Jornal da Mostra

Corajosa Sofia Coppola em “Marie Antoinette”, filme pop e polêmico
“Marie Antoinette”, de Sofia Coppola
Nº 422 > 29ª Mostra > 20/06/2006



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Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff

Corajosa Sofia Coppola em “Marie Antoinette”, filme pop e polêmico

Documento sem título Sofia Coppola saiu do sucesso quase unânime de “Encontros e Desencontros/ Lost in Translation” para a polêmica internacional com “Marie Antoinette”, uma controvertida e corajosa adaptação do livro já polêmico da escritora Lady Antonia Fraser. A expectativa que havia em torno de “Marie Antoinette” na competição do 59º Festival de Cannes foi abafada pelas vaias ao final da sua primeira projeção, na sessão para jornalistas, em maio passado. Mas isso só aumentou a curiosidade internacional pelo filme pop-real, mais para “Amadeus”, do tcheco Milos Forman do que “Danton”, do polonês Andrzej Wajda.

O filme é deslumbrado pelo luxo da realeza francesa. E é recheado de músicas new wave/ neo-romantic de bandas como o New Order e Bow Wow Wow, banda dos anos 80 organizada pelos Sex Pistols. Música pop, coreografias arrojadas e apelos visuais exuberantes nos figurinos, mais fazem Marie Antoinette parecer uma cluber adolescente, fantasiada para uma festa extemporânea. Na esteira do filme que deverá focar platéias jovens, o mercado editorial francês aproveitou para romper mais tabus sobre a Revolução Francesa que há mais de duzentos anos faz prevalecer opiniões fechadas e monolíticas sobre lutas de classe.

Sofia Coppola não chega a sugerir um revisionismo histórico. Apenas faz ver a história da realeza francesa com o que ela teve de mais belo e fútil. Mas na esteira do filme, a audaciosa campanha de lançamento do livro de Antonia Fraser pela editora Flammarion é francamente monarquista. A campanha do livro compara Marie Antoinette (Kirsten Dunst) a uma Lady Di do passado. Apresenta a nobre personagem como uma vítima de mal-entendidos e de rumores, um anjo caído, o bode expiatório de um absurdo político. E no filme o seu maior problema parece estar concentrado no pouco apetite sexual do seu marido real, Louis XVI (Jason Schwartzmann).

Coppola, a exemplo da escritora monarquista, também vê com simpatia a figura de Marie Antoinette que ficou célebre por sugerir que o seu povo comesse brioches na falta de pão. O filme é um deslumbramento só pela beleza da corte e sua cultura banhada a ouro. O povo, a plebe, tal qual relatada pela história real, mal aparece no filme. Mas a última imagem do filme é emblemática. Ela mostra em imagem estática a conseqüência da invasão do Palácio real de Versalhes, com um de seus ricos salões espoliado e destruído.

A rica incursão histórica contou com total apoio do governo francês, onde se permitiu à produção americana de Coppola acesso irrestrito e inédito aos interiores restaurados e preservados do Palácio de Versalhes. Foi lá que viveu a jovem austríaca Marie Antoinette do ano do seu casamento, em 1770, até 1789, ano da revolução francesa que aboliu a monarquia e fez ascender duas novas classes sociais – a burguesia e a pequena burguesia. Uma outra visão sobre Marie Antoinette, do célebre escritor austríaco-judeu Stefan Zweig, de 1933, teria sido rejeitada por Coppola por ser muito hostil à sua personagem real. A história da Revolução Francesa é mesmo muito complexa. E este certamente não será o último filme sobre o tema.

Mais informações em:
www.festival-cannes.org




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