Jornal da Mostra


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Nº 455
30ª Mostra > 29/10/2006
Os Jovens do Brasil, segundo Três Diretores
Flávio Tambellini, Ricardo Elias e Tata Amaral

Os Jovens do Brasil, segundo Três Diretores

Ricardo Elias: Carinho e Crítica com São Paulo

Depois de uma vitoriosa carreira com seu primeiro filme, De Passagem (entre outros prêmios, vencedor do Festival de Gramado e melhor filme segundo o público da 27ª Mostra), Ricardo Elias apresenta agora Os 12 Trabalhos, seu segundo longa-metragem, já carimbado por uma premiação no Festival de San Sebastián, na Espanha. Qual é o peso de tantas vitórias para um diretor estreante? Elias revela que iniciou Os 12 Trabalhos imediatamente após finalizar o primeiro filme, de forma que os prêmios não chegaram a interferir. Destaca, porém, que gostava muito de algumas coisas em De Passagem, mas não quis repeti-las. Tematicamente, os filmes se aproximam, continua o diretor, mas, esteticamente, Os 12 Trabalhos é conscientemente mais elaborado, já que no primeiro ele buscou apenas o essencial.

Paulistano, Elias tem sempre São Paulo presente em sua obra. Em Os 12 Trabalhos, a grande metrópole é muito vista mais uma vez. Ele explica que isso não é uma tentativa de encontrar soluções para a cidade, mas sim de fazer um retrato dela. Afinal, o diretor a vê de um outro jeito, embora as cenas cotidianas estejam presentes. O que ele quer é fazer uma reflexão sobre as pessoas, sobre o jovem das classes C e D. Elias diz que o cinema brasileiro é produzido por pessoas oriundas de classes mais abastadas e torna-se assim um dilema retratar os mais pobres. Ele não se furta a esse dilema, mas também não quer mostrar apenas a criminalidade, os acidentes e as dificuldades das classes menos abastadas, pois isso seria muito fácil. O diretor quer mostrar também o outro lado. Sem tomar partido, considera que os seus filmes têm, ao mesmo tempo, uma relação carinhosa e crítica com a cidade.

Em Os 12 Trabalhos, o protagonista se chama Héracles (Hércules, o semi-deus grego), porque Elias fez uma leitura livre do mito com a proposta de ironizar a realidade opressora do personagem. Ele é motoboy, recém-saído da Febem e, para mudar de vida, terá de fazer um esforço hercúleo. O filme, adquirido pela distribuidora Imovision, deverá chegar ao circuito comercial em fevereiro ou março de 2007. Elias ainda não se definiu sobre seu próximo projeto, mas pensa, por exemplo, num documentário sobre o coreógrafo Ivaldo Bertazzo.


Tata Amaral: O Nascimento do Arquétipo Feminino

Com a exibição de Antonia, seu terceiro longa-metragem, a cineasta Tata Amaral conclui sua trilogia da mulher. Este projeto nasceu quando ela terminava de filmar Um Céu de Estrelas (1996), sua estréia no longa. O filme representou a mulher adulta, na figura da atriz Leona Cavalli. Com o trabalho posterior, Através da Janela (2000), Tata visitou o mundo da mulher idosa, no caso, Laura Cardoso. Agora, com Antonia, ela investiga o arquétipo da mulher jovem, representada não só pela personagem-título, mas pelas quatro moradoras da Vila Brasilândia, na periferia de São Paulo, que formarão o grupo de hip hop que conduz a trama. Elas são interpretadas por Leilah Moreno, Negra Li (cantora que envereda agora em carreira-solo), Cindy e Quelynah e representam o nascimento da mulher, o brotar social de jovens de princípios puros.

Ao mesmo tempo, Tata, depois de dois filmes bastante fechados entre as paredes de uma casa, volta ao espaço aberto e à urbe paulistana, revisitando temas e cenários já presentes, por exemplo, em seus curtas Poema: Cidade (1986), co-dirigido por Francisco César Filho (mediador de vários debates no Clube da Mostra), e Viver a Vida (1991). A idéia para Antonia assombrou Tata desde 1991, quando o produtor norte-americano indie Jim Stark lhe disse que ela precisava fazer um filme negro e com música. Em Viver a Vida, o protagonista é um office boy à mercê da cidade barulhenta. Já em Antonia, por mais que se registre a violência urbana, os ruídos permanecem à maior distância, exceto quando a protagonista abandona a poesia do hip hop e passa a trabalhar como perueira. Apenas então a poluição sonora se manifesta com força total. De qualquer forma, a Vila Brasilândia é apresentada como um lar íntimo, que revela a avenida Paulista ao longe, no horizonte.

Tata entrevistou seiscentas meninas com vivência no hip hop – ou seja, que soubessem cantar e rimar – para chegar às quatro por fim escaladas. Rappers costumam trabalhar com improvisos, o que para Tata foi uma habilidade dramaticamente necessária. As quatro atrizes novatas são adeptas do free style, que requer senso de humor e constante atenção a tudo que as rodeia. Como esse projeto foi gerado a partir de cerca de três anos de intensa pesquisa, Tata fica feliz ao apresentar os inúmeros “produtos derivados” da obra: além da inevitável trilha sonora e da bastante divulgada telessérie (em cinco capítulos) que a O2 produziu para a TV Globo e que estreará dia 17 de novembro, preparando terreno para a estréia do filme em janeiro, Tata também preparou um livro de contos a partir de suas pesquisas, uma vídeo-instalação chamada “Jukebox 2: Um Esboço para Antonia” e, em suas horas “vagas”, passou a colher depoimentos de diretores para publicar um livro a respeito de seus processos criativos. E ela já está de olho no futuro: além de cogitar uma continuação (ou uma segunda temporada) de Antonia, Tata pretende explorar o mundo do skate a partir do romance Bagdá, o Skatista, de Toni Brandão.


Flávio Tambellini: Vivência de Cinema

Formado em Economia e Sociologia, Flávio Tambellini tentou fugir do cinema, mas não conseguiu e seguiu a carreira do pai, o diretor e crítico de cinema Flávio Tambellini (1927/1976). Na seleção da 30ª Mostra está sendo apresentado seu segundo longa como diretor, O Passageiro – Segredos de Adulto. Seu primeiro longa-metragem, Bufo & Spallanzani, de 2001, baseava-se no livro homônimo de Rubem Fonseca e tinha personagens literários, diz Tambellini. Embora O Passageiro também seja baseado em livro a ser lançado brevemente, escrito por Cesário Mello Franco, também autor do roteiro, o diretor diz que, na verdade, interessou-se pela história do garoto que faz sua passagem para o mundo adulto quando perde o pai. A história aborda a sexualidade, a inexperiência do jovem e é também uma crônica do Rio de Janeiro, a mistura entre as favelas e a avenida Vieira Souto (onde vive a classe mais abastada, em Ipanema). Além disso, acrescenta Tambellini, “eu tenho um filho da mesma idade”.

O interesse em adaptar obras literárias advém do fato de a história já delinear um perfil dos personagens e conter a dramaturgia necessária para o desenrolar da trama. Como em seu filme anterior, Tambellini diz que gosta de mesclar no elenco jovens atores com grandes nomes do cenário nacional. Em O Passageiro, estão Giulia Gam, Antônio Calloni e Carolina Ferraz e os jovens Bernardo Marinho e Luiza Mariani. O diretor foi auxiliado por Juliana Galdino, assistente do diretor teatral Antunes Filho, na preparação de Marinho, mas ressalta que, embora ensaie, gosta muito do improviso. Tambellini detalha ainda que a direção de atores é o que ele mais gosta de fazer. Por isso, em 2007 dirigirá sua primeira peça de teatro, Some Girls (Algumas Garotas), escrita por Neil Labute, que terá em seu elenco João Miguel (de Cinema, Aspirinas e Urubus), Mariana Lima e Camila Pitanga.

Por causa de sua intensa e veterana vivência com o cinema, já que o pai também tinha envolvimento político com a área, tendo sido o fundador do Instituto Nacional de Cinema (INC), Tambellini diz que conhece bem o sofrimento dos cineastas. Por também ser produtor e por ter sido assistente de direção no início de carreira, ele afirma que ficou mais fácil lidar com as dificuldades, não desperdiçando tempo nem custos com filmagens desnecessárias. Essa vivência lhe possibilitou uma visão mais realista do cinema. Embora considere que ainda exista preconceito do público em relação ao cinema nacional, também reconhece a formação de uma nova geração de espectadores. Mas há ainda um grande entrave na conquista desse público, diz Tambellini: o gargalo da distribuição. São poucas salas de cinema e muita competição, pontua, destacando ainda que, em festivais como a 30ª Mostra, há um grande número de espectadores, mas que não prestigiam os filmes nacionais quando de seu lançamento comercial nas telas. O Passageiro – Segredos de Adulto será lançado em janeiro de 2007, pela Califórnia Filmes, com cerca de trinta cópias.