Jornal da Mostra


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Nº 464
30ª Mostra > 02/11/2006
Cada um Busca o Poeta de que Precisa
Ricardo van Steen, Heitor Dhalia, Tocha Alves e Regis Faria

Cada um Busca o Poeta de que Precisa

Heitor Dhalia: Colado aos Personagens

Para que o personagem central ocupasse a tela o tempo inteiro, com a câmera colada em sua nuca, foi preciso que todos, dos atores aos técnicos, acreditassem espontaneamente num projeto coletivo. Quem conta a história é Heitor Dhalia, diretor e co-roteirista de O Cheiro do Ralo, seu segundo longa-metragem, que integra a seleção da 30ª Mostra. Ele revela que a experiência na realização desse filme foi única, já que era um projeto fadado à gaveta. Ninguém acreditava nele e o título foi rejeitado. Todos se espantaram quando a equipe resolveu fazê-lo de qualquer maneira. Concluído, o filme conseguiu distribuição, ganhou prêmios e tem conquistado as pessoas. “É a clássica história da volta por cima”, diz Dhalia, mas com um gostinho especial. “O amor que a equipe colocou no trabalho bate na tela e volta para o espectador”, avalia.

O personagem principal, Lourenço, ocupa sempre a tela porque a câmera persegue Selton Mello. Dhalia, que em seu filme anterior, Nina (seleção da 28ª Mostra), colou em Guta Stresser, confessa sua tendência em grudar nos personagens, fazendo-os onipresentes. No próximo filme, revela que também será assim. Mas será um desafio ainda maior, já que a protagonista desta vez é uma garota de 14 anos. Conta ainda que seus personagens são anti-heróis falíveis e com defeitos, porque, de alguma maneira, o anti-herói humaniza. Em O Cheiro do Ralo, no qual o protagonista é um escroto perverso, o jogo é ainda mais interessante. Há algo nele com que as pessoas se identificam. Todo mundo tem um ralo que fede e um cheiro nem sempre possível de esconder. Dhalia revela-se espantado com a reação das pessoas ao filme, já que o humor (negro) as faz rir em momentos extremamente cruéis. Para ele, é preciso mostrar este lado B que existe em cada pessoa, principalmente se ela conseguir rir de si mesma. E conclui: “Alguns pequenos defeitos do ser humano são encantadores.”

O cineasta descreve seu método de trabalho: “Às vezes, gosto de pensar no filme como um concerto. Um show de rock mesmo. Poucos instrumentos, poucas notas e muita porrada. Por isso, a trilha de O Cheiro do Ralo, criada pelo Apollo Nove, é puro punk. Incluí ainda músicas francesa, húngara e italiana, uma amostra semelhante às que Lourenço vende na loja”, explica o diretor. Dhalia considera que, sem essa trilha diversa, o filme seria outra coisa. Ele tem dois projetos em andamento, e o primeiro chama-se À Deriva. É a história da descoberta da sexualidade por parte de uma menina de 14 anos, impulsionada pela crise no relacionamento dos pais. O diretor diz que o filme segue o modelo argentino – drama humano puro. O outro projeto que ele começa a desenvolver leva o título de Porto Príncipe. É sobre um soldado brasileiro no Haiti. Aborda a guerra, a miséria e também a esperança. Produção internacional, será falada em português, inglês, francês e creole. Um filme intenso, um projeto grande, que não sai da cabeça do diretor.

Tocha Alves: Documentário Variado e Dinâmico

Carandiru, o maior presídio da América Latina. Cerca de dez mil detentos e alguns poucos funcionários para controlá-los. Enquanto existiu, a penitenciária foi objeto de reportagens, documentários e filmes de ficção. Mas pouco se falou daqueles funcionários que eram quase-presos e que viviam uma rotina de tensão. Na seleção da 30ª Mostra, Deus e o Diabo em Cima da Muralha, documentário dirigido por Tocha Alves e Daniel Lieff, abordou exatamente esse ângulo. Diz Tocha que a idéia surgiu em 2002, com o iminente fechamento do Carandiru. O médico Dráuzio Varela (autor do livro Estação Carandiru, depois levado ao cinema por Hector Babenco), que ali trabalhou voluntariamente por treze anos, período em que lá dentro fez muitos amigos, falou dessas pessoas. A maioria era formada por funcionários muito antigos e respeitados, explica Tocha, detalhando que o futuro deles sempre foi incerto. O filme é uma espécie de homenagem a essas pessoas que, no fundo, sustentavam a cadeia com muito trabalho, malícia e boa dose de malandragem. São elas que relatam o cotidiano do presídio.

O grande interesse do público por documentários é, segundo o co-diretor, uma tendência que se firma, porque o espectador está em busca de informação, e o documentário é um formato variado e dinâmico. O diretor destaca ainda que de todos os festivais para os quais ele e Lieff enviaram Deus e o Diabo em Cima da Muralha, ambos obtiveram a informação de que havia um número recorde de documentários inscritos. Para Tocha, a parceria na direção com Lieff foi um processo interessante. “Há momentos em que um de nós está mais presente nas diferentes fases do filme”, explica, salientando que com isso puderam tomar decisões com calma, já que da idéia à estréia passaram-se quatro anos. E a parceria também possibilitou a realização em paralelo de outras atividades e projetos. Tocha pretende continuar dirigindo documentários e revela que já desenvolve dois projetos: um sobre música brasileira aqui e no exterior e o outro sobre skatistas brasileiros. Tem interesse em fazer ficção, processo totalmente diverso, porque acha muito bom trabalhar com atores e poder contar histórias que são por vezes difíceis de documentar. Mas ele espera, sobretudo, que o cinema brasileiro continue nessa boa fase de produção.

Regis Faria: No Universo do Cinema e da TV

Nascido numa família ligada ao cinema e à TV, o pai é o ator e diretor Reginaldo Faria, Regis diz que o seu ingresso na área deu-se quase que naturalmente. Participante da 30ª Mostra com Carlos Oswald O Poeta da Luz, seu segundo longa-metragem, o diretor revela que, quando criança, não pensava em ser diretor ou ator. Mas a convivência com o meio, na produtora de cinema do pai e dos tios e mais tarde na televisão, fez com que fosse quase inevitável tornar-se profissional da área.

Regis revela ainda que, na adolescência, queria muitas coisas, como todos jovens: música, literatura, história, cinema. O começo deu-se mesmo com a música, fazendo sonoplastia em teatro. Depois foi assistente de direção e, finalmente, diretor. Confidencia que nesse trabalho reúne todos os seus anseios, pois o diretor trabalha com edição, roteiro, música, imagem e atores. Com o lúdico, com o humano e com a tecnologia, acrescenta.

O documentário Vida Bandida (Leonardo Pareja), apesar de não ter sido exibido em cinemas ou festivais, foi a primeira experiência de Regis com o longa-metragem. Conta que fez o filme em 1996, meio impulsivamente, sem medir conseqüências, e considera o resultado consistente e relevante, mesmo que cru em certos aspectos. Lançado pelo Canal Brasil em 1998, tem sido reapresentado constantemente e, segundo Regis, aumenta ou mantém o número de espectadores do horário, segundo dados do Ibope.

Regis recebeu então um convite para realizar Carlos Oswald – O Poeta da Luz, que, inicialmente, seria um média-metragem para a TV. Mas ao avaliar o vasto material de pesquisa e a obra do artista, Regis convenceu o produtor e idealizador Mário Jorge a fazer um longa. Acrescenta que este foi um grande desafio, pois, ao contrário de Pareja, que tinha enorme apelo social e contemporaneidade, Carlos Oswald é um artista “comportado”, apesar do aspecto vanguardista de sua obra no contexto brasileiro. Era então preciso tornar o filme interessante e dinâmico e, ao mesmo tempo, revelar o descaso e a falta de crédito às artes plásticas no Brasil.

Duas dificuldades apresentaram-se ao longo do trabalho, iniciado em 2004. A primeira foi a burocracia para registrar algumas das obras de Carlos Oswald, apesar da autorização prévia que Regis possuía. A outra, a que atinge quase todos os cineastas brasileiros: obter recursos para finalizar o filme. Após documentar uma exposição de obras de Oswald em 2004, Regis parou as filmagens e retomou as pesquisas em março de 2005. Depois de três meses de coleta de informações, realizou duas semanas de filmagens e gravação. Seguiram-se mais três meses de edição e, no final de 2005, o filme estava pronto. A finalização deu-se apenas em outubro de 2006, pouco antes de a Mostra começar.

Temas tão opostos colocaram Regis e sua equipe em universos díspares. O diretor relata que em Carlos Oswald ele encontrou o lirismo ausente no universo cruel de Leonardo Pareja. Neste, o registro do filme deu-se quase que totalmente dentro de um presídio, onde o clima tenso se debruçava sobre a equipe e, por mais descontraídas que fossem as gravações, sempre havia uma ameaça pairando no ar. E a única proteção era a oferecida pelo próprio bando de Pareja, que mais tarde o assassinou. Em Carlos Oswald, as gravações eram feitas em museus, prédios públicos, igrejas e livremente pelas cidades.

Diretor também de novelas de TV, Regis diz que o imediatismo desse veículo não o contamina. Considera a direção de filmes um trabalho mais autoral, do qual participa em todas as fases, da idéia inicial ao último ajuste de cor e som. Embora a televisão também permita a marca do diretor no trabalho, ele não tem a mesma participação em todas as etapas. Regis já está coletando material para mais um documentário, num projeto com o cantor e compositor Moraes Moreira e seu filho Davi Moraes.

Ricardo van Steen: Um Mergulho no Mundo do Samba

A paixão pessoal pelo samba e a rica biografia de Noel Rosa levaram o cineasta Ricardo van Steen a realizar o filme Noel – Poeta da Vila. O diretor enxergou no projeto a chance de passar anos mergulhado no mundo do samba, nas rodas e nas pistas, o que considera um prazer único. No mais, levar às telas esse ícone nacional vitorioso pela poesia pareceu bastante apropriado a Van Steen. O diretor lamentou, no entanto, ter de deixar muitos fatos interessantes da vida de Noel de fora do filme. “Meu primeiro roteiro tinha assunto para cinco capítulos de uma hora”, diz. Os muitos amores de Noel e sua inacreditável destreza para lidar com várias namoradas ao mesmo tempo, as novelas de rádio e as trilhas para cinema que ele compunha em pleno set de filmagem: estas e muitas outras facetas do compositor foram eliminadas do filme.

Van Steen faz questão de ressaltar a importância do trabalho de Luiz Filipe de Lima, responsável pela trilha sonora. Habilidoso compositor e instrumentista, Luiz Filipe é o colaborador mais antigo do projeto. Mais do que cuidar da trilha, ele serviu como uma espécie de embaixador do projeto junto à comunidade do samba. “Ele me introduziu praticamente à totalidade do elenco do filme, colaborou nas leituras de roteiro, corrigiu as heresias e nos indicou as sutilezas do universo do samba”, afirma. O compositor apresentou Van Steen à nata do samba carioca, que, segundo diz, os acolheu com intermináveis gestos de generosidade e compreensão das dificuldades.

Quem também mereceu elogios do diretor foi Rafael Raposo, ator que vive Noel no filme. “O Rafael é extremamente capaz, concentradíssimo, cheio de recursos. Seus atributos aliados à técnica do Christian Duurvoort, preparador de atores, renderam uma barbaridade”, diz. Para o diretor, a fragilidade do protagonista serviu de contraponto para o fato de ele não ser tão baixinho quanto o Noel. O cineasta acredita que o Noel real fosse talvez um cara mais determinado e seco, mais maduro. Mas ele lembra o crítico e professor Jean-Claude Bernardet ao dizer que a realidade não é cinema, não adianta ficar copiando. O Noel do filme é fruto de cinco interpretações sobre o poeta: as do biógrafo, do roteirista, do ator, do preparador e do diretor.

Noel – Poeta da Vila traz o roqueiro Supla no papel de Mário Lago. Para Van Steen, Supla era a pessoa ideal para o papel por ter uma postura muito semelhante à de Lago: engajado, que anda por vários tipos de ambiente, batalhador ativo, elegante, educado e charmoso. “Isso sem mencionar a semelhança física. Combina perfeitamente”, declara. Dedicando-se hoje integralmente ao cinema, o diretor diz ter quatro projetos germinando, todos filmes de época. “Estou interessado nos períodos do descobrimento, da virada do século 19 para o 20, dos anos 1950 e dos anos 1970”, afirma. Apesar de ainda não confirmar oficialmente, revela que seu próximo filme, por enquanto, é a adaptação de um livro escrito por Edla van Steen, sua mãe, chamado Madrugada. A história gira em torno de um assalto em um velório no cemitério do Araçá, em 1970, onde há cinco caixões sendo velados. Na definição do cineasta, trata-se de “um mergulho na excentricidade do basfond da rua Rego Freitas (centro de São Paulo), no tédio burguês dos mecenas do Teatro Municipal, na pureza de espírito dos artistas de circo e na vida complicada dos mendigos que vivem em sepulturas ‘desocupadas’.”