Jornal da Mostra
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Nº 478
30ª Mostra > 02/03/2007
30ª Mostra > 02/03/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
MARIA DE MEDEIROS INTERPRETA COM EMOÇÃO AS MAIS BELAS CANÇÕES BRASILEIRAS DE RESISTÊNCIA
A musa franco-portuguesa do cinema Maria de Medeiros, lançou dia 12 de fevereiro em Paris o CD – A LITTLE MORE BLUE (Universal Music), com as suas primeiras experiências como cantora. O disco é uma carinhosa homenagem à música popular brasileira e aos seus autores de resistência nos anos da ditadura militar. Há previsão de vários concertos promocionais pelo mundo, devendo contribuir para fazer do disco um dos hits nesta primavera-verão europeu.Maria de Medeiros, atriz e cineasta, diz que o disco é uma conseqüência natural da sua formação cultural, embalada que foi pela música brasileira desde pequena. Seu pai, o maestro Antonio Vitorino de Almeida, introduziu-a aos clássicos e na sua adolescência em Lisboa aprendeu a decifrar nas entrelinhas das canções a resistência de compositores brasileiros como Chico Buarque, Toquinho, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Ivan Lins, todos cantados no disco de Maria de Medeiros. Principalmente de Chico Buarque, compositor de dez faixas sobre as 14 escolhidas. A exceção é a última faixa “A Noite do Meu Bem”, clássico de Dolores Duran composto em 1959, uma lembrança de quando a sua avó a cantava para embalar os seus sonhos.
Maria de Medeiros não faz só uma comovente reverência a estes compositores. Ela ordena de uma maneira absolutamente inédita o sentido dessas canções nascidas em ambientes de repressão, frustrações políticas, resistência e desejos de transformação. Em seu texto para o disco enaltece a pesquisa musical lembrando que estes compositores são contemporâneos dos Beatles e dos Rolling Stones e foram tão provocadores e inovadores quanto os grupos ingleses:
“Quando os meus amigos e eu éramos adolescentes em Lisboa, estávamos ainda em época de revolução. Os artistas brasileiros festejavam o período de alegria e liberdade que se vivia em Portugal, e pelo nosso lado, ouvíamos apaixonadamente as suas canções... Porque tínhamos a sorte de compartilhar com eles a língua, sabíamos que Chico Buarque ou Caetano Veloso não eram unicamente músicos, mas também grandes poetas, pensadores, resistentes. Foram para nós verdadeiros orientadores. Ouvir a sua música era uma maneira de ser e de ver o mundo. Mas enquanto nós vivíamos em liberdade, eles estavam em plena ditadura. Foram censurados, perseguidos, exilados. Os seus textos, muito comprometidos, eram mensagens codificadas que sabíamos decifrar, recados cheios de esperança, inteligência e coragem. É o caso de muitas canções de Chico Buarque, admiráveis pelo gênio poético e pelo espírito de resistência. Contemporâneos dos Beatles e dos Rolling Stones, havia nos jovens músicos do movimento tropicalista um formidável sentido de provocação e de pesquisa.”
O disco presta ainda um grande favor aos seus ouvintes ao transcrever todas as letras que Maria de Medeiros escolheu para cantar. Não só na sua língua original, em português do Brasil, como também em francês e em inglês.
Mais informações (e trechos das suas canções, e outras inéditas) no sítio oficial de Maria Medeiros (http://www.mariademedeiros.net ), onde a intérprete apresenta A LITTLE MORE BLUE (título de uma canção de Caetano Veloso feita no seu exílio em Londres) como uma viagem intimista ao coração do repertório dos grandes autores engajados brasileiros. Palmas para Maria de Medeiros, agora uma intérprete completa.