Política e Cinema na América Latina é tema de debate no Clube da Mostra
Política e Cinema na América Latina é tema de debate no Clube da Mostra
A série de encontros promovidos pelo Clube da Mostra prosseguiu nesta quinta-feira, dia 26, com o debate América Latina: Política e Cinema, que reuniu os cineastas José Glusman (Solos), Tania Hermida (Qué Tan Lejos) e Glenn Gebhard (Cuba: Uma Vida de Paixão). Mediado pelo apresentador Serginho Groisman, o bate-papo contou também com a presença do compositor Mladen Milisovic, autor da trilha de Cuba: Uma Vida de Paixão.
Cinema e política são dois temas dificilmente dissociados na cinematografia dos países latino-americanos, seja na abordagem dos conflitos políticos nas telas ou nas eternas discussões em torno das medidas de incentivo à produção. “É inevitável fazer cinema na Argentina e não mencionar a política e os problemas sociais do país”, diz José Glusman (Solos). O país vizinho produz em média entre quarenta e cinqüenta filmes por ano, todos dependentes de leis de incentivo, como acontece no Brasil. Para Glusman, a legislação argentina apresenta uma vantagem em relação à brasileira: “Na Argentina, temos facilidades para realizar co-produções com outros países, diferente do que acontece no Brasil. Mas no que diz respeito à exibição, vivemos os mesmos problemas”, afirma.
Na esteira de Brasil e Argentina, o pequeno Equador está tentando estabelecer uma produção local, até então praticamente inexistente. Para se ter uma idéia, pela primeira vez em trinta anos a Mostra exibe um longa do país, Qué Tan Lejos. “É a primeira vez que um filme equatoriano participa da Mostra e isso me deixa ainda mais emocionada por estar aqui”, diz Tania Hermida. A cineasta enfrentou uma verdadeira via-crúcis para conseguir captar recursos para seu filme, batendo de porta em porta atrás de financiamento. “Eu posso dizer que praticamente inaugurei no Equador o discurso de que o cinema tem uma importância cultural para o país.” Hermida revelou ainda que, depois de muita batalha, há três meses o Equador aprovou sua primeira lei de incentivo à produção cinematográfica.
O norte-americano Glenn Gebhard, por sua vez, diz que seus dois maiores problemas dizem respeito ao tema de seus últimos documentários e à questão da distribuição. Desde 1994, Gebhard faz pesquisas sobre Cuba, o que deu origem a dez documentários sobre a ilha. “É muito difícil fazer um filme sobre Cuba nos EUA, principalmente agora, que o país está nitidamente inclinado à direita”, revela. Segundo o diretor, vender seus filmes também está cada vez mais difícil, pois teria de abrir mão de seu estilo. “Canais de TV como o Discovery ou o History Channel querem que você filme no estilo deles, e eu não quero fazer um documentário com a cara da Discovery.” Pela primeira vez, com Cuba: Uma Vida de Paixão, Gebhard teve autorização do governo cubano para filmar no país – seus outros filmes foram feitos às escondidas. Para fazer o longa, que trata da possível transição de regime em Cuba, o diretor convidou o compositor Mladen Milisovic para compôr a trilha sonora. Milisovic é especialista em música cubana e já compôs para diversos outros filmes sobre a ilha. “No filme, não usei apenas música cubana, coloquei também alguns boleros. A música cubana é muito alegre, muito pra cima e, em determinados momentos, não cabia no contexto do filme.” Interado sobre os acontecimentos políticos na ilha de Fidel nos últimos anos, ao final do debate Gebhard arriscou um prognóstico: “Hoje existem duas Cubas, mas no futuro haverá apenas uma. E esta não será nem a Cuba de Fidel, nem a Cuba de Miami.”