Kiko Goifman, Caio Cavechini e Decio Matos Jr.
Documentaristas Ressaltam a Importância da Mostra
Kiko Goifman: Documentário Solto das AmarrasPresente na 30ª Mostra com o documentário Atos dos Homens, o diretor e roteirista Kiko Goifman, antropólogo por formação, diz que talvez seja este o motivo que desperta seu interesse por grupos sociais urbanos e pela realização de documentários. Sua paixão por esse gênero cinematográfico o levou a assistir a palestras de importantes documentaristas, como Frederick Wiseman, Jean Rouch e Robert Drew. Cada um, ao seu modo, levou-o a pensar e a produzir documentários. Segundo o cineasta, o gênero vive atualmente um momento de liberdade, solto das amarras do didatismo e do campo das certezas. É essa liberdade que faz surgir propostas mais sedutoras. A contribuição do documentário no complexo cenário mundial e nas relações sociais é a possibilidade de aprofundar os assuntos, contrapondo-se ao jornalismo cada vez com maior pressa. No mundo veloz, o documentarista pode, por exemplo, passar um ano acompanhando uma criança no Oriente Médio. O resultado será um ponto de vista diferente daquele que diariamente relata, em poucos segundos, informações de um determinado conflito.
Goifman ressalta ainda que as pessoas parecem ávidas pelo real, seja na TV (reality shows, histórias de vida), na internet (blog, fotologs) ou no cinema (filmes baseados em fatos reais). É nessa “esfera do real” (citada pelo crítico de cinema Jean-Claude Bernardet e pelo videoartista Lucas Bambozzi) que reside o espaço para o documentário. Mas o cineasta não gosta do termo “boom” para definir a grande quantidade de documentários realizados, pois não acredita que seja um movimento efêmero. O fato é que o documentário está perdendo a terrível aura de chatice, o que facilita um pouco a vida dos diretores. Goifman acrescenta, porém, que fazer cinema independente e de autor é difícil e não apenas no Brasil.
Pertencente à nova geração de cineastas, Goifman também considera que a participação em festivais nacionais e internacionais é o melhor caminho para aqueles que se iniciam na área. Além da legitimação, os festivais permitem saudáveis parcerias internacionais, diz o documentarista. Ele revela ainda que vários filmes que viu na Mostra Internacional de Cinema marcaram sua vida e o influenciaram como realizador. Goifman lamenta apenas o desconhecimento do grande público em relação aos bons resultados que os filmes brasileiros têm obtido nos festivais internacionais, especialmente os europeus.
A resposta do público brasileiro aos novos cineastas tem sido boa, na opinião de Goifman. Mas ele considera que a distribuição dos filmes ainda é problemática. Ressalta, porém, que se está caminhando num sentido interessante, relacionado ao “tamanho” específico de cada filme, pois cada um tem seu público, que pode não ser de centenas de milhares de pessoas. O próximo projeto de Goifman é um filme de ficção chamado FilmeFobia, cujo roteiro escreveu em parceria com Hilton Lacerda (na seleção da 30ª Mostra com Cartola, dirigido em parceria com Lírio Ferreira, e autor dos roteiros de Baile Perfumado, Amarelo Manga e Árido Movie), que será mais uma co-produção internacional, envolvendo Portugal e o produtor Paulo Branco.
Caio Cavechini: O Prazeroso Contato com o Público
Um dos mais jovens participantes da 30ª Mostra, Caio Cavechini, 23 anos, integra a seleção com o documentário Antes, Um Dia e Depois, do qual é responsável pela direção, roteiro, fotografia, montagem e produção. Ele explica que em projetos pessoais o realizador é um “faz-tudo”, que deixa sua marca em todas as etapas. No seu caso, ele não tinha orçamento, queria muito fazer o filme e então teve que assumir todas essas responsabilidades. A conseqüência natural, que ele descobriu ao longo das gravações, foi deixar o trabalho com um forte traço autoral. E ele não acredita que cinema no Brasil seja ou tenha que ser assim tão difícil. Caio considera importante o trabalho em equipe, a troca de experiências e o incentivo à formação técnica de profissionais para que estes reflitam sobre o país por meio de histórias bem contadas. Incentivo para Caio quer dizer também estímulo para que o mercado seja ativo e reciclável. Sua avaliação é mais de espectador entusiasmado com a produção cinematográfica nacional, pois, como novato na área, ele ainda não pode fazer uma avaliação do todo.
Caio revela-se um admirador da Mostra e diz que, nos dois anos anteriores, assistiu a muita coisa, de filmes que se tornaram grandes sucessos a outros, igualmente fascinantes, mas mais restritos tanto em orçamento quanto em distribuição. É um ambiente de diversidade de produções no qual ele agora se sente muito honrado em contribuir. O jovem documentarista diz que seu trabalho também tem essa cara de diversidade e ele está tendo retorno ao manter contato com o público. Na Mostra, os diretores apresentam seus filmes antes da exibição e podem debatê-lo ao final. Caio, que tem explorado essa experiência, diz que dialogar com diferentes públicos tem sido ótimo, pois cada um comenta algo diverso, gosta mais de uma das histórias do que de outra. Ele considera essa experiência fabulosa. Só lamenta o pouco tempo de contato, pois muitos espectadores estão de passagem, correndo para pegar outra sessão. “É meio um furacão que passa e ajuda a compreender o que você ficou tanto tempo produzindo”, considera.
Caio está tendo oportunidade também de conviver com cineastas veteranos, a quem ele gosta muito de ouvir, porque “ajuda a sair da história e a mergulhar na forma em que ela foi construída”. E revela mais uma descoberta: o impacto causado pela vinheta da Mostra. Quando ela rola no início da sessão, parece simbolizar uma infinidade de filmes extraordinários e ao mesmo tempo um evento que mobiliza a cidade. “Para mim, é uma felicidade muito grande me sentir parte disso”, reitera. Atualmente integrando a equipe do quadro Profissão: Repórter, da rede Globo de Televisão, Caio quer se aprimorar como jornalista e acha que a produção de documentários faz parte do processo. Mas não nega que, diante da fantástica experiência de levar um documentário ao público e sentir sua reação, sente vontade de fazer outros trabalhos em futuras Mostras. Já tem algumas idéias em mente, mas elas ainda “carecem de maturação”. Já em relação à ficção, ele diz que continuará sendo um entusiasmado espectador
Decio Matos Jr.: Festivais são Vitrines para Jovens Cineastas
Para Decio Matos Jr., que participa da 30ª Mostra com o documentário Fabricando Tom Zé, os festivais são uma ótima vitrine para o trabalho de jovens cineastas, e ele recomenda a todos que inscrevam seus filmes, pois há resultados imediatos. Décio revela que as participações de seu filme na Mostra e no Festival do Rio proporcionaram bons contatos nacionais e internacionais, com negociações em andamento para representação internacional e para distribuição no Brasil.
O jovem cineasta explica que seu interesse por Tom Zé surgiu quando ele rodava o documentário Bossa no Exílio, sobre músicos que fizeram sucesso ou eram reconhecidos no exterior, como Eumir Deodato, Léo Gandelman e Mauro Refosco (percussionista que toca com David Byrne). Ocorre que, nos anos 1990, Byrne foi responsável pela redescoberta de Tom Zé, e Decio Jr. resolveu incluí-lo no projeto. Ajudado por Kid Vinil, que, à época, trabalhava na gravadora Trama, iniciou suas conversas com Tom. O músico roubou as atenções, e Decio Jr. percebeu que ele merecia um documentário só dele.
Além de Bossa no Exílio, o cineasta também realizou o documentário Raíces, sobre uma cantora brasileira que retorna a Cuba para gravar um disco e buscar suas raízes. O envolvimento com música teve origem com seu pai, que trabalha em rádio. Decio Jr. ressalta ainda que sempre gostou de música e que tem nela um de seus grandes prazeres. Seus amigos são músicos. Para ele, então, unir cinema e música é unir o útil ao agradável. Considera que a música é um dos cartões postais da cultura brasileira, e o cinema é um meio de apresentá-la a outras pessoas e culturas.
Embora declare paixão pela ficção, Decio Jr. lembra que, ao se formar (estudou Cinema na Universidade de Nova York e Direção de Fotografia na Academia de Cinema de Praga), sentiu-se mais confortável fazendo documentários. Fabricando Tom Zé é um projeto que tomou quatro anos, da idéia à cópia final, e nesse período os documentários tiveram um “boom” mundial, principalmente pela repercussão dos filmes realizados por Michael Moore (Tiros em Columbine e Fahrenheit 11 de Setembro). Decio Jr. acredita que teve sorte desse movimento ter ocorrido ao longo da realização de seu filme, mas considera o documentário em si uma grande expressão do cinema.
A demora em realizar seu projeto se deu por diversos fatores, entre eles a dificuldade de patrocínio que atinge todo cineasta brasileiro. O segundo fator foi conciliar a agenda de Tom Zé com as filmagens. A turnê realizada pelo músico na Europa, em 2005, deu o fio condutor do documentário e foi uma oportunidade. Decio Jr. também discutiu com Tom Zé, pois este não queria entrevistas com Gilberto Gil e Caetano Veloso, seus companheiros de Tropicália. Mas o diretor afirmou que considerava seus depoimentos essenciais ao filme. Eles estão lá, pois Decio Jr. ponderou que, da mesma forma que respeitava Tom como músico, este deveria respeitá-lo como documentarista. Entre seus novos trabalhos, ele desenvolve um documentário sobre desmatamento no Brasil, mas considera que seu próximo desafio será mesmo dirigir um longa de ficção.