José Maria Alves, Kirill Mikhanovsky, Francisco César Filho e Carlos Bolado
Semelhanças Atraem o Olhar Estrangeiro
Carlos Bolado e Kirill Mikhanovsky expuseram suas idéias no debate O Olhar Estrangeiro sobre o Brasil, realizado na sexta-feira, dia 27, no Clube da Mostra, montado no sexto andar do Shopping Frei Caneca. O debate, mediado pelo jornalista Francisco César Filho, contou ainda com a presença de José Maria Alves, ator principal de Sonhos de PeixeAs semelhanças mais do que as diferenças têm atraído o olhar dos estrangeiros sobre o Brasil. Ao menos para dois diretores – Carlos Bolado (Só Deus Sabe), do México, e Kirill Mikhanovsky (Sonhos de Peixe), da Rússia e radicado nos Estados Unidos –, que abordaram temáticas brasileiras em seus filmes que integram a seleção da 30ª Mostra. Kirill destacou que Brasil e Rússia se assemelham, por exemplo, por gostar de cantar e dançar. A diferença é que brasileiros sorriem enquanto cantam e dançam, e os russos bebem e choram. Ele acrescentou ainda que para filmar é preciso ter um olhar de fora da cena para de fato percebê-la. Bolado disse ter escolhido o tema sincretismo religioso, um aspecto no qual Brasil e México se assemelham, porque é preciso afunilar a história. Não é possível, num filme, contar toda a história de um país.
Bolado detalhou ainda que o Brasil é um país muito complicado. Por sua extensão, contém muitos Brasis, muitos imigrantes e muitos sotaques em sua formação. E, tanto quanto o México, na opinião dele, ainda não tem uma identidade totalmente definida, pois é um país jovem. A relação de Bolado com o Brasil começou pela literatura. O pai era apaixonado pelos autores brasileiros, como Jorge Amado, e transmitiu essa paixão ao filho. Já Kirill interessou-se pelo Brasil por causa de Caetano Veloso, como revelou em entrevista exclusiva ao Jornal da Mostra (leia aqui).
Bolado conheceu o Brasil em 1999, quando visitou Salvador para pesquisar o candomblé. Mas ele queria também fazer uma história ligada a São Paulo, metrópole que, segundo ele, se parece muito com a Cidade do México. Só Deus Sabe é ambientado nas três cidades e por isso foi difícil de realizar. O cineasta disse que as burocracias, mexicana e brasileira, obrigavam a redigir e a assinar inúmeros contratos. Além disso, era necessário pensar em como conquistar o espectador, já que o filme é falado em duas línguas e volta-se para público dos dois países. Ele revelou que pessoas que conhecem México e Brasil, ao assistirem a produção, sempre se reconhecem no filme e relatam terem vivido situações semelhantes.
Com exceção de Chico Diaz e Phellipe Haagensen, o elenco de Sonhos de Peixe é todo formado por não-atores, moradores de Baía Formosa, no Rio Grande do Norte. Kirill disse que desde o início sabia que não trabalharia com atores profissionais, pois, segundo ele, ninguém melhor do que um pescador para interpretar um pescador. E a regra para a escolha foi a mesma que para qualquer profissional: encontrar a pessoa certa para o papel. José Maria Alves, que interpreta o protagonista, disse que o mais difícil para ele foi “incorporar” outra pessoa. Mas, ao estudar o personagem, descobriu que este era ele próprio, “eu só tinha que tirá-lo de dentro de mim”, explicou. José Maria revelou ainda que, para a população da cidade, as filmagens foram como um outro carnaval, com todos querendo participar.