Jornal da Mostra
“Marie Antoinette”, de Sofia Coppola
Nº 422 > 29ª Mostra > 20/06/2006
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Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
Corajosa Sofia Coppola em “Marie Antoinette”, filme pop e polêmico
O filme é deslumbrado pelo luxo da realeza francesa. E é recheado de músicas new wave/ neo-romantic de bandas como o New Order e Bow Wow Wow, banda dos anos 80 organizada pelos Sex Pistols. Música pop, coreografias arrojadas e apelos visuais exuberantes nos figurinos, mais fazem Marie Antoinette parecer uma cluber adolescente, fantasiada para uma festa extemporânea. Na esteira do filme que deverá focar platéias jovens, o mercado editorial francês aproveitou para romper mais tabus sobre a Revolução Francesa que há mais de duzentos anos faz prevalecer opiniões fechadas e monolíticas sobre lutas de classe.
Sofia Coppola não chega a sugerir um revisionismo histórico. Apenas faz ver a história da realeza francesa com o que ela teve de mais belo e fútil. Mas na esteira do filme, a audaciosa campanha de lançamento do livro de Antonia Fraser pela editora Flammarion é francamente monarquista. A campanha do livro compara Marie Antoinette (Kirsten Dunst) a uma Lady Di do passado. Apresenta a nobre personagem como uma vítima de mal-entendidos e de rumores, um anjo caído, o bode expiatório de um absurdo político. E no filme o seu maior problema parece estar concentrado no pouco apetite sexual do seu marido real, Louis XVI (Jason Schwartzmann).
Coppola, a exemplo da escritora monarquista, também vê com simpatia a figura de Marie Antoinette que ficou célebre por sugerir que o seu povo comesse brioches na falta de pão. O filme é um deslumbramento só pela beleza da corte e sua cultura banhada a ouro. O povo, a plebe, tal qual relatada pela história real, mal aparece no filme. Mas a última imagem do filme é emblemática. Ela mostra em imagem estática a conseqüência da invasão do Palácio real de Versalhes, com um de seus ricos salões espoliado e destruído.
A rica incursão histórica contou com total apoio do governo francês, onde se permitiu à produção americana de Coppola acesso irrestrito e inédito aos interiores restaurados e preservados do Palácio de Versalhes. Foi lá que viveu a jovem austríaca Marie Antoinette do ano do seu casamento, em 1770, até 1789, ano da revolução francesa que aboliu a monarquia e fez ascender duas novas classes sociais – a burguesia e a pequena burguesia. Uma outra visão sobre Marie Antoinette, do célebre escritor austríaco-judeu Stefan Zweig, de 1933, teria sido rejeitada por Coppola por ser muito hostil à sua personagem real. A história da Revolução Francesa é mesmo muito complexa. E este certamente não será o último filme sobre o tema.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org