Jornal da Mostra
Assine aqui o 'Jornal da Mostra'
Nº 472
30ª Mostra > 14/02/2007
30ª Mostra > 14/02/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, de Berlim, para o ‘Jornal da Mostra’
Leon Cakoff, de Berlim, para o ‘Jornal da Mostra’
Ulrich Mühe em “A Vida dos Outros”
O ESTREANTE FLORIAN HENCKEL VON DONNERSMARCK ASSINA UM DOS MELHORES FILMES ALEMÃES DA DÉCADA
O estreante Florian Henckel von Donnersmarck assina com “Das Leben der Anderen/ The Lives of Others/ A Vida dos Outros” um dos melhores filmes alemães da década, o melhor de todos já realizados na Alemanha desde a queda do Muro de Berlim e o colapso dos regimes comunistas no Leste da Europa. “Das Leben der Anderen” destacou-se como o prêmio do público nos festivais de Locarno, Varsóvia e Vancouver, fazendo estrondoso sucesso nos cinemas alemães. Foi considerado o melhor roteiro e filme de 2006 pelos membros do European Film Award. Foi indicado ao Golden Globe e ao Oscar de melhor filme estrangeiro (que merece ganhar). Mas soube-se aqui no 57º Festival de Berlim que o filme de Donnersmarck foi recusado pelas seleções de Berlim e Cannes do ano passado, o que não deixa de ser espantoso.O filme recria o ambiente claustrofóbico e de terror na Berlim Oriental, em 1984, em pleno curso do regime dito socialista da República Democrática Alemã. O governo assegura a vigilância sobre os cidadãos prisioneiros graças à vasta rede de espionagem, vigilâncias e delações da Stasi. O filme começa com uma aula sobre tortura psicológica ministrada pelo capitão da Stasi Gerd Wieder (na extraordinária interpretação de Ulrich Mühe). É a mais chocante denúncia a um método de tortura já levada ao cinema.
Vamos seguir a carreira do espião por todo o filme. E através dele sentiremos a sordidez de um regime comunista que se vale de privilégios para dominar cidadãos subalternos. O ministro da Cultura da Alemanha Oriental quer fazer sexo com a atriz de teatro Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck), mas ela é casada com o escritor Georg Dreyman (Sebastian Koch). O casal é um modelo de correição para o partido. Sempre se manifesta a favor do regime e emprega seu talento para enaltecer as belas quimeras do socialismo. Mas o ministro precisa minar esta base sólida de casamento no plano privado e no do próprio regime. Para tanto, pede aos membros da Stasi uma vasta devassa contra a intimidade do casal. É preciso criar evidências contra os artistas e, se possível, desmascará-los como inimigos do regime.
A tenebrosa Stasi instala uma sofisticada vigilância para espionar o casal na intimidade do seu apartamento. O insuspeitado capitão Gerd Wieder é o responsável pela vigilância e a produção de relatórios e esperadas evidências contra o casal. É quando começa a reviravolta dramática no filme, com um comovente roteiro baseado nos relatórios reais produzidos pela vasta vigilância da Stasi, documentos esses que desde a queda do Muro estão à disposição de interessados, pesquisadores e historiadores. O espião exemplar revela-se como um importante personagem em crise contra as verdades absolutistas do regime que defendia e deve seguir demonstrando que defende e protege. Nesse ponto, o filme também passa a ser uma peça comovente de resistência. Não mais com velhos clichês maniqueístas do bem contra o mal ou do mal contra o bem.
Se não bastasse a culpa alemã que se carrega pela história do nazismo, revelam-se agora mais absurdos de uma outra Alemanha que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, apenas trocou de uniformes absolutistas e fascistas, de uniformes nazistas pelos socialistas. Vamos compreendendo com filmes assim como o fascismo se congelou no Leste Europeu por um longo período. E como o gulag nestes imensos campos de concentração e de terror de Estado fizeram muito mais vítimas que todas as somadas da mesma Segunda Guerra Mundial.
Quem ver “A Vida dos Outros” jamais o esquecerá. Ele é desses raros filmes que a memória guarda como lição de dignidade e humanismo. Para corrigir o erro cometido no ano passado, o 57º Festival de Berlim programou “A Vida dos Outros/ The Lives of Others” na seção German Cinema. É ainda o melhor filme alemão entre todos os selecionados por Berlim também em 2007.