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Nasceu no Rio de Janeiro, em 1930, e morreu em 2003. Foi educado pelo avô, de origem hassídica. Cresceu em São Paulo e, no pós-guerra, foi um dos principais líderes do movimento jovem sionista-socialista. Por meio desse engajamento, conheceu sua mulher, Mira, no fim dos anos 1940. Ela foi sua companheira por toda vida e, posteriormente, também produtora de seus filmes. A vocação artística de David o levou a Paris, depois de 22 anos de Brasil. Mas o cenário das artes abstratas não o satisfez e ele se voltou ao cinema. Tornou-se assistente de Henri Langlois, fundador e diretor da Cinemateca Francesa, e foi montador do documentarista Joris Ivens. Em 1957, dirigiu seu primeiro filme,
Old Aunt China. Em 1958, o casal mudou-se para Israel. As filhas Yael e Naomi nasceram num kibbutz no ano seguinte. A família mudou-se para Tel Aviv em 1961.

Construiu sólida e extensa carreira humanista no cinema documental, como com In Thy Blood Live (1962), que trata do julgamento de Eichmann e foi o primeiro filme israelense aceito pelo Festival de Veneza, onde ganhou menção especial. Outro importante trabalho foi In Jerusalem (1963), um marco no cinema do país e no gênero "estilo livre" de documentário. Dirigiu apenas duas ficções, The Pill (1967) e 42:6 (1969), sobre a vida de David Ben-Gurion. Teve também uma intensa rotina acadêmica. Depois de Diário, retomou a idéia desse projeto em 1998, com Revised Diary, em três longas. Seu último filme, My Stills (2003), resgata seus cinqüenta anos dedicados à fotografia. Em 1999, Israel o premiou por seu conjunto de vida e obra.

LIÇÕES DE HUMANIDADE

Há lições fundamentais no cinema de David Perlov. O seu Diário, rodado informalmente ao longo de dez anos, recompõe sem pressa a vida que passa e nos sugere um singelo exercício de paciência para decifrar o melhor de nossa humanidade. Ao observarmos com ele ou através de suas lentes os movimentos cotidianos, de vidas privadas, a sua própria existência e o entorno de sua família, vamos perceber a importância de pequenos atos e gestos que formam vagarosamente o admirável mosaico da grandeza humana.

Seguirmos com ele a passagem do tempo e as ondas políticas que nos contagiam. Partícipes de inquietudes, equívocos, erros e euforias, a história que se reconstrói tem os toques de um mestre benevolente. Ele nos revela logo no começo de seus diários ter se cansado um dia do cinema convencional para se interessar por isso que ele nos deixou como legado: um arquivo precioso de imagens que equivale ao resgate de uma grande memória, repleto de flagrantes do inconsciente coletivo.

O Diário de David Perlov começa com sua doce retórica: "Maio, 1973, eu compro uma câmera. Eu começo a filmar eu mesmo e para mim mesmo. O cinema profissional não me interessa mais.

Eu filmo dia após dia à procura de outra coisa. Eu procuro antes de tudo o anonimato. Eu preciso de tempo para aprender a fazer isso."E essa emocionante oratória vai terminar em 1983, com premonitórias passagens pela cidade em que nasceu (Rio de Janeiro) e a cidade onde cresceu (São Paulo).

David Perlov escreveu um grande livro ao longo de dez anos. Um livro que seria incompleto sem as imagens de seu magnífico Diário. Seus filmes em forma de diário também seriam incompletos sem os seus textos de profunda humanidade e suas questões sobre a nossa temporalidade. As imagens e os comentários de David Perlov são pretextos para uma causa bem maior que poucas vezes o cinema atingiu ao longo de sua história de tantas emoções: os textos, os pensamentos de Perlov, formam uma obra literária que não cabe em si de tão intensa e sincera, que se completa com as imagens despretensiosas desta que é a maior aventura humana: o espanto diante da própria vida, da vida real.

Ao voltar a São Paulo, passando pela Estação da Luz, David Perlov pergunta ao seu paciente espectador, quase ao final da sexta e última parte do Diário: "Não terá sido aqui, vendo estas imagens (do enquadramento de uma janela de trem), que o meu amor ao cinema nasceu?" E talvez sim, talvez não, inspirado nos pensamentos de Glauber Rocha, Perlov sentencia: "Esta câmera na cabeça é uma máscara!". Ao final desta extraordinária leitura cinematográfica, fechamos o filme com um grande ensinamento do mestre David Perlov. Ele acaba de nos fazer ver que nada do que vivemos é em vão.

Leon Cakoff