Jornal da Mostra


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Nº 442
30ª Mostra > 22/10/2006
EM BUSCA DO REAL
Gilberto Topczewski, Kiko Goifman, Caio Cavechini, Décio Matos Jr., Serginho Groisman, Tocha Alves, Ângela Patrícia Reiniger e Lírio Ferreira.

EM BUSCA DO REAL

No Clube da Mostra, oito diretores alimentaram uma acalorada conversa em torno do boom de documentários brasileiros


No sábado, dia 21, às 19h, os cineastas Gilberto Topczewski (Pixote in Memorian), Décio Matos Jr. (Fabricando Tom Zé), Caio Cavechini (Antes, Um Dia e Depois), Tocha Alves (Deus e o Diabo em Cima da Muralha), Gustavo Pizzi (Pretérito Perfeito), Ângela Patrícia Reiniger (3 Irmãos de Sangue), Kiko Goifman (Atos dos Homens) e Lírio Ferreira (Cartola) reuniram-se com o público no Clube da Mostra para falar de seus filmes e da produção de documentários no país.

Os diretores presentes, sem exceção, filmaram seus documentários com tecnologia digital. O primeiro tema discutido foram justamente as facilidades que esse processo de captação trouxe para os realizadores. Cavechini, que filmou o seu Antes, Um Dia e Depois ao custo de R$ 10 mil, fez questão de ressaltar que seu projeto só se viabilizou graças ao baixo custo da tecnologia. “Foi só pegar a câmera e sair filmando”, diz. Apesar de concordar quanto às incontestáveis vantagens financeiras, o cineasta Lírio Ferreira apontou o que considera um efeito colateral da onda digital. Para ele, reflete-se hoje muito pouco sobre o que se vai filmar. “Antes, havia um amadurecimento do olhar. Hoje, o cara sai filmando tudo e diz: ‘na hora da montagem eu resolvo’”, afirma.

Outro tema abordado, e que elevou a temperatura do debate, foi o custo de produção dos filmes. Um dos espectadores perguntou aos diretores quanto gastaram para realizar seus documentários. Diante da considerável diferença de orçamento entre as produções – a mais cara, Cartola, custou R$ 800 mil, e a mais barata foi mesmo Antes, Um Dia e Depois –, um outro participante da platéia inquiriu sobre o porquê da diferença, sendo que ninguém havia filmado em película. Os diretores entenderam a pergunta como uma possível insinuação de malversação de recursos e fizeram questão de explicar – alguns nitidamente irritados – que são obrigados a prestar contas de cada centavo gasto na produção. Lírio ressaltou ainda as peculiaridades de cada filme como explicação para as diferenças de orçamento: “Uma das partes mais caras do meu filme, por exemplo, foram os custos com direitos autorais.”

O diretor da Mostra, Leon Cakoff, esteve presente ao encontro e levantou o eterno problema de exibição no país. Para Topczewski, é fato que hoje, principalmente em se tratando de documentários, há mais títulos sendo produzidos do que exibidos. “Seria genial se tivéssemos um espaço de exibição para o que se produz”, diz.

Tocha Alves salientou que a televisão seria o canal ideal de exibição para os documentários, pelo fato de o brasileiro não ter o hábito de ir ao cinema para assistir a esse gênero de filme. “Nosso público está em casa”, diz. Mas Alves vê pouco interesse das emissoras pela produção nacional. “Um canal como a GNT (por assinatura), por exemplo, é capaz de exibir durante uma semana uma série de documentários sobre o blues americano, mas raramente abre as portas a títulos brasileiros.”

Concordando em certos pontos, divergindo em outros, os cineastas presentes ao Clube da Mostra só não contestaram o fato de a produção de documentários estar conquistando cada vez mais público. Topczewski sintetiza: “Acho que existe um boom de documentários no mundo. As pessoas estão em busca do real, da verdade.”