Jornal da Mostra


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Nº 460
30ª Mostra > 01/11/2006
Diretores Preferem Violência sem Glamour
Laurence Lamers, tradutor, Rubens Ewald Filho e Julia Loktev

Diretores Preferem Violência sem Glamour

Julia Loktev, que em Dia Noite, Dia Noite narra a história de uma mulher-bomba no Times Square, em Nova York, diz que existe uma diferença entre mostrar e ilustrar a violência na tela. É possível fazê-lo com sutileza, insinuando, sem apelar para cenas violentas ou com sangue jorrando. Em seu filme, ela revela que o simples ato de cortar as unhas pode denotar muito mais violência do que órgãos sendo extirpados. Laurence Lamers, cujo Paid, protagonizado pelo brasileiro Murilo Benício, gira em torno de um assassino de aluguel, pontua que em suas histórias a violência não é glamurizada, ela ocorre como na vida real.

Julia é radical, não gosta de meio termo: ou a violência é total ou apenas insinuada. Ela não gosta da violência estilizada usada pelo cinema norte-americano, tipo Matrix, que diz odiar. As cenas são mais coreográficas do que violentas, parecem um balé. Além disso, Julia acha que os filmes de Hollywood não são suficientemente violentos por não mostrarem as implicações causadas pela violência. Lamers concorda e aponta Elefante, de Gus van Sant, como um filme violento que o tocou, porque mostra como a violência ocorreu na realidade. A diretora e roteirista revela que a idéia de seu filme começou com uma notícia de jornal, sobre uma mulher que perambulava pelas ruas de Moscou e, ao ser detida, descobriu-se que ela possuía uma bomba presa ao corpo. Esse fato, diz Julia, faz pensar sobre a violência. Não é possível determinar, pela aparência das pessoas, se elas são violentas ou não. A violência psicológica é a que mais lhe atrai, afirma. Já Lamers considera que as emoções é que provocam violência, se a pessoa controla seus ciúmes, por exemplo, ela também controla sua violência.

Julia, que mora em Nova York, diz que em 11 de setembro de 2001, quando dos ataques terroristas às torres do World Trade Center, ela assistiu tudo da janela de sua casa, do outro lado da ponte (Brooklin). Gravou tudo, mas assistiu às cenas apenas uma vez. O que mais a impressionou foi o intervalo entre as quedas das duas torres, porque, nesse período de tempo, ela filmou o céu azul, o barulho dos pássaros e o imobilismo das pessoas frente ao ocorrido. Mas nenhum noticiário mostrou esse imobilismo. Ela sente dificuldade em tocar no assunto e diz ter sido a primeira vez que falou sobre sua filmagem. Lamers argumenta que os ataques terroristas não influenciaram seu trabalho porque ele sempre achou o ser humano cruel e violento, um animal capaz de qualquer coisa. Diz que nunca viveu algo parecido como a experiência de Julia e que, meses depois do ocorrido, estava em Canoa Quebrada, no nordeste do Brasil (ele é casado com uma brasileira), onde conversou com os moradores locais sobre o assunto. Percebeu que para eles aquilo não havia tido nenhum significado. Considera que é muito difícil compartilhar esse sentimento, pois a violência não causa o mesmo impacto em todos.