Leon Cakoff, Mira Perlov e Alberto Dines
Diário: Trabalho Raro no Cinema
Mira Perlov, viúva do cineasta David Perlov e produtora de seus filmes, conversou com o público presente ao Clube da Mostra sobre a apresentação especial de Diário e sobre algumas facetas artísticas do marido“O Diário é o resultado desesperado da necessidade de trabalhar, havia a premência do trabalho e a vitalidade de fazer”, assim Mira Perlov, viúva do cineasta David Perlov e também produtora de seus filmes, explicou como se deu o processo de realização de Diário, projeto documental em seis partes, cada uma com duração de 52 minutos, objeto de apresentação especial na 30ª Mostra. Durante debate realizado na segunda-feira, dia 23, no Clube da Mostra, no lounge montado no sexto andar do Shopping Frei Caneca, Mira detalhou que para Perlov o desemprego era como a escravidão. Não havia saída. Ela ressaltou ainda que, em geral, diários são feitos após o trabalho, com o objetivo de relatar o ocorrido durante o dia. Mas, para Perlov, o diário era a essência do dia.
No debate, que contou com a presença do jornalista e amigo do cineasta Alberto Dines e do diretor da Mostra Leon Cakoff, Mira emocionou a platéia ao detalhar sua vivência com o cineasta, nascido no Brasil e que com ela morou por muito tempo em Israel. As duas filhas gêmeas do casal, Yael e Naomi, continuam em Israel, onde são casadas, têm filhos e trabalham em cinema e na dança. Perlov era artista plástico e pintor e, na sua juventude, estudou com Aldemir Martins e foi influenciado por Lasar Segall, de quem era vizinho. Mas encantou-se com o cinema em Paris e teve a sorte de trabalhar com Henri Langlois, diretor da Cinemateca Francesa, e com o documentarista holandês Joris Ivens. Mira relembra ainda a influência que o pioneiro cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti teve sobre seu marido.
Cakoff ressaltou que Perlov fez um trabalho raro no cinema, porque era um escritor que precisava das imagens para completar a obra. Mira detalhou que o cineasta gostava de refletir muito antes de escrever as narrativas que acompanhavam os filmes. Dines, que conheceu Perlov nos anos 1940 e com ele participou de movimentos que lutavam pela criação do estado de Israel, também destacou a capacidade de dizer as coisas certas que Perlov possuía, destacando suas integridade e intensidade. Dines, que perdeu o contato com Perlov por muito tempo e o reencontrou nos anos 1980, disse que uma frase definia o amigo e mentor: “Artista é aquele que nos faz artistas”. “Ao assistirmos aos filmes de Perlov, tornamo-nos também cineastas”, explicou.
Diário, o documentário de Perlov, foi filmado durante 10 anos (1973 a 1983), registrando cenas do cotidiano com paciência e despojamento, ressaltou Cakoff. Mira revelou o quanto era difícil para ela ser objeto de filmagem, porque, na realidade, Diário não é um filme íntimo e egocêntrico, mas sim sobre a vida das pessoas em geral. A primeira montagem de Diário resultou num filme de 45 minutos, feito para a TV israelense, em fins dos anos 1970. A montagem seria retomada somente por volta de 1982. Mas Perlov não era bem entendido em Israel. Nos anos 1960, ele queria fazer filmes sobre pessoas e os outros queriam filmes sobre idéias, detalhou Mira.
Outro aspecto ressaltado pela viúva do cineasta foi o medo de Perlov em torno da poluição da imagem. Ele detestava a vulgaridade, a banalidade e o excesso de palavras, tão comuns na televisão. O cineasta recomendava que era preciso primeiro olhar e depois refletir sobre o que falar. Do mesmo modo, ele não usava música de fundo apenas para pontuar. A música que existe nas cenas são aquelas que têm alguma relação com a realidade filmada. Mira revelou ainda que há mais cenas filmadas, além das seis horas que formam o Diário. Mas não muito, pois o filme foi feito com muita economia, por falta de recursos. Ela, como produtora, controlava essa parte, pois sabia exatamente quanto custava todo o processo. Embora não saiba precisar quando, Mira garantiu que a produção será lançada em DVD, inclusive no Brasil.