Jornal da Mostra
“Sang Sattawat/Syndromes and a Century”,de Apiichatpong Weerasethakul
Nº 427 > 29ª Mostra > 02/09/2006
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Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
DE LENNON, DE SETA E DE PALMA A APICHATPONG WEERASETHAKUL, OS ENCANTOS DO FESTIVAL
Apesar das disputas e a guerra de palavras, Veneza segue sendo um bom ponto de encontro para as novas safras do cinema mundial. A maior curiosidade do primeiro dia do festival foi pelo novo filme do mestre italiano Vittorio De Seta, “Lettere dal Sahara”. Vittorio De Seta será um dos homenageados na 30ª Mostra de São Paulo com o lançamento do livro “Cinema Político Italiano – anos 60 e 70” e a retrospectiva dos filmes que marcaram esse conturbado período mundial. De Seta segue sendo coerente na sua carreira de documentarista político. Com “Carta do Saara” faz um docudrama inédito para o cinema italiano de olho na nova realidade do país que a cada dia deve acolher mais e mais imigrantes de países miseráveis ou em guerra. Ele segue clandestinos do Senegal, da chegada com náufragos recolhidos na costa até o retorno ao país de origem. A cada estágio o filme reserva emoções com distintos pontos de vista. O da clandestinidade, o da solidariedade dos italianos, o da violência de italianos intolerantes e o da verdade, narrada por um clandestino às crianças de sua aldeia natal.“The Black Dahlia”, de Brian De Palma, foi o filme de abertura da 63ª Mostra de Veneza. É um film noir com todos os caprichos imperdíveis para cinéfilos - narração na primeira pessoa, mistérios apenas solúveis antes dos créditos finais e principalmente, muitos cigarros acesos fazendo fumaça e jogando o velho charme dos anos 40. Hollywood vai dando um jeito de continuar parceira da indústria milionária do tabaco. Com filme de época, quando não se achava indecente ou não se sabia como era perigoso fumar.
Muito mais fumaça saiu de outro filme americano com os charmes e requintes do film noir – “Hollywooland”, de Allen Coulter. Nesse, o mistério insolúvel é o da morte do primeiro ator a interpretar o Super-Homem para um seriado de televisão. Numa inauguração especialmente favorável aos americanos, tivemos mais duas curiosidades inevitáveis – “Infamous”, de Douglas McGrath, novamente sobre Truman Capote e suas inspirações reais para escrever “A Sangue Frio” e, entre os melhores, o documentário “The U.S. vs. John Lennon”, de David Leaf e John Scheinfeld.
“De todos os documentários já feitos sobre John Lennon, este é o que ele amaria”, diz Yoko Ono, sua mulher. “The U.S. vs. John Lennon” revela vários fatos importantes sobre John Lennon como intenso ativista político enquanto viveu em Nova York, desde o final dos anos 60. O filme prova que um artista pode sim ter opiniões políticas sem dizer obrigatoriamente besteira. Prova que John Lennon não era nada bobinho e superficial como gostava de registrar a mídia na superfície dos fatos que ele criava. E além de relembrar o gênio que foi nas composições solo depois da sua separação dos Beatles, Yoko Ono foi sim um fator agregador e importante nas suas decisões políticas, ao contrário que novamente pintou a imprensa sensacionalista da época. Finalmente, vemos claramente no filme que John Lennon era manipulado por várias correntes políticas de esquerda, depois de testemunhar mais de meio milhão de manifestantes cantando o seu hino “Give Peace a Chance” na marcha sobre Washington em 15 de novembro de 1969, naturalmente pela paz, pelo fim da Guerra do Vietnã. É quando começa a grande batalha kafkiana do governo americano pela expulsão de Lennon e Ono dos Estados Unidos.
O cineasta tailandês Apiichatpong Weerasethakul, de “Tropical Malady” (2004), mostrou na competição de Veneza o novo filme de misticismo, encantamento e magia espiritual “Sang Sattawat/ Luce del Secolo (Luz do Século, em italiano)/ “Syndromes and a Century” (em inglês). A imprensa mundial já havia se entusiasmado e se encantado com o nascimento de uma nova assinatura no cinema com “Tropical Malady” (prêmio da Crítica na 28ª Mostra de São Paulo). O novo filme de Apiichatpong Weerasethakul vem com efeitos de hipnose, com personagens distintos e ambientes diferentes, agindo como se fossem iguais, com os mesmos sentimentos de amor, incerteza, descobertas e paixões. Uma experiência de cinema inesquecível.