Jornal da Mostra


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Nº 448
30ª Mostra > 25/10/2006
Curtas-Metragens são Movidos à Paixão
Fabrício Bittar, Francisco César Filho, André Ristum, tradutor e Guillaume Martinez

Curtas-Metragens são Movidos à Paixão

Por que Fazer Curtas Hoje? Por paixão, dizem os curta-metragistas Fabrício Bittar, de Primeira Vez, André Ristum, de 14 Bis, e Guillaume Martinez, de Palavras Riscadas, que participaram do debate com esse tema realizado no Clube da Mostra, na terça-feira, dia 24, no lounge montado no Shopping Frei Caneca. Mediado pelo jornalista e também curta-metragista Francisco César Filho, o debate deixou claro que esses diretores são apaixonados por seus trabalhos, enfrentando inúmeras dificuldades para conseguir realizar seus projetos. Mas continuarão a fazê-lo para mostrar sua obra e porque estão impregnados pela arte, destaca Bittar. Martinez, por exemplo, que ganhou o Urso de Prata em Berlim com seu filme, revelou ter usado recursos próprios, pois não encontrou nenhum produtor interessado. Mas ele salienta que, hoje, as portas que estavam fechadas se abriram. Bittar relatou ter conseguido apoios diversos, mas foi preciso trabalhar sem remuneração em troca de investimento na produção.

Já Ristum tem uma história bem diferente, pois 14 Bis foi pensado para ser um filme grande, coincidindo com as comemorações do centenário do vôo realizado por Santos Dumont. Apesar de curta, o filme exigiu reconstituição, cenários e figurinos de época tanto quanto um longa-metragem, além de terem sido necessárias duas semanas de filmagens em cinco cidades de locação. Ristum captou R$ 500 mil para fazer 14 Bis, enquanto que para seu segundo curta, Homem Voa? (2001), também sobre Santos Dumont, captou R$ 50 mil. Ele compara ainda esse custo com o longa O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, que consumiu apenas R$ 315 mil porque tinha uma só locação e a equipe se tornou co-produtora do projeto. Ristum conta ainda que quis fazer o filme para resgatar a imagem de Santos Dumont, já que existe quase que total desconhecimento sobre seus feitos e pioneirismo. Um acordo com o Ministério da Educação o levará para 40 mil escolas.

Bittar, que é professor de literatura, revela seu gosto por curtas-metragens e por histórias curtas na literatura. Ele aponta o surgimento de novas mídias, como a internet e o celular, como um caminho para os curtas. Iniciante, pois Primeira Vez é seu primeiro trabalho, o cineasta revelou-se muito feliz por estar na Mostra, que sempre acompanhou como espectador. Disse que a 30ª Mostra está com uma seleção excepcional de curtas-metragens e que, se o público se dispusesse a assistir, certamente passaria a gostar mais do formato. Ainda há preconceito em relação ao curta, considerado filme de experimentação ou de quem está começando a carreira, diz Bittar.

Ristum, que está em seu quarto curta e que já fez um longa documentário (Tempo de Resistência, de 2004), ressalta que não considera o curta uma escada para se chegar ao longa, mas revela que, depois de oitos anos dirigindo, quer mesmo fazer um longa de ficção. Será um projeto mais pessoal e urbano, detalha, acrescentando ainda que, se conseguir captar recursos, começa o projeto em 2007. Já Martinez, também em seu primeiro trabalho, diz que seu próximo projeto será um média-metragem sobre inteligência artificial. O diretor, que veio da França, onde é quase inverno, para o calor de São Paulo, aponta os festivais como um caminho para que os diretores consigam expor suas obras. Disse que já havia ouvido comentários positivos sobre a Mostra Internacional em São Paulo, mas que ficou surpreso com a organização que encontrou e com a quantidade de filmes de países tão variados.