Jornal da Mostra


Assine aqui o 'Jornal da Mostra'

Nº 445
30ª Mostra > 23/10/2006
CINEMA BRASILEIRO EM MÚLTIPLAS VISÕES
Octávio Bezerra, Lírio Ferreira, Hilton Lacerda, Sílvio Coutinho e Gustavo Pizzi

CINEMA BRASILEIRO EM MÚLTIPLAS VISÕES


Octávio Bezerra: Cinema Nacional Briga por Espaço


Octávio Bezerra, diretor de Nzinga, levou quase seis anos para concretizar seu projeto. Além de atribuir a demora às causas tão comuns ao cinema nacional, como a falta de recursos, o diretor aponta o racismo velado que existe no Brasil como mais um entrave. Nzinga, diz ele, é um filme feminino e negro, que apresenta uma nova linguagem porque é a música que define o ritmo da produção. Ao contar a história da influência africana na música brasileira, passando por três estados (Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro), a produção coloca a protagonista, interpretada por Taís Araújo, atendendo ao chamado do tambor. Bezerra detalha que essa jovem mulher busca um rumo na vida e o que vai ajudá-la é o candomblé, culto também discriminado no país. Como o próprio diretor ressalta, o Brasil se dá ao luxo, muitas vezes por preconceito, de desperdiçar talentos e músicas.


O cineasta observa ainda que os filmes estrangeiros e as produções da Globo Filmes têm o domínio da distribuição. Os pequenos e médios produtores não conseguem espaço para seus filmes, que por isso ficam poucos dias em exibição. O diretor considera ainda que a linguagem televisiva domina o cinema atual. Bezerra, que realizou inúmeros curtas-metragens, conquistando inclusive o mercado internacional com A Resistência da Lua, em 1985, reclama ainda da falta de regulamentação da lei que rege a exibição de curtas-metragens, em tramitação na Câmara Federal. Ele ressalta que quando havia essa obrigatoriedade, os distribuidores e exibidores pagavam pela exibição, gerando receita, o que possibilitava uma maior produção. Com isso, surgiu uma nova geração de diretores. Ele espera que isto volte a ocorrer com a sanção da nova lei.


Depois de Nzinga, Bezerra já concluiu Cine Jornada, um documentário narrado por Nélson Pereira dos Santos e que resgata parte da história do cinema nacional, falando da Companhia Vera Cruz e de diretores pioneiros, material intercalado com trechos de curtas-metragens. O diretor batalha agora pela distribuição e exibição desses dois filmes


Lírio Ferreira e Hilton Lacerda: Sotaque Nordestino em Personagens Universais


Os pernambucanos Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, diretores do documentário Cartola, revelam que se interessaram pelo sambista carioca porque o Instituto Itaú Cultural, de São Paulo, os convidou para fazer uma pesquisa sobre o compositor. Logo depois, no Rio de Janeiro, surgiu o interesse pelo roteiro e iniciou-se o trabalho de produção, em 1998. No início de 2006, o documentário ficou pronto. Lírio e Hilton dizem que trabalhar juntos foi muito bom. Lírio aponta o elo de amizade como fator que leva a um olhar convergente dos diretores, enquanto Hilton diz que, embora tenham diferenças de pensamento no cotidiano, rola afinidade no trabalho. E ambos já fizeram parcerias com outros profissionais, tendo por isso experiência na divisão de tarefas.


O atual boom na produção de documentários e o interesse do público por esse gênero são considerados por Hilton resultado do uso de novas tecnologias, que facilitam o processo de realização. Lírio considera que ainda não é o ideal, mas o cinema nacional já é mais brasileiro, não se limitando apenas a São Paulo e Rio de Janeiro como centros produtores. Embora estejam fora do estado natal, Lírio mora no Rio e Hilton em São Paulo, eles afirmam que continuam criando personagens que têm a ver com suas histórias pessoais, mas que são universais, pois poderiam ser inseridos em qualquer lugar do mundo.


Lírio diz que considera Árido Movie, que tem roteiro de Hilton, seu filme mais pernambucano e ao mesmo tempo o mais universal. Hilton explica que o diretor usa instrumentos que fizeram parte de sua vida para contar as histórias, mas elas são janelas para o cosmopolita, não se limitando a mostrar locais restritos. Ele exemplifica com o roteiro de Amarelo Manga, que escreveu para Cláudio Assis dirigir. Diz que o filme tem “sotaque recifense, mas personagens universais”. Hilton diz ainda que é a falta de informação que afasta o público do cinema nacional. Segundo ele, há uma diversidade de filmes, com os temas mais variados, para atender diversos gostos, mas o preconceito acaba por afastar as pessoas.


Sílvio Coutinho: O Público É o Melhor Crítico


Diretor, roteirista e editor de Remissão, Sílvio Coutinho diz que a Mostra Internacional de Cinema apresenta um aspecto muito importante: o de colocar os filmes em exibição para o julgamento do público. Na opinião dele, não há crítico mais legitimado do que o público. Ressalta ainda que a Mostra se difere dos demais festivais pela quantidade de filmes que exibe, possibilitando que novos diretores tenham a chance de mostrar seus trabalhos. Ele gostaria que outros festivais também dessem esse espaço e que os critérios de seleção fossem mais transparentes. Embora tenha feito um longa anteriormente, Além do Olhar, o fato de não ter conseguido finalizá-lo, por falta de recursos, o faz considerar Remissão seu primeiro longa-metragem. Coutinho também desempenha tantas funções no filme pelo mesmo motivo: falta de financiamento.


Os cineastas brasileiros são unânimes em apontar a dificuldade de captação de recursos como um dos maiores entraves à produção. Essa dificuldade repete-se ao final do processo, pois distribuir o filme é outro drama. Por isso, Coutinho injeta tanta esperança em festivais, pois eles são o primeiro meio de divulgação da obra. Para o diretor, há um preconceito contra o cinema nacional transmitido pelos mais velhos. Ele diz que se assusta com a quantidade de jovens que dizem odiar o cinema nacional, sem ao menos ter assistido a um filme sequer. Coutinho aponta aí uma contradição, pois esse mesmo público gosta muito das novelas brasileiras. Se o espectador assistir a uma produção nacional, ele se reconhecerá na tela, encontrará sua realidade e, certamente, passará a apreciar o cinema brasileiro, acredita o cineasta.


Remissão é um épico rural, explica ele, destacando que foi rodado na fazenda Areias, em Cantagalo, município do Rio de Janeiro, utilizando mobiliário original e outros objetos com mais de cem anos de idade. Somente o cemitério, a estrebaria e a serraria são cenográficos, detalha. Com pouco dinheiro e muita aposta das pessoas envolvidas na produção, Coutinho realizou o filme lançando um ator, Alexandre Piccini, reconhecendo o jovem talento de Sthefany Brito e contando com a experiência das atrizes Léa Garcia e Imara Reis. Ele também integra o elenco, fazendo o personagem Miguel.


Apesar das dificuldades, o cineasta já está finalizando seu próximo filme, Mão de Luva, documentário sobre um bandoleiro português que explorava ouro numa região fluminense no século XVIII. No encalço desse bandoleiro, estava Tiradentes. A prisão do bandoleiro levou à criação do município de Cantagalo, que ganhou esse nome porque, segundo a lenda, o Mão de Luva só foi preso por ter sido denunciado pelo canto de um galo no meio do mato. O filme tem previsão de lançamento para março de 2007, no próprio município de Cantagalo.


Gustavo Pizzi: Memória na Quase Ficção


Com a idade da Mostra, 30 anos, Gustavo Pizzi estréia como diretor com o longa Pretérito Perfeito. Diretor, editor e roteirista, Pizzi escolheu como tema de seu documentário a Casa Rosa, um antigo prostíbulo do Rio de Janeiro. Ele explica que a casa fechou em 1991, e o local se transformou num espaço cultural. Freqüentador das baladas que ali se realizavam, ele ouviu muitas histórias locais e se interessou pelo tema. Iniciou as pesquisas e nada encontrou na história oficial ou em reportagens jornalísticas. Passou a freqüentar a Vila Mimosa, zona de prostituição do Rio, onde há muitas mulheres que trabalharam na Casa Rosa. Mas não conseguiu o depoimento de nenhuma delas, já que elas queriam ser pagas e ele não tinha condições de fazê-lo.


Além da dificuldade financeira, Pizzi enfrentou outro problema: poucas mulheres aceitaram dar o depoimento abertamente. Elas queriam falar nas sombras, e o diretor só colocou no documentário aquelas que se expuseram. Entre elas, está dona Ivanilda que, aos 65 anos de idade, com filhos já criados e formados em universidade, continua trabalhando como prostituta, tirando daí seu sustento. Pizzi levou três anos para concluir o documentário, mas considera que o trabalho foi positivo, pois todos que deram depoimentos são pessoas que têm carinho pelo tema e que querem preservar o local onde a Casa funcionou, evitando que esta seja demolida pela especulação imobiliária.


O diretor revela que, como próximo projeto, deve fazer um longa de ficção, embora considere Pretérito Perfeito uma quase ficção, pois trabalha com a memória, e histórias recontadas sempre ganham adereços de quem as conta. Pizzi teve a oportunidade de assistir à primeira exibição de seu filme na 30ª Mostra e considerou interessante ver o público reagindo ao seu trabalho. Diz ter-se preocupado com a cópia, com o som, enfim, com detalhes técnicos, e ao ver tudo perfeito tranqüilizou-se. A preocupação virou pretérita. O filme deixou então de ser seu e passou a pertencer ao público.