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A 30ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo encampa a difusão do Projeto de Restauração Digital dos Filmes de Joaquim Pedro de Andrade, realizado pela Filmes do Serro, pela Cinemateca Brasileira e pela TeleImage, com patrocínio da Petrobras e envolvendo os Ministérios da Cultura e das Relações Exteriores. Foram dois anos de trabalho para restaurar a filmografia integral, 14 títulos ao todo, deste que é um dos principais nomes do cinema brasileiro.

Projeto pioneiro, foi a primeira vez que se conduziu o restauro digital em alta definição de uma filmografia completa. A retrospectiva destaca, por exemplo, o relançamento do clássico Macunaíma, que por sua importância histórica e lúdica foi escolhido como o filme de encerramento dessa edição da Mostra.

É possível, assim, avaliar a lucidez e o olhar atento de Joaquim Pedro em relação às coisas brasileiras. Ele foi um artista original e um crítico sério dos contrastes do país. Poeta de sons e imagens, sua obra transparece de forma intacta toda sua irreverência e inteligência. Uma de suas principais características foi sempre seu elogio em relação à literatura brasileira. Textos de Gilberto Freyre ou versos de Manuel Bandeira definiram ritmo e sonoridade, por exemplo, de seus dois primeiros curtas, respectivamente O Mestre de Apipucos e O Poeta do Castelo. O universo modernista de Mário de Andrade, quase tropicalista, está manifesto em Macunaíma. Cecília Meireles e os poetas mineiros, liderados por Tomás Antonio Gonzaga, definem Os Inconfidentes.

A crônica cotidiana de Dalton Trevisan mergulha na Guerra Conjugal. E O Homem do Pau-Brasil, seu último trabalho, parte da obra conjunta de Oswald de Andrade. É o audiovisual que respeita a palavra brasileira.

Nascido no Rio de Janeiro em 1932, onde também viria a morrer, em 1988, manteve forte contato com suas origens mineiras e, para alguns teóricos e cineastas, merece entrar para o registro histórico como o mais autêntico precursor do Cinema Novo por meio de seu curta Couro de Gato, que integrou o filme Cinco Vezes Favela. Refinada visão da realidade carioca de então, esse curta deixou muito claro, para bons entendedores e admiradores, que Joaquim Pedro pensa no real, sem abdicar da beleza e do imaginário. Cruzando gêneros e referências, ele criou um corpo de obra que precisa ser resgatado por todas as gerações. Sua lição de arte fica expressa numa declaração que deu em entrevista a Sylvia Bahiense: “O vigor da originalidade vem de você tratar de problemas brasileiros como eles são, como se apresentam.” Nem que para isso seja necessário partir para a alegoria. O poeta, quando é bom, constrói imagens e símbolos que sobrevivem às mudanças do tempo. Joaquim Pedro de Andrade é um deles.