Jornal da Mostra
“Still Life”, de Jia Zhang-Ke
Nº 431 > 29ª Mostra > 11/09/2006
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Leon Cakoff, de Veneza, para o ‘Jornal da Mostra’
Edição:
Renata de Almeida e Leon Cakoff
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Renata de Almeida e Leon Cakoff
OS VENCEDORES JIA ZHANG-KE E SPIKE LEE SE COMPLETAM EM DOIS EXTREMOS DO PLANETA
O Leão de Ouro do 63º Festival de Veneza para “Sanxia Haoren/ Still Life/ Natureza-Morta” e o seu diretor chinês Jia Zhang-Ke de 34 anos, é como um endosso ao seu triste e silencioso filme de protesto contra o progresso capitalista da China Comunista, uma voracidade que parece nada se preocupar com as vidas humanas ao redor deste ambicioso projeto. Mas a imprensa italiana e a francesa criticaram muito o júri presidido pela atriz francesa Catherine Deneuve e composto por Bigas Luna, Paulo Branco, Cameron Crowe, Chulpan Khamatova, Park Chan-wook e Michele Placido.Foi o jurado italiano Michele Placido, também ator e diretor, quem soltou inconfidências para a imprensa. A começar por dizer que não houve unanimidade entre os sete membros do júri. Segundo ele, “Natureza-Morta” venceu apertado, por 4 x 3, sendo voto vencido a sua predileção (e de muito mais gente) pelo filme italiano “Nuovomondo/ Golden Door”, de Emanuele Crialese. Na sucessão de atrapalhadas, inventaram para o diretor de “Nuovomondo” o prêmio revelação. Esqueceram que o mesmo diretor já havia sido revelado em Cannes 2002 pelo filme “Respiro”... Sem se abalar, Deneuve deu uma de Maria Antonieta: “Cannes não é o único festival do mundo!”.
“Nuovomondo” lembra na sua primeira parte o clássico “A Árvore dos Tamancos/ L’Albero degli zoccoli/ The Tree of Wooden Clogs”, de Ermano Olmi, sobre a Itália pobre no princípio do século 20. “Nuovomondo” acompanha a tenacidade, o misticismo de família miserável e seus preparativos para emigrar aos Estados Unidos.
Pior que isso foi a gafe provocada com a inesperada premiação de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet com um ‘Leone Speciale’, também em categoria inventada, pela “inovação da linguagem cinematográfica” do filme que o casal radical teve em competição “Quei loro Incontri”. Jean-Marie Straub e Danièle Huillet não se contentaram em ter em Veneza um filme com atores sem movimento e expressão declamando trechos escritor por Cesare Pavese em “Dialoghi com Leucò”, uma bela narrativa sobre angústias da vida, dor, destino, morte entre personagens da mitologia grega e latina. Uma bela narrativa, mas não é cinema, nem para estar na competição de um festival disputadíssimo pelas produtoras de todo o mundo e muito menos para ser premiado por suas inovações de linguagem.
Segundo as mesmas inconfidências, este prêmio teria sido sugerido por Paulo Branco, mas o fato criado ficou ruim para o diretor Cameron Crowe. Para promover-se em Veneza, Jean-Marie Straub distribuiu um manifesto infeliz para a imprensa que só reverteu contra o seu elegante histórico de cinema dissertação. Straub disse que enquanto houver o capitalismo americano não findarão os terroristas. Péssimo panfleto às então vésperas dos cinco anos de luto pelos ataques terroristas aos Estados Unidos.
O veterano diretor francês Alain Resnais recebeu o prêmio de melhor diretor pelo emocionante “Private Fears in Public Places/ Medos Privados em Lugares Públicos”, que também atende por “Coeurs/ Corações”. Resnais construiu em estúdio um comovente estudo sobre solidão e tentativas insistentes ou tímidas de se formar casais e amar. O estúdio, elemento cada vez mais raro no cinema, dá à narrativa do mestre uma plasticidade e riqueza de cenários como não se via mais. Não houve vozes contra o prêmio a Alain Resnais, somente à categoria do prêmio. Muitos críticos em Veneza queriam o prêmio máximo do festival para o mestre francês.
Outra corrente queria o Leão de Ouro para “Darat/ Dry Season”, um raro filme do Chadiano, de Mahamat-Saleh Haroun. É também um belo filme sobre solidariedade e perdão em tempos de guerra. “Darat” recebeu o Prêmio Especial do Júri.
O mal-estar voltou com o anúncio do prêmio de melhor ator. Todos davam como certa a escolha do italiano Sergio Cartellitto por “La Stella che non c’è”, de Gianni Amelio, mas a ‘Coppa Volpi’ foi destinado ao americano Ben Affleck, em “Hollowoodiana”, de Allen Coulter, onde faz o primeiro Super-Homem do cinema, da sua ascensão ao provável suicídio. De novo a imprensa italiana lembrou que Ben Affleck foi eleito o pior ator americano de 2005, sem que isso queira dizer que ele não se destaca bem em “Hollywoodiana”.
E a maior das uninimidades de Veneza 63 foi mesmo a ‘Coppa Volpi’ de melhor atriz para a inglesa Helen Mirren com a sua inesquecível interpretação da rainha da Inglaterra em “The Queen”, dirigido por Stephan Frears. “The Queen” recebeu ainda o prêmio de melhor roteiro, de Peter Morgan.
Outro a receber um prêmio esquisito foi o filme futurista “Children of Men”, do mexicano Alfonso Cuarón – prêmio de melhor contribuição técnica para Emmanuel Lubezki.
Em uma premiação paralela, para a escolha da melhor obra de diretor estreante, um outro júri provocou mais discussões. Deu o prêmio ‘Premio Venezia Opera Prima “Luigi de Laurentiis” ao belíssimo filme belga-mongol “Khadak”, de Peter Brosens e Jéssica Woodworth. Com outra co-direção, de Dorjkhandyn Turmunkh, Brosens já nos havia contemplado com “O Estado do Cão”, uma comovente narrativa sobre o fim da União Soviética, do ponto de vista da alma de um cão vadio que é morto e está prestes a encarnar em um humano recém nascido.
O prêmio a “Khadak” contemplou também a ótima seleção da seção Giornate degli Autori. E um terceiro júri deu a Spike Lee “When the Levees Broke: a Requiem in Four Acts” o prêmio de melhor documentário. Spike Lee seguiu o rastro do furacao Katrina e os estragos indeléveis na consciência de suas vítimas. Em um outro extremo do planeta, a globalização da China também faz mal aos cidadãos comuns dos Estados Unidos. O réquiem de Jia Zhang-Ke mereceu o prêmio máximo do 63º Festival de Veneza.