Jornal da Mostra

GUERRA DE FESTIVAIS CONFRONTA VENEZA E ROMA; QUEM PERDE É O PÚBLICO.
Nº 426 > 29ª Mostra > 31/08/2006



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Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff

GUERRA DE FESTIVAIS CONFRONTA VENEZA E ROMA; QUEM PERDE É O PÚBLICO.

Em Cannes, nas festas organizadas pela prefeitura de Roma, o clima foi sempre cordial. Não durou muito. Às vésperas da inauguração do 63º Festival de Veneza, o seu diretor Marco Müller partiu para o ataque contra o novo festival de Roma, anunciado como Festa de Roma. A previsão para a abertura do novo festival de Roma é para 12 de outubro, um mês depois do encerramento de Veneza. Mas, diante da guerra declarada, os seus organizadores passaram a falar em achar uma outra data no calendário do ano. E, como em todas as guerras, quem sempre sai perdendo é o povo/público, pois é um absurdo a norma praticada entre os festivais italianos e quase todos os europeus com megalomania. Um filme, seus autores e as audiências são sempre as prejudicados, pois se um filme passa antes em um festival de uma cidade concorrente, é sistematicamente boicotado pelos outros festivais. Haja guerra!

Müller teria dito, segundo destacaram todos os jornais italianos de 29 de agosto, que “a festa de cinema de Roma se fará com os filmes descartados pelo festival de Veneza... Assim vai parar a choradeira dos não selecionados por Veneza”. Com a repercussão da declaração, para a emissora Tg3, Marco Müller teria consertado a sua declaração para o jornal: Não disse descartado, é uma síntese imprópria, disse “filmes que não quisemos”. A resposta de Roma foi imediata: “Isto é uma grande ofensa a todas as pessoas envolvidas na realização de um filme”.

Antes mesmo que a Festa de Roma mostre seus resultados, as comparações parecem já diminuir os valores de Veneza. O festival de Veneza está deixando de ser atraente para os grandes estúdios americanos que já elegeram Berlim (em fevereiro) e Cannes (em maio) para promover os seus filmes de temporada. O fator principal é a falta de infra-estrutura para a criação de um mercado de compra e venda de filmes. Outro fator, há muito reclamado por produtores e imprensa, está nos preços proibitivos de Veneza, abusivos, em hotéis e restaurantes que chegam a cobrar 300 euros ou mais por uma refeição e ainda tratam mal os seus clientes.

O prefeito de Roma, Walter Veltroni, está pessoalmente envolvido na organização da sua festa de cinema. Ele anuncia o festival com um orçamento milionário de 12 milhões de euros, o dobro do que diz ter Veneza para o seu festival. Roma também espera seduzir o mercado internacional e atrair os distribuidores de filmes oferecendo a seus agentes em todo o mundo as maiores facilidades e mordomias. Roma quer reconquistar esse mercado comercial do cinema que já foi italiano na mesma temporada quando a cidade de Milão organizava o finado Mifed. E Milão perdeu o seu mercado de cinema para Los Angeles, o American Film Market, justamente por excesso de ganância, com preços extorsivos e absurdos como os atualmente reclamados pelos participantes do festival de Veneza (realizado no Lido, a 40 minutos de lancha da saturada Veneza).

Walter Veltroni anuncia o seu orçamento de 12 milhões de euros como de origem exclusivamente do capital privado e diz que chegou ao ponto de recusar mais patrocínios. O principal patrocinador da Festa de Roma será o banco italiano BNL, que já foi patrocinador do Festival de Veneza no passado. Outra parte do orçamento será coberta pela Camera di Commercio. Aos melhores filmes, Roma vai oferecer também farta distribuição em dinheiro. Para tanto, anuncia o cineasta Ettore Scola como presidente do júri que será auxiliado por um colegiado de cinéfilos.


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