Jornal da Mostra
“La Stella che non c’è”, de Gianni Amelio
Nº 430 > 29ª Mostra > 08/09/2006
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Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
O MUNDO GLOBALIZADO VISTO COM ANGÚSTIA POR TSAI MING LIANG, JIA ZHANG-KE E GIANNI AMELIO
Confidências de Michel Ciment, veterano redator e crítico francês da revista ‘Positif’, na saída de uma das sessões de Veneza 63: “Os festivais são os grandes culpados por isso. O cinema americano não precisa ter vergonha de apresentar um filme certinho, comercial, que é sempre selecionado e todos acham normal. Já o cinema do resto do mundo se tiver algum capricho comercial, é condenado pelos mesmos festivais e não é selecionado. Todo o resto do cinema precisa ser experimental, misterioso, cheio de enigmas para ser selecionado e ovacionado por estas platéias como em Veneza, Cannes. Depois dos festivais acabam não sendo exibidos para mais público algum...”Esperamos que estes não sejam os destinos de quatro filmes (três asiáticos e um italiano) vistos em Veneza, entre o experimental e o cognitivo, mas extremamente sensíveis ao que se passa de violento e silencioso nessa parte do mundo afetada pela globalização.
Tsai Ming Liang volta à Malásia, onde nasceu, troca os cenários de Taiwan onde sempre filmou, para filmar “Hei yanquan/ I Don’t Want to Sleep Alone/ Eu não Quero Dormir Sozinho”. Desta vez o seu ator fetiche Lee Kang-Sheng faz dois papeis – o de um paralítico em coma e o de um chinês errante em Kuala Lampur, uma capital assaltada por operários de todas as partes da Ásia em busca de trabalho. É um grupo de operários de Bangladesh que o salva de um espancamento e o leva para o alojamento em que vivem de maneira improvisada. O chinês ganha a proteção e o carinho de um dos rapazes indianos que o faz dormir sobre um velho colchão que encontram na rua. Mas o chinês será disputado também por uma jovem servente, a que toma conta do seu duplo em coma.
O talentoso chinês Jia Zhang-Ke teve seu novo “Sanxia Haoren/ Still Life/ Natureza Morta” apresentado em competição, mas como filme surpresa. Ele é o diretor de “O Mundo/ The World”, premiado na 29ª Mostra de São Paulo. “Natureza Morta” registra o flagelo do vale das Três Gargantas que, em nome do progresso e da necessidade crescente da China produzir energia, está sendo inundada por uma barragem de hidroelétrica. O flagelo humano é o que menos importa para esse progresso.
Jia Zhang-Ke registra o desespero desta gente com o seu olhar melancólico. No momento em que o seu filme entra em ação, a inundação vai alcançar o seu segundo estágio, pondo água abaixo mais uns 135 metros da história milenar de Fengjie e de comunidades perplexas com a urgência dos deslocamentos da cidade com mais de dois mil anos de tradição. O seu personagem principal está de volta à sua antiga cidade inundada à procura da ex-mulher que deixou há 16 anos para buscar trabalho em uma mina de carvão.
O mesmo Jia Zhang-Ke apresentou em Veneza 63 o documentário “Dong”, com grande parte registrando as mudanças na região submersa das Três Gargantas. O documentário segue o trabalho magnífico do pintor Xiaodong que registra de maneira rara a consternação de grupos de trabalhadores frente a esta natureza em lento processo de destruição. Na segunda parte o documentário segue o pintor para Bangkok onde agora ele vai fazer seus quadros gigantes com jovens mulheres. O que Xiaodong e Jia Zhang-Ke seguem buscando é o registro do interior das almas consternadas dos povos da Ásia que à distância do Ocidente são os paradigmas do progresso que também queremos.
Finalmente também um filme italiano vai à mesma região da China chorar por este modelo de progresso que destrói os melhores sentimentos humanos. “La Stella que non c’è/ A Estrela que não Existe”, é o novo filme do mestre Gianni Amelio. Ele segue um operário da elite italiana, desempregado desde que a sua siderúrgica foi desmanchada e vendida aos chineses. O operário especializado, de uma casta também em processo de desaparição na Itália, vai atrás da sua planta siderúrgica a fim de ajudar os seus vilões chineses. Ele acha que o forno tem um defeito que poderá provocar uma explosão e matar gente. A sua viagem ao interior da China provoca uma dolorosa descoberta – a de um país de terra arrasada, onde o elemento humano é o que parece menos importar.
Conto a Manoel de Oliveira o resumo dos filmes tristes que vi e ele sentencia fulminante. “A China realmente está se destruindo e destruindo o mundo. Diz que é um país comunista e não tem nada de comunista. É o seu modo de escravizar a gente. Diz que faz progresso, mas o que faz é invadir o mundo com produtos bons e baratos e espalhar mais desemprego por cada lugar que consegue vender o que fabrica.” Manoel de Oliveira está em Veneza para apresentar “Belle Toujours”, uma continuação de “Belle de Jours”, feito há 40 anos por Luis Buñuel. Aos quase 98 anos de idade (em dezembro), Oliveira sentencia: “Estou preparando o meu próximo filme. Vai ser sobre esse progresso que não existe. Li um livro espanhol que gostei muito e já o adaptei para o cinema. Vai se chamar MANIFESTO CONTRA O PROGRESSO.”