Jornal da Mostra


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Nº 456
30ª Mostra > 30/10/2006
Cinema Político Italiano é tema de debate e livro
Angela Prudenzi, Elisa Resegotti, tradutor, Vittorio De Seta, Álvaro Machado, Florinda Bolkan e Leon Cakoff

Cinema Político Italiano é tema de debate e livro

Cinema Político Italiano – Anos 60 e 70 oferece entrevistas inéditas com importantes nomes desse recorte cinematográfico. As pesquisadoras Prudenzi e Resegotti conseguiram depoimentos surpreendentes dos realizadores que, com empenho social e político, denunciaram as mazelas da sociedade de seu país. “O cinema feito nessa época teve um grande impacto no mundo. Basta lembrar que o filme Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita ganhou o Oscar”, diz Prudenzi. A autora revelou ainda que ela e Elisa optaram por fazer entrevistas com os diretores porque ninguém poderia explicar melhor do que eles porque fizeram esses filmes. Elisa, no entanto, lembrou que os cineastas, num primeiro momento, ficaram reticentes com a proposta. “A maioria deles achou desnecessário falar sobre essa época, porque acreditam que os filmes já falam por si só”, diz. Segundo ela, a estratégia de convencimento foi mostrar a eles a importância de resgatar esse momento, o porquê desses filmes terem sido feitos.

O diretor da Mostra, Leon Cakoff, fez questão de relembrar a visão que os brasileiros tinham desse período do cinema italiano. Segundo ele, havia um gosto amargo, um clima de expectativa, por não se saber se poderíamos ou não assistir aos filmes devido à censura. “Esses diretores eram para nós uma espécie de heróis da resistência”, revela. O jornalista Álvaro Machado, que ao lado de Cakoff foi responsável pela organização do livro, diz ter ficado impressionado com a coesão de pensamento entre as entrevistas. Para ele, esse período se configurou como um verdadeiro movimento.

O mestre Vittorio De Seta (Banditi a Orgosolo e Cartas do Saara, exibidos nesta 30ª Mostra), um dos cineastas entrevistados no livro, afirmou não ver grandes mudanças daquela época para os dias de hoje. Para ele, talvez tenha mudado apenas a ideologia, porque na época eram todos de esquerda. Para De Seta, continuam a haver dois tipos de cinema bem claramente definidos. “Existe o cinema de evasão e o cinema de engajamento civil e social. Não sou favorável a um ou a outro em especial, só acho que o cinema de engajamento merece um pouco mais de ajuda, de suporte”, observa. O diretor revelou também que não ficou vinte anos sem filmar por falta de recursos ou oportunidade. “Fiquei esse tempo sem filmar porque estava sem idéias. Quando você tem uma boa idéia para filmar, consegue fazer o filme”, afirma.

Florinda Bolkan, que atuou em diversos filmes nessa época, lembrou da peculiaridade que mais lhe chamou a atenção no período. “O cinema italiano tem essa capacidade de falar de problemas muito sérios, mas sempre com aquele humor típico”, diz. Para a atriz, outra característica do italiano é a capacidade de construir por meio da polêmica: “Os italianos conversam, debatem e brigam e assim terminam por promover um entendimento.” Florinda, cujo filme Eu Não Conhecia Tururu (2000) teve apresentação especial no sábado, aproveitou para revelar que em breve deve começar a filmar seu segundo longa. Ela não revelou detalhes, mas garantiu que o filme será filmado no Ceará: “A gente sempre sente amor por algum lugar, e esse lugar para mim é o Ceará.”