Jornal da Mostra


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Nº 440
30ª Mostra > 21/10/2006
CONVERSA COM DIEGO QUEMADA-DIEZ
Diego Quemada-Diez, diretor do curta “Eu Quero Ser Piloto”

CONVERSA COM DIEGO QUEMADA-DIEZ

Ajudando o Mundo com as Próprias Mãos

Pouco antes de viajar para o Heartland Film Festival, na cidade de Indianápolis, nos Estados Unidos, onde receberá um prêmio em dinheiro por seu curta Eu Quero Ser Piloto, o diretor Diego Quemada-Diez trocou umas idéias com o Jornal da Mostra. Ele é diretor de fotografia, e deixou claro inúmeras vezes a importância que teve em sua carreira trabalhar com o uruguaio radicado no Brasil César Charlone. Quemada-Diez foi seu assistente, entre outros, em Chamas da Vingança (2004), de Tony Scott. Antes de acompanhar Charlone em O Jardineiro Fiel, de Fernando Meirelles, ele já havia se fascinado com o nervosismo da câmera “neo-neo-realista” de Cidade de Deus.

Ele mostra-se visivelmente emocionado, até hoje, ao comentar seu primeiro contato com a favela de Kibera, na cidade de Nairobi, no Quênia. Ele nunca havia visto uma antes. Quemada-Diez comenta que, durante as caminhadas com Charlone em busca de locações pelos becos, córregos e ruelas do local, volta e meia ele precisava abaixar a câmera e enxugar suas lágrimas. Testemunhar tamanha desolação o levou a questionar o que ele sozinho poderia fazer para ajudar. Diego relembra que, em rodas sociais que ambos freqüentaram na favela, os adultos, geralmente já bem embriagados com a forte aguardente local, sempre pediam para ajudar as crianças. As crianças de lá nada têm.

Foi então que surgiu a idéia do curta, que ele concretizou um ano depois de tomar contato pela primeira vez com a região. Com sua câmera, registrou sua reação e percepção do cenário. Nos depoimentos que colheu, em sua maioria de órfãos, Quemada-Diez de repente notou como a grande maioria de fato queria ser piloto. Voar alto, escapar. Com o título de sua obra definido, foi fácil construir o poema-roteiro. O ator/narrador escolhido, Collins Otieno, era o único que fez teste a não ser órfão na vida real. Mas a química com a câmera, comenta Diego, foi única. E foi completamente espontâneo o “obrigado” que Collins gravou ao final do roteiro. O jovem diretor relembra o espanto que sentiu, partilhado por muitos espectadores: Collins, ou o protagonista que interpreta, Omondi, ou qualquer criança em situação semelhante, agradece... ao apenas serem ouvidos.

Para Diego, é uma experiência nova e enriquecedora acompanhar seu filme pelos festivais internacionais em que é exibido, inclusive, por exemplo, o de Cinema Infantil de Chicago. Do Heartland Film Festival, onde receberá o Crystal Heart Award, ele retorna à Mostra. Na quarta-feira, dia 01º de novembro, ele participará, no Clube da Mostra, da mesa A Urgência do Cinema Social. Ele demonstra satisfação ao partilhar sua experiência na busca por justiça social.