Jornal da Mostra


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Nº 457
30ª Mostra > 31/10/2006
Diretores Encontram a Poesia em Suas Buscas
Carlos Bolado, Pablo Lobato e Gustavo Acioli

Diretores Encontram a Poesia em Suas Buscas

Carlos Bolado: Uma Viagem pela Identidade de Dois Países

Como único diretor estrangeiro e com carreira internacional a concorrer ao Prêmio Petrobras Cultural de Difusão, o mexicano Carlos Bolado declarou que realizou Só Deus Sabe como forma de relacionar a cultura de seu país-natal com a do Brasil, terra que desde cedo viveu em seu imaginário: “Quando eu ainda era adolescente, meu pai me obrigou a ler Capitães de Areia, de Jorge Amado, que acabei gostando muito. Logo depois veio Quincas Borba...” É por isto que o tema do sincretismo religioso é tão importante para conduzir a história e determinar normas de conduta de sua protagonista, Dolores de Maria (Alice Braga).

Na jornada espiritual de sua personagem, que começa no México e termina em Salvador, durante a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, Bolado procura fazer um cinema de perguntas, e não de respostas. Sem querer ser messiânico, ele trabalha com a espiritualidade num sentido mais coletivo, que anuncia, por exemplo, que os vivos de hoje realizam e refletem o que os antepassados provocaram. Não é um caso de reencarnação, mas de carma legado. Neste sentido, o filme representa um verdadeiro tour de force para Alice, pois a câmera lhe acompanha o tempo todo, Dolores está sempre em cena. Num certo momento, sua personagem conhece o jornalista Damián (Diego Luna), um quase alter-ego de Bolado. Os dois personagens são órfãos e se unem nessa viagem em busca da fé e da identidade.

O cineasta ainda observa que seu filme é extremamente líquido, pois há muita água, suor, urina e fluidos sexuais. Para dar forma definida a esse conjunto, importante foi a edição, co-assinada pelo próprio Bolado, montador de formação, e por Manuela Diaz. Para ele, montar um filme com colaboração é como tocar piano a quatro mãos, definindo o sentido musical das cenas e de sua concatenação. Outro elemento vital para a obra, inevitável pela própria natureza do entrecho, é a trilha sonora. Ele contatou Otto para compor a trilha incidental, já que este conhece candomblé e lida bastante com tambores e percussão. Otto trabalhou em três faixas com a cantora mexicana Julieta Venegas, inclusive numa versão da canção “Lágrimas Negras”, de Jorge Mautner, e selecionou ainda, a pedido de Bolado, faixas de Tom Jobim, Dolores Duran, Moreno Veloso, Interpol, The Libertines e Nortec Collection. Para conferir esta salada sincrética, é preciso apenas esperar o “lançamento médio” do filme, como Bolado classificou, no dia 09 de dezembro.

Pablo Lobato: Da Poesia se Faz Cinema

Em Minas Gerais, há 853 municípios. Eliminando os que têm nomes de santo, têm origem indígena ou que terminam em polis, restaram 600. Desses, selecionou-se apenas aqueles que tinham nomes com graça, ritmo e expressividade. Ainda restaram 200. Então, Pablo Lobato e Cao Guimarães fizeram fichas com os nomes e iniciaram um jogo, com poemas, escritos e roteiros. O resultado está em Acidente, longa-metragem que partiu do nome de vinte cidades mineiras, transformando-os num poema. A intenção foi colocar na tela o casual e o cotidiano, o que se passasse à frente ou atrás da câmera, revela Lobato em entrevista ao Jornal da Mostra. Inicialmente, Cao e ele queriam contar a origem dos nomes das cidades, mas perceberam que deviam dar espaço ao traço acidental que os rondava. Cao e Pablo dirigiram, roteirizaram, fotografaram e montaram Acidente, que integra a seleção da 30ª Mostra.

Mas Acidente passará ainda por um processo de finalização, sendo transferido para 35mm e, no primeiro semestre de 2007, exibido ao ar livre nas cidades em que foi rodado, já que estas não possuem salas de cinema. Também será distribuído comercialmente em sete capitais – Belo Horizonte, Recife, Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Fortaleza. A expectativa é que gere debates, como tem ocorrido em todos os locais em que é apresentado. E, embora Lobato não se preocupe tanto com a resposta, ela já está acontecendo, pois, apresentado no Festival de Locarno, o filme tem recebido convites para participar de festivais de diversos países.

Depois de um trabalho tão diferenciado, fica mais difícil pensar no próximo? Lobato considera que Acidente é um marco porque foi muito forte, com o filme ele “desaprendeu” muito, pois este lhe deu liberdade e prazer de fazer. Provocou ao mesmo tempo uma tensão aguda e relaxada, revela. Sempre há a ânsia pela resposta e pelo reconhecimento imediato, mas Lobato diz que procura deixar as coisas acontecerem normalmente. Embora seja seu primeiro longa, ele já faz cinema há dez anos. Depois de Acidente, Lobato já realizou um média-metragem de ficção, Outono, que será lançado em 09 de novembro, sendo um dos quatro filmes ganhadores de recursos do Estado de Minas Gerais.

Gustavo Acioli: Um Diretor de Poucos Atores

O carioca Gustavo Acioli é o primeiro a reconhecer que, para uma estréia em longa-metragem, foi bastante corajoso ao escolher um texto teatral inédito (ainda não encenado) para servir de base para Incuráveis. “Depois de assisti-lo pronto, achei ainda mais corajoso”, brinca. Mas ele explica que o que lhe interessou no original de Marcelo Pedreira foi o embate existencial entre os dois personagens num mesmo cenário. “Eu fugi da armadilha teatral, pois não quis fazer uma tradução coloquial do texto. Através da decupagem, procurei uma linguagem cinematográfica”, completa. O filme não teve storyboard, e Acioli contou apenas com uma maquete do quarto para estudar rigorosamente como posicionar as câmeras. Tudo tinha que ser bem pensado, apesar de muitas das melhores soluções terem saído de improvisos gerados por ele, pelo diretor de fotografia Lula Carvalho e pelo diretor de arte André Weller.

Para trabalhar, Acioli parte sempre de um dogma pessoal: “Eu vejo primeiro se dá para fazer a cena num único plano. Se não der, verifico o que posso descartar. Se ainda assim não encontro uma solução, é sinal de que preciso decupar melhor a cena.” Com Lula, filho do mestre Walter Carvalho, Acioli também cuidou da transformação do quarto, que começa na escuridão e com focos de luz definidos, para gradativamente se clarear. “Coisa rara hoje em dia, fazíamos sempre copiões (dailies) para verificar a coerência da luz”, comenta.

Quanto ao fato de trabalhar basicamente com dois atores, um de formação essencialmente teatral (Fernando Eiras) e outra bastante acostumada às câmeras de cinema (Dira Paes), o diretor diz que o filme ganhou em tridimensionalidade, pois o embate entre os dois se dá muitas vezes em subtextos e cada ator oferecia seus próprios macetes para melhor traduzir o enredo. E a economia de atores será marca também de seu segundo longa-metragem, O Jardim de Infância de Adão e Eva, uma adaptação séria do mito bíblico num roteiro 100% original, 95% sem falas e cujo terceiro personagem será Deus. Que vocação incurável para o subliminar!