Diego Quemada-Diez, Jeremy Hamers, tradutor, Serginho Groisman, Katia Lund e Evaldo Mocarzel
Independente do rótulo social, cinema precisa de bons filmes
Ao debater A Urgência do Cinema Social na quarta-feira, dia 01º de novembro, no Clube da Mostra, os diretores Diego Quemada-Diez (Eu Quero Ser Piloto), Jeremy Hamers (A Verdade do Gato), Katia Lund (Crianças Invisíveis e Cidade de Deus) e Evaldo Mocarzel (À Margem do Concreto e NavegarAmazônia) demonstraram uma certa insatisfação com o documentário.Diego Quemada-Diez disse que não acredita em documentário, porque sempre há uma interferência, uma certa dramatização para enfatizar a situação documentada. Mas, ao mesmo tempo, ele o considera pela observação da realidade. Kátia Lund também disse não acreditar no gênero, apesar de adorar a estética. É preciso que o diretor tenha cada vez menos controle da situação filmada, porque senão torna-se ficção. A diretora ressalta que até mesmo um debate é visto de diversas formas, cada um dos espectadores o enxerga a seu modo, interpreta segundo seus padrões.
Evaldo Mocarzel ressalta que, na frente da câmera, as pessoas assumem uma postura diferente, se artificializam, desempenham um papel. Por isso, aponta as câmeras digitais como facilitadoras, pois permitem que os próprios personagens as usem para contar suas histórias. Ele considera ainda que o documentário pertence mais ao tema que está sendo desenvolvido do que ao realizador. Mocarzel define o documentário como “ficção de representação do real, que não se perde pelo compromisso ético do realizador”. Hamers disse que, ao realizar seu filme, percebeu que, no início, os cortadores de cana só falavam de aspectos positivos, tentando enfeitar a realidade. Depois, aos poucos, começaram a relatar a verdadeira situação que viviam.
Quemada-Diez, que em seu curta-metragem acompanha um menino órfão que vive numa favela do Quênia, África, disse que teve vontade de fazer seu filme ao trabalhar como operador de câmera de O Jardineiro Fiel, realizado naquele país e dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. Começou a entrevistar crianças e percebeu suas carências, sentindo que precisava fazer algo por elas. Seu curta denuncia a situação, e o personagem principal não é importante apenas como indivíduo, mas também pelo que representa. Hamers conta que Tião, o personagem principal de A Verdade do Gato, faleceu antes do início das filmagens, mas que seus companheiros resgataram cartas que ele, analfabeto, ditara a alguém para enviar à mulher. São essas cartas que constróem a narrativa da história.
À Margem do Concreto nasceu, conta Mocarzel, porque os sem-teto e os catadores de papel não aceitaram participar do documentário anterior do cineasta, À Margem da Imagem. Eles não se consideram moradores de rua, tema do filme anterior, mas sim integrantes de movimentos organizados e, por isso, o diretor fez outro filme abordando as ocupações no centro da capital paulista. Diz ainda que seu objetivo era a contra-reportagem, para que os sem-teto se defendessem das acusações que a mídia em geral faz contra eles, tratando-os com preconceito e como invasores.
Independente do rótulo social, houve concordância de que é preciso fazer bons filmes, que fiquem na cabeça do espectador. Para isso, diz Kátia, é preciso seduzi-lo. Quemada-Diez acrescenta que, vivendo num mundo icônico como o atual, o filme deve ter imagens fortes e poderosas, que se fixem na mente do espectador. Mocarzel considera que cinema é manipulação e linguagem, mas é preciso haver ética em relação às pessoas. Hamers também concorda que a miséria deve ser mostrada, mas é preciso respeitar limites, sem recorrer ao sensacionalismo.