Jornal da Mostra

AFEGANISTÃO E MONGÓLIA COM CINEMA HUMANISTA;  DINAMARCA COM UM FILME DE ANARCO-TERAPIA
“Khadak”, de Peter Brosens e Jéssica Woodworth
Nº 428 > 29ª Mostra > 03/09/2006



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Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff

AFEGANISTÃO E MONGÓLIA COM CINEMA HUMANISTA; DINAMARCA COM UM FILME DE ANARCO-TERAPIA

Sempre é possível colher preciosidades nas seções paralelas dos grandes festivais como Berlim, Cannes e Veneza. Aqui em Veneza temos a Giornate degli Autori (a Jornada dos Autores), agora sob a direção do crítico Fabio Ferzetti. Giorgio Gosetti, que a organizava até o passado, passa a cuidar da nova Festa de Roma. Aqui estão três dos primeiros destaques da ‘Giornate’:

“Khadak”, do belga Peter Brosens e da americana Jéssica Woodworth, permite revisitar a Mongólia através de um conto místico e novamente arrepiante (para quem se lembra do estilo narrativo de Brosens). O diretor é conhecido do público da Mostra de São Paulo pelo emocionante filme “O Estado do Cão”. É interessante observar como as outras ciências são bem-vindas nas costuras de um bom cinema. Brosens tem formação em Geografia e Antropologia Cultural; Woodworth em Literatura Italiana e pesquisa para documentários de televisão na França.

Deslocado do seu meio de vida nas estepes mongóis com uma ameaça de epidemia animal, Bagi, um pastor de ovelhas, é obrigado a viver numa distante cidade mineira. É onde descobre o seu grande poder de sentir os animais e as forças sobrenaturais, visões de novos males do mundo que ninguém mais quer ver ou sentir.

O cineasta italiano Vicenzo Marra, também presente na Mostra de São Paulo com seus anteriores “Tornando a Casa” e “Vento di Terra”, faz uma incursão no documentário com o assombroso “L’Udienza è Aperta”. Seguimos um julgamento da ‘Camorra’ napolitana. Um juiz da corte de apelações, um juiz assistente e um advogado criminal analisam as provas incriminatórias contra mafiosos baseadas em escutas telefônicas. Mas o que está em julgamento diante de nossos olhos é outro fato. O que de que a justiça e a lei não são nunca a mesma para todos.

“Offscreen”, do dinamarquês Christoffer Boe, vale-se das facilidades do digital para oferecer ao ator decadente Nicolas Bro a possibilidade de salvar ao vivo o seu casamento. Só que a mulher que quer deixá-lo é contra essa invasão de privacidade. O cinema assume aqui um declarado papel anarco-terapêutico.

“L’Etoile du Soldat/ The Soldier’s Star”, é um filme francês de Christophe de Pontilly, em co-produção com a Alemanha e o Afeganistão. Talvez seja o melhor filme já feito para explicar a origem de todos os conflitos e males do país de paisagens deslumbrantes, ainda invadido e pintado como o portal de todos os infernos. O filme segue primeiro os soldados invasores do império soviético. Um desses soldados russos, ex-roqueiro, ao ser seqüestrado pelos combatentes do Afeganistão, os mujahedins, seu ponto de vista passa a ser também a de um repórter francês que registra as tragédias do país invadido. Pontilly humaniza aos olhos do espectador os dois lados do conflito e lança as suas denúncias chocantes. Que, como sempre, os americanos fazem a pior opção e passam a armar e a investir na criação de um novo monstro que agora nem eles conseguem eliminar – os talebans. Outra notícia trágica atrelada a este magnífico filme humanista é da morte de seu ativo realizador. Christophe de Pontilly suicidou-se em maio passado, aos 55 anos de idade, deixando inacabado o seu segundo projeto de um longa-metragem de ficção, uma sátira sobre os modernos meios de comunicação. Pontilly, além de cineasta e documentarista, especialista em Afeganistão, foi co-fundador da agência de notícias Interscoop.


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