Jornal da Mostra
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Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
Festival promove cinema francês com mais privilégios e oportunidades
“Flandres” pode ser considerado o melhor filme da carreira de Bruno Dumont, depois de “A Vida de Jesus/ The Life of Jesus”, “L’Humanité/ Humanity” e do estranhíssimo “Twentynne Palms”. Seus elementos humanos em “Flandres” vêm com os traços consagrados nos filmes anteriores – a brutalidade dos sentimentos, o sexo pesado e sem prazer, o instinto elevado à total irracionalidade. Da região de Flandres, perto da fronteira da Bélgica, de cultura flamenga, um grupo de amigos deixa a juventude para trás e parte para a guerra em um indistinto país árabe. Acuados pelo medo e os perigos reais das ciladas da guerrilha, viram monstros que matam e violam. E sofrem baixas horríveis. Restará a esperança do amor, mas precedido de um aprendizado ainda mais profundo nos abismos da barbárie. “Flandres” recebeu o Grande Prêmio do Júri, uma espécie de segundo prêmio do Festival de Cannes.
“Indigènes”, de Rachid Bouchareb (“Little Senegal”), é uma verdadeira lição de história e bofetada na cara dos historiadores. Ao menos da história oficial da França que ignora o heróico empenho de mais de 130 mil soldados recrutados nas então colônias francesas de cultura árabe. Esta é a história real de quatro ‘indígenas’ que saem da mesma aldeia argelina para lutar em território francês contra tropas da Alemanha nazista. Mais que o clamor contra o esquecimento dessa luta, o que o filme de Bouchareb mostra é o racismo e o tratamento de terceira classe que se reservava a esses soldados em plena marcha da guerra. O resultado é um filme que poderá até mesmo alcançar popularidade graças ao realismo das suas ações de batalha e a tensão que reina o tempo todo, como nos melhores clássicos do cinema sobre a Segunda Guerra Mundial. O quarteto de intérpretes ‘indígenas’ também é ótimo, com atores franceses de origem árabe, em um raro filme digno para todos da sua cultura – Jamel Debbouze, Sammy Nacéri, Sami Bouajila e Roschdy Zem. Em filmes de Hollywood eles só teriam papeis de terroristas. Todos os quatro atores, mais Bernard Blancan receberam um original prêmio coletivo de interpretação masculina.
O quarto filme francês em competição foi “Quand j’Étais
Chanteur/ The Singer”, de Xavier Giannoli, com o grande mérito
de resgatar velhas canções populares de dança de salão,
e de trazer o sagrado ator Gérard Depardieu à sua melhor forma.
E como cantor. Nostálgico, com medo da febre do karaokê acabar
de vez com a sua decadente carreira, o cantor perde o passo de vez ao se apaixonar
por uma jovem que vai uma noite apenas ouvi-lo cantar por curiosidade. O seu
esforço vigoroso de parar o tempo para consagrar a nostalgia de um cancioneiro
popular muda de ritmo rapidamente. Agora ele deve mudar o seu ritmo nem que
isso significa de vez a morte de sua carreira de cantor de salão e de
casais nostálgicos. O bom do filme é que o que se vê é
para espectadores de qualquer idade. O cinema francês foi muito privilegiado
neste festival de Cannes. Mas não fez feio.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org