Destaques > 30ª Mostra > 28/10/2006

O Cinema de Autor Rompe Silêncios

Aconteceu na sexta-feira, dia 27, para um auditório lotado na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), a concorrida aula magna do cineasta alemão Wolfgang Becker, integrante do júri da 30ª Mostra.

Em 2003, quando acompanhou a exibição de Adeus, Lênin! na 27ª Mostra, Wolfgang Becker não era conhecido, nem chamou muito a atenção da mídia. Um filme cultuado depois, sem esquecer também do episódio-título que fecha a obra coletiva Bem-Vindo a São Paulo, apresentado na 28ª Mostra, Becker tornou-se um nome quente. Mais uma vez, “a Mostra anunciou primeiro”. A aula magna que deu na FAAP, dia 27, foi prestigiada tanto por alunos da própria FAAP quanto por inúmeros curiosos, e a conversa intensificou-se por mais de duas horas.

De início, ele se referiu várias vezes ao seu maior sucesso, lembrando que é engraçado ele agora ser reconhecido por Adeus, Lênin!, já que este foi um filme com uma história peculiar e difícil de produção. A sinopse (de Bernd Lichtenberg) lhe foi enviada, perdeu-se no ritmo do dia-a-dia e, seis meses depois, o autor entrou em contato cobrando uma posição. Depois de uma procura “pelo roteiro perdido”, ele foi encontrado e aceito. E a filmagem enfrentou cenários destruídos por chuvas e precisou contratar seguranças que protegessem à noite o muro de Berlim cenográfico, que amanhecia sempre com novas pichações.

Num certo momento, Becker afirmou que o cinema, e as artes em geral, não mudam o mundo. Em contrapartida, o cinema de autor é capaz de romper silêncios. O que, de fato, já muda alguma coisa no conjunto. Ao mesmo tempo, ele defende o cinema popular e comercial, pois este é a base industrial para um mercado em que é possível desenvolver projetos alternativos. Quando indagado se ele se sentiria confortável com uma refilmagem hollywoodiana de Adeus, Lênin! – em referência à refilmagem prevista para Edukators (2004, seleção da 28ª Mostra), de Hans Weingartner, outro grande sucesso alemão recente –, Becker argumentou que Hollywood paga muito bem para oferecer algo a um espectador que não lê legendas. Mas ele não sabe como eles poderiam adaptar a trama histórica para um contexto americano. Quem sabe mostrar Arnold Schwarzenegger adormecendo uma noite e acordando na manhã seguinte como governador da Califórnia? Ou ainda melhor: exatamente ao contrário de seu filme, por que não mostrar um muro sendo erguido da noite para o dia, como o que hoje está sendo construído entre os Estados Unidos e o México? É claro que esta última “sinopse” foi a que provocou mais calorosa reação por parte do público.

Próximo ao final da preleção, em outra pergunta, Becker foi indagado se Central do Brasil (1998), de Walter Salles, fez sucesso na Alemanha por esta ser a imagem que se quer ver do Brasil? Ele negou, argumentando que a Alemanha tem um bom conhecimento das “coisas brasileiras”, pois há inúmeros documentários para a TV que mostram diferentes aspectos do país. Ele concluiu elogiando o filme, dizendo que o sucesso se deve ao fato de ser bom e sentimental. E, depois dessa aula magna, resta a Becker agora assistir aos filmes mais votados pelo público e ajudar a definir o troféu Bandeira Paulista do júri.