Jornal da Mostra


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Nº 443
30ª Mostra > 23/10/2006
O Difícil Percurso da Idéia Inicial ao Filme na Tela
Jorge Duran, Tata Amaral, Ricardo Elias, Serginho Groisman, Cao Hamburger e Andrea Tonacci.

O Difícil Percurso da Idéia Inicial ao Filme na Tela

No debate Encontro com o Cinema Brasileiro – Ficção, que aconteceu no Clube da Mostra, os cineastas presentes evidenciaram suas motivações e dificuldades para concluir seus filmes


O que leva um diretor a escolher determinado tema para seu filme? A resposta foi dada por alguns dos diretores que participaram, dentro da programação oficial da 30ª Mostra, do debate Encontro com o Cinema Brasileiro – Ficção, realizado no último domingo, dia 22, no Clube da Mostra, que fica no sexto andar do Shopping Frei Caneca. Para o diretor Andrea Tonacci, de Serras da Desordem, foi o seu sentimento de perda pessoal, já que se separava da família, que o levou a contar a história real do índio Carapirú, que ficou dez anos perambulando pelas serras do Brasil central após seu grupo familiar ser massacrado por um grupo de fazendeiros. Já Cao Hamburger, de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, disse que morava na Inglaterra e ficou incomodado com a idéia estereotipada de Brasil que existia naquele país. Além disso, os ingleses eram encantados pela Seleção Brasileira de futebol de 1970. Juntando as duas coisas, mais sua vontade de falar de sua própria infância, surgiu o pano de fundo da história. Ricardo Elias, de Os Doze Trabalhos, disse que o interesse era falar das classes C e D e pontuou a ironia de seu protagonista se chamar Heracles (Hércules), como o semi-deus grego, sendo ele de fato um garoto recém-saído da Febem.


Tata Amaral, de Antônia, detalhou que seu filme encerra uma trilogia sobre a mulher (iniciada com Um Céu de Estrelas, 1996, e Através da Janela, 2000), sendo que a conclusão é protagonizada pela mais jovem. Ela queria muito contar a história de uma mulher que se torna mãe muito jovem e que tem um grande sonho. Era sua própria história, mas que se transformou na do grupo de cantoras de hip hop quando começou a pesquisar o assunto para um documentário. Eram tantas histórias boas que, em vez de uma mulher, o filme colocou quatro em cena. Ricardo van Steen, de Noel – Poeta da Vila, detalhou que sentiu vontade de falar de um Brasil legal, dos seus poetas, deixando de lado as mazelas. E Jorge Durán, de Proibido Proibir, apontou como uma das motivações seu interesse por jovens, com os quais convive muito por ser professor universitário. O outro motivo foi exatamente o gosto pela vida universitária, que considera um bom período na vida das pessoas.

Todos os cineastas apresentam em comum as dificuldades na captação de recursos. Transcorre sempre muito tempo entre início das pesquisas de pré-produção e término da edição do filme. Durán explicou que escreve roteiros e dá aulas para sobreviver, mas gosta mesmo é de dirigir. Por isso, a primeira idéia de Proibido Proibir surgiu em 1987. Mas somente em 2003 preparou o roteiro e a finalização se deu em 2006. Tata começou a trabalhar em Antônia em 1998, concluiu o primeiro tratamento de roteiro em 2001, mas só conseguiu dinheiro para filmar em 2004. Ricardo Elias já tinha a história pronta desde seu primeiro filme, De Passagem. Mas as filmagens só começaram mesmo em 2005 e foram concluídas no início de 2006. Cao, que teve as primeiras idéias em 2001, levou quatro anos para realizar o filme.

Tonacci, por sua vez, contou que a história surgiu em 1993, mas, além da crônica falta de dinheiro, o índio, que interpreta a si próprio, sofreu um acidente e ficou um ano em recuperação. Assim, a produção iniciada em 2002 só foi concluída em dezembro de 2005. Van Steen levou praticamente uma década para materializar seu desejo, quando tomou a decisão de mudar radicalmente de carreira. Ele era empresário, com 150 funcionários, quando decidiu se tornar cineasta. Van Steen leu a biografia de Noel em 1994, mas, antes de começar a filmar, viajou para Los Angeles para aprender a escrever roteiros. Depois enfrentou a famigerada falta de dinheiro. Mas insistiu na idéia e, hoje, o filme pode ser exibido nas telas.