o competente cineasta mexicano? Uma coisa muito simples ao longo de toda a duração deste filme de pesadelos, desafios e encantamentos, com recursos e efeitos especiais muito competentes: as faces do terror real não precisa de nenhuma maquiagem, de nenhum subterfúgio, de nenhuma pirotecnia.
Ofélia poderá voltar a ser princesa um dia. Não vamos
estragar o prazer de ninguém que ainda vai ver o filme e seguir o cumprimento
dos três desafios da menina. Mas o que não tem magia que apague
são as brutalidades reais que a história registra e o cinema serve
para lembrar ciclicamente. É para essa encruzilhada que nos dirige o
inteligente filme de Guillermo del Toro, muito bem escrito e roteirizado por
ele mesmo: o terceiro desafio da menina para voltar a ser princesa é
a base de um dos maiores pesadelos de toda a nossa imoralidade humana, o infanticídio.
Dos leitores
Recebo o Jornal da Mostra pelo e-mail e moro na Espanha há quatro anos.
Adoro ler os textos de Leon Cakoff, mas tenho que fazer uma correção
(ao Jornal da Mostra nº 411, referente ao filme “Volver”, de
Pedro Almodóvar), quando ele diz: "Os poucos homens do filme, um
deles apenas em memória, ou são cafajestes extremos ou frouxos.
Um deles, ao desistir de tocar um restaurante na aldeia, ..." Ele se refere
por aldeia a um bairro semi-periférico de Madri, acho que não
foi feliz no comentário. Além de ser um bairro muito conhecido
e boêmio "Vallecas" não pode ser uma aldeia. Para onde
o dono do restaurante se dirige sim, é uma aldeia, ou uma cidade pequena,
melhor dizendo.
Verônica Lugli
Mais informações em:
www.festival-cannes.org