Destaques > 30ª Mostra > 22/10/2006

CONVERSAS DA MOSTRA

Acompanhe uma série de bate-papos esclarecedores com os convidados da Mostra.

Julia Loktev

Julia Loktev: Uma Tabula Rasa para o Terror


Selecionada para a 30ª Mostra com Dia Noite, Dia Noite, título que pretende passar uma idéia de aterradora continuidade, a cineasta Julia Loktev visitou São Paulo para acompanhar a exibição de seu segundo longa-metragem (o primeiro, Momento de Impacto, um documentário sobre seu pai, foi exibido na 22ª Mostra). Ela é diretora, roteirista, co-montadora e co-produtora do filme, que, apesar de ser uma ficção, parte de um fato real e é absolutamente verossímil. Julia inspirou-se na notícia de uma mulher-bomba que foi presa perambulando em Moscou nas exatas cercanias em que a cineasta havia estado uma semana antes. Somado a esse fato, ela acrescentou sua inquietude pós-11 de Setembro (ela mora em Nova York e filmou o desmoronamento do World Trade Center) com uma premissa que lhe veio à cabeça e pareceu insuportavelmente provável: a presença de uma jovem mulher-bomba em plena Manhattan.


Não lhe interessou, porém, explorar as possíveis texturas políticas da situação. Ela desenvolveu um drama existencial a partir das dúvidas caladas dessa jovem de 19 anos. O filme tem poucos diálogos e poucos personagens, detendo-se na protagonista, uma figura perdida na cidade, estudando suas motivações pessoais e seus questionamentos. Loktev menciona outra notícia que leu, sobre uma mulher chechena também presa com uma bomba, mas que, pouco antes do fracassado atentado, havia comprado uma penca de bananas. “Meu filme é sobre isto, sobre bananas. Afinal, o que levou essa mulher a parar numa banca de frutas antes de se sacrificar?”, indaga. Além disso, ela construiu sua personagem a partir do tratamento que Joana d’Arc recebeu do cinema, seja ela Jean Seberg ou a moderna Milla Jovovich, ou em especial a mártir pela visão do mestre Carl H. Dreyer.


Para personificar esta “heroína”, a diretora não queria um nome conhecido. Para melhor transmitir a falibilidade da personagem, ela precisava de um rosto que fosse uma tabula rasa. Entrevistou 650 jovens e optou por uma não-atriz, Luisa Williams. Ela era babá e viu um anúncio dos testes para o papel durante um de seus passeios a trabalho. Do nada, ela sentiu que precisava encarar esse desafio. Julia comenta que, durante o teste, era possível ver em seu rosto o intenso fluxo de pensamentos que caracteriza a protagonista. A escolha estava feita. E parece que Luisa não pensa em investir na carreira de atriz, pois hoje ela trabalha numa locadora de filmes. De qualquer forma, ela foi perfeita para desvendar a convicção que se torna fraqueza e submissão em sua saga de potencial suicídio.


Sem recorrer a qualquer música, Julia comenta que o desenho de som (a trilha sonora real/ambiente) foi definitivo para definir o perfil psicológico do enredo. Ela trabalhou com Felix Andrew, sound mixer de Gus van Sant nos filmes Gerry (2002, 26ª Mostra), Elefante (2003, 27ª Mostra) e Last Days (2005). Com sua ajuda, a cineasta esculpiu o som e elaborou ainda mais o teste de fé e convicção pelo qual ela faz sua jovem passar. Dia Noite, Dia Noite é, portanto, um atestado sobre uma possibilidade maior, um terror maior: o da dúvida pessoal como força-motriz para atos radicais. O mundo está cheio deles, esses atos radicais!


Sean Garrity


Sean Garrity: Brincando com a Lucidez Alheia

Foi o ator Jonas Chernick que ofereceu o roteiro original de Lúcido, escrito em próprio punho, para o amigo (e depois co-roteirista) Sean Garrity dirigir. O que interessou a Garrity nesse verdadeiro pesadelo vivido pelo insone psicólogo Joel Rothman (interpretado por Chernick) foi investigar a estrutura do sonho, como é mesmo que o ser humano se entrega aos braços de Morfeu. O próprio pai de Chernick sofre de insônia, que, ao contrário do que muitos pensam, é sintoma de inquietude psicológica, e não uma doença. Garrity insistiu, portanto, em começar seu filme com a aparência de um comercial de TV, para criar total familiaridade com o espectador. Mas à medida que o protagonista desce aos infernos, o visual torna-se cada vez mais tortuoso, a ponto de se perder totalmente as referências sobre o que de fato é real. A história a que se está assistindo está acontecendo de verdade? O final em aberto brinda essa dúvida.


Garrity mostrou-se fascinado também pelo narrador falível. Joel de início está convicto de que tem domínio de sua vida e de que é o dono da verdade. Com o tempo, sua segurança é solapada pelo fato de seus três pacientes, vítimas de transtorno de estresse pós-traumático, passarem a duvidar de sua lucidez. Cada um desses personagens tem certeza de seus temores: Sophie (Lindy Booth), uma suicida junkie que se acredita imortal, parece viver num drama existencial; Chandra (Michelle Nolden), que acha que a cidade está encolhendo, parece estar num thriller; e Victor (Callum Keith Rennie), que sofre de síndrome persecutória, sente-se num filme de espionagem. Unindo todos esses desajustes, o insone Joel sofre com o abandono da mulher e a rejeição da filha adolescente e sonambúlica. É um circo de horrores humanos, que se conduz para um desfecho surpreendente.


Quando indagado se ele escalou a atriz Lindy Booth, que estrelou recentemente três filmes de terror (Pânico na Floresta; Madrugada dos Mortos; e Cry Wolf O Jogo da Mentira), com a intenção de atrair um público jovem voltado ao cinema fantástico, Garrity respondeu que quisera ele ser tão esperto. O fato de Booth ter feito filmes reconhecidos, mas ela própria ainda não ser um rosto tão familiar, deve-se, segundo o diretor, ao fato de o Canadá de língua inglesa não ter star system. Pela proximidade com os Estados Unidos, apenas atores americanos são reconhecidos no Canadá. O próprio espectador canadense não conhece seus conterrâneos. Se há nomes mais famosos como o de Mia Kirshner, que começou sua carreira em filmes de Atom Egoyan, isto se explica mais pelos filmes hollywoodianos que fez, como o recente Dália Negra, de Brian de Palma.


Ao contrário de seu protagonista em Lúcido, que gira em falso e nunca sai do lugar, Garrity é um homem bastante viajado: já morou em Toronto e Buenos Aires e viveu três anos entre o Japão e a Ásia. Seu primeiro longa, curiosamente intitulado Inertia (“Inércia”), de 2001, tem roteiro próprio, é falado em quatro línguas diferentes e termina no “Brasil” (filmado, na verdade, em Vancouver com palmeiras plantadas). Já seu próximo projeto será uma co-produção Canadá/Brasil e se passará na cidade de Canoa Quebrada (Ceará), em 1990, que foi a época em que ele visitou o lugar para ficar dois dias e acabou ficando duas semanas. Garrity sabe que a cidade não é mais a mesma que conheceu – ele precisará encontrar novas locações –, mas o que lhe interessa é mostrar a sensação que teve durante sua visita: semelhante a uma versão pós-moderna de Casablanca, Canoa Quebrada representava uma comunidade pós-hippie quase perfeita, uma epifania multicultural que uniu cidadãos de todos os cantos do mundo, que lá aportavam e por muito tempo (ou para sempre) ficavam. Será um réquiem para uma cidade e um estilo de vida que já não mais existem.


Tania Hermida


CONVERSAS DA MOSTRA: TANIA HERMIDA


Uma Divisora de Águas


Quando põe um objetivo na cabeça, a cineasta equatoriana Tania Hermida é do tipo que não desiste enquanto não vê suas aspirações realizadas. Foi movida por essa garra que ela abandonou tudo e dedicou três anos de sua vida à realização de Qué Tan Lejos, seu primeiro longa-metragem. Seu esforço pessoal valeu a pena. Depois de enfrentar verdadeira via-crúcis para conseguir recursos para filmar, batendo de porta em porta e apelando a todas as instâncias públicas possíveis, Hermida colhe agora os frutos de seu abnegado trabalho. Em entrevista concedida ao Jornal da Mostra, no Terraço Itália, em São Paulo, a diretora revelou que Qué Tan Lejos virou uma espécie de divisor de águas dentro da cinematografia de seu país. Há dezessete semanas em cartaz, seu longa já levou mais de 130 mil espectadores às salas de cinema, recorde para uma produção nacional. E é também o primeiro filme equatoriano a ser exibido numa Mostra.


Para Hermida, a boa aceitação do público serviu para provar a possíveis investidores que o equatoriano está disposto a ir ao cinema conferir a produção local. E mais: que pode ser um bom negócio investir num filme nacional. A diretora condena a guerra entre realizadores independentes e grandes produtores. Segundo entende, a melhor opção é o diálogo. Para ela, o interessante é sentar-se à mesa e mostrar que é vantajoso investir na produção do país. Seguindo os passos de Brasil e Argentina, o Equador aprovou há três meses uma lei de incentivo ao cinema. A lei cria um fundo nacional a ser usado na produção, pós-produção e distribuição de filmes equatorianos. Para Hermida, ter uma legislação regulando a produção é essencial em países como o Equador e o Brasil. Os governos têm de assumir que o cinema tem uma importância cultural para qualquer país.


Outro aspecto positivo apontado por Hermida é a formação de profissionais de cinema no país. Formada em Cinema pela Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba, a diretora revelou que sua equipe técnica foi constituída por profissionais que, assim como ela, tiveram de deixar o Equador para estudar fora do país. Já os assistentes que trabalharam na produção de Qué Tan Lejos são oriundos dos três cursos de cinema disponíveis hoje no Equador. Ainda assim, a diretora fez questão de ressaltar a importância de deixar o país e conhecer outras culturas. Ela acredita que é essencial para um futuro cineasta viver um tempo fora e ampliar seu olhar a respeito do mundo.


Kirill Mikhanovsky


Kirill Mikhanovsky: Revelando um Brasil Próprio


Kirill Mikhanovsky nasceu em Moscou e mudou-se para os Estados Unidos quando ainda adolescente. E como se deu, então, seu contato com o Brasil, locação de Sonhos de Peixe, sua estréia como diretor de longa-metragem? A “culpa” é de Caetano Veloso. Em 1995, Kirill assistiu (e re-assistiu mais duas vezes) ao filme A Flor do Meu Segredo, de Pedro Almodóvar, no qual Caê canta em espanhol “Tonada de la Luna Llena”. Foi paixão à primeira vista. De início, ele procurou conhecer todo o repertório do cantor brasileiro e, aos poucos, foi abrindo seu leque de descobertas, a ponto de montar coletâneas próprias de MPB. Ele acredita que nossa música é uma autêntica embaixatriz do Brasil, pois o caráter nacional nela se expressa com força total. A MPB não é só “exótica”, para ouvidos estrangeiros, mas tem uma qualidade transcedental. Kirill, portanto, considera-se mais uma “vítima” da qualidade musical brasileira.


Por seis anos, ele criou uma imagem do Brasil a partir dessas referências. Chegou por aqui em 2001, conheceu pontos turísticos que não lhe interessaram (“são zoológicos para turistas”), viveu um bom tempo em São Paulo – que considerou uma cidade difícil de descobrir –, até chegar à Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, onde morou por um mês. É um vilarejo de pescadores ainda fechado para o turismo, mesmo se localizando perto da famosa Praia da Pipa. Lá, ele descobriu que é possível viver sem stress, com uma energia lenta e preguiçosa. E bebeu da pureza e da nobreza naturais para criar Sonhos de Peixe.


Ao construir o filme, descobriu também que o compositor Johann Sebastian Bach tem muito a ver com o ambiente brasileiro. Além disso, ele usou duas canções de Luiz Gonzaga de forma diagética (música ouvida de forma indireta, neste caso no rádio de um bar e de um ônibus). Bach e Gonzagão estabelecem, portanto, uma unidade orgânica. Recorrendo a atores não-profissionais, com a exceção de Phellipe Haagensen e de uma pequena participação de Chico Diaz, Mikhanovsky buscou uma imagem autêntica do Brasil que conheceu. E é essa autenticidade que ele procurará em toda sua carreira futura.


Aaron J. Wiederspahn


Aaron J. Wiederspahn: A Sensação de Descobrir o Cinema


Ele realmente é um marinheiro de primeira viagem, pois nunca cursou Cinema, não dirigiu qualquer curta-metragem, videoclipe ou publicidade, antes de estrear “intuitivamente” com o filme A Sensação de Ver. E Aaron J. Wiederspahn é também viajante em segunda jornada, pois ele nunca havia saído dos Estados Unidos antes de apresentar seu filme no Festival de San Sebastián, na Espanha. E seu segundo vôo internacional veio direto para a 30ª Mostra, em São Paulo.


Não é estranha, portanto, a curiosa biografia que ele enviou ao banco de dados da Mostra e que consta do catálogo, uma louca viagem que inclui a aparição de um homem milenar montado num grande búfalo branco. Para Wiederspahn, pouco interessa o que ele já fez. O que importa é que este seu primeiro filme nasceu da necessidade de contar uma história presente num sonho recorrente: por três vezes ele sonhou com um vendedor de enciclopédias. O cineasta estreante precisava descobrir a história deste personagem. Nasceu assim a urgência do cinema, à qual ele se manterá fiel.


Wiederspahn criou então um tipo tão fascinante que chamou a atenção do grande ator David Strathairn, que inclusive co-produz o filme. Ele protagoniza, numa espécie de bobo crítico da corte, uma trama que aborda inquietudes comuns ao universo, como as noções de perda, abandono e desespero, e como estas podem conduzir à esperança e à superação. Essa busca humana, segundo ele, é anciã, vem de tempos gregos. Declarando-se uma espécie de sonhador – “Os sonhos alimentam a humanidade”, argumenta –, Wiederspahn aponta que a excelência no cinema está no humano, em sua capacidade de unir e elevar o ser humano. Suas fontes de inspiração não negam sua visão contemplativa de cinema: ele diz se inspirar em especial no russo Andrei Tarkovski, mas também no francês Robert Bresson, no húngaro Béla Tarr e no grego Theo Angelopoulos.


É por isto que Wiederspahn se espanta ao saber que algumas pessoas consideram seu filme uma produção independente “típica de Sundance”. “Meu filme não é pop e fácil de ver como Hora de Voltar ou Pequena Miss Sunshine”, retruca. Ele completa dizendo que convida o espectador disposto a mergulhar num outro tempo e espaço. Já a cena inicial, de quase cinco minutos de total silêncio, promove esse mergulho. A história que ele quer contar e o cinema que quer praticar têm compaixão pelos personagens e dão tempo ao tempo, sem acelerar suas necessidades. Cita, mais uma vez com esclarecedora pertinência, a escrita de Jorge Luis Borges.
Por mais que tenha cineastas a quem admire, Wiederspahn não quer imitar ninguém. O cinema serve como campo para ele descobrir a própria voz, sua perspectiva única de vida. “O importante na vida é a comunicação, esta é a chave”, completa, num papo meio místico, mas nada hippie. E o cinema, segundo ele, é a maior de todas as artes. “É a soma de todas as artes e a melhor tradução de cada momento vivido. Ao final do dia, é isto que importa”, conclui.


Gianfranco Quattrini


Gianfranco Quattrini: Um Filme sobre a Nova Moral


O cineasta Gianfranco Quattrini, 34 anos, tem ascendência peruana e suíça, nasceu em Lima, no Peru, mudou-se para Chicago com um ano de idade, começou sua carreira cinematográfica na Buenos Aires em tempos de crise, passou pela Suíça e estréia agora no longa-metragem com Chicha tu Madre. É uma co-produção entre Argentina e Peru, que evidencia a conexão entre as duas culturas e o efeito que elas provocaram no próprio diretor. Quattrini comenta que seu filme foi o maior sucesso peruano de bilheteria nos últimos anos. Ele já deixou São Paulo e foi a Buenos Aires, pois seu filme estreará na Argentina no começo de novembro.


Para espectadores estrangeiros, é importante saber que “chicha” tem muitos significados. A chicha é uma bebida típica; a cultura chicha é a cultura improvisada e popular, das ruas, bastante presente na trama, o que já é notável no site oficial do filme, www.chichatumadre.com ; uma chicha de coisas pode ser uma mescla de muitas partes; e também uma exclamação depreciativa. Da soma destes significados nasceu o filme, co-escrito e co-produzido por ele. A produção também é assinada por seu primo Ernesto González Quattrini, que com ele fundou a Primi Quattrini, cujo nome também significa “primeiro dinheiro vivo”.


Quattrini recorre para papéis secundários a muitos atores conhecidos no Peru, entre artistas populares e vedetes. Ele relembra também que, ao ser exibido na mostra Venice Days do Festival de Veneza deste ano, seu filme foi comparado à commedia dell’arte de Mario Monicelli (diretor presente na Retrospectiva de Cinema Político Italiano com Un Borghese Piccolo Piccolo). O personagem principal, Julio César (Jesús Aranda), é um malandro do bem que vive sem lenço, nem documento, sem expectativas, empurrando a vida com a barriga. Não à toa, Quattrini pediu para Aranda engordar dez quilos. Com este personagem, o cineasta questiona a nova moral do continente latino, a ética flexível que se tornou critério (como ele sabe, inclusive no Brasil). Julio César é um tarólogo amador – sua voz narra em off a consciência mística da trama – e também se envolve com um time de futebol da segunda divisão.


Ele fechou a conversa comentando que um de seus projetos futuros será filmado na floresta amazônica de Iquito, muito próximo de onde Werner Herzog rodou Fitzcarraldo (1982). Será a história de um astro do rock que se embrenha naquele cenário para um tratamento de desintoxicação de drogas e é motivado a dar um grande show na mata. Ninguém carregará uma embarcação rio acima, como Herzog/Fitzcarraldo o fizeram, mas quem levará o equipamento de som?


Damián Cukierkorn


Damián Cukierkorn: A Copa dos Excluídos


Uma Copa do Mundo em que as seleções são formadas exclusivamente por sem-teto. Foi lendo uma matéria sobre o inusitado evento esportivo que o jovem diretor Damián Cukierkorn teve a idéia de realizar o documentário A Outra Copa. Em 2004, a Argentina participaria pela primeira vez do campeonato, realizado em Gotemburgo, na Suécia.


Assim como no Brasil, que também participa do evento, na Argentina o futebol é uma paixão nacional. Cukierkorn lembra que a Copa dos Sem-Teto, apesar de reunir mais de quarentas seleções de diversas partes do mundo, é pouco divulgada pela imprensa. “Na Argentina pouco se falou sobre o campeonato e, nas raras vezes em que foi citado, foi alvo de críticas”, diz. Damián diz que o principal questionamento é se não seria melhor investir o dinheiro gasto no evento para melhorar a situação social dessas pessoas. O cineasta resolveu então questionar os jogadores se preferiam representar a Argentina ou receber o valor gasto com suas despesas em dinheiro. “Todos quiseram participar da Copa”, diz.


Apesar das críticas, Cukierkorn ressalta que a Copa dos Sem-Teto, ou a Outra Copa, como prefere chamar, ajuda a resgatar a auto-estima dessas pessoas. Muitos dos participantes conseguiram inclusive abandonar as ruas. “Alguns deles foram contratados para jogar em times da segunda e terceira divisões do futebol argentino”, completa feliz. A Outra Copa acompanha a preparação, a esperança dos jogadores e a proximidade da viagem para a Suécia. Dos frios degraus da estação de trem de Buenos Aires, onde começa a viagem, até o coração do Primeiro Mundo são sete dias que mudaram, de forma definitiva, a vida desses homens.


Alex Frayne


Alex Frayne: Explorando os Espaços da Austrália


O australiano Alex Frayne já dirigiu inúmeros curtas, mas considera apenas The Longing (2003), o único que acredita ter qualidade e que, para sua surpresa, foi vendido para algumas praças internacionais a ponto de possibilitar um inesperado retorno de dinheiro. Com isto, foi possível financiar seu primeiro longa-metragem, Amor Moderno, sem qualquer apoio governamental. De cara, ele observou que, num próximo trabalho, pensará melhor no título, pois percebeu, em Moscou, na Croácia ou em São Paulo, que seu filme é interpretado como sendo “de amor”: “Havia muitas jovens na platéia da Mostra, com certeza elas se espantaram com os rumos que o filme toma.” Afinal de contas, trata-se de um thriller psicológico que envereda pelo terror e que, ao final, sofre nova reviravolta no tom.


Frayne afirma que a Austrália não é um país urbano. Suas grandes cidades, como Sydney e Melbourne, são iguais a qualquer outra metrópole no planeta. O que caracteriza o país são justamente as vastas planícies, áridas, ricas e misteriosas. Ele cita a tradição de filmes locais que exploraram o medo e o suspense neste amplo cenário, como Picnic na Montanha Misteriosa (1975), de Peter Weir, Mad Max (1979), de George Miller, e, mais recentemente, Wolf Creek – Viagem ao Inferno (2005), de Greg McLean. Frayne descreve seu filme como um noir em ambientação de faroeste. Há muitos silêncios – “Não há diálogos nos primeiros quinze minutos”, complementa – e as imagens traduzem quase toda a ação. Não à toa, o roteirista, Nick Matthews, é também o diretor de fotografia. “Não é um roteiro hip (“da moda”) ou funky, como o são os de Quentin Tarantino”, explica o cineasta.


Para ajudar no clima e na ambientação, foi vital, também, a definição da trilha sonora de Tom Heuzenroeder. Com reminiscências das trilhas de Ennio Morricone para os western spaghetti de Sergio Leone, o filme trabalha, de forma bizarra, como o diretor mesmo adjetiva, com piano, assovios e eventuais guitarras. Frayne, ele próprio, é pianista de jazz, cujos mestres são Herbie Hancock, Miles Davis, Chick Corea e Weather Report (de onde saiu o saudoso guitarrista Jaco Pastorius). Para fechar, ele também falou da importância em definir a locação ideal. Foram escolhidos os arredores do lago Alexandrina, que tem um histórico maligno, de vibrações mortais. Ao que parece, nada mais adequado...