Jornal da Mostra
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Nº 487
30ª Mostra > 29/03/2007
30ª Mostra > 29/03/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Christian Petermann, para o ‘Jornal da Mostra’
Christian Petermann, para o ‘Jornal da Mostra’
Peter Jackson e Robert Shaye
FUNDADOR DA NEW LINE, ROBERT SHAYE, VOLTA ANIMADO DEPOIS DE COMA INDUZIDO E SUCESSO DA TRILOGIA DOS ANEIS
Robert Shaye, fundador e co-presidente da produtora independente New Line de cinema, está num momento decisivo de sua vida. Em entrevista a Sharon Waxman, da editoria de Economia da edição internacional do jornal Herald Tribune, ele falou de seu coma por seis semanas em 2005, fato desconhecido do grande público até fevereiro último, e o impasse de perfil que a New Line vive depois do grande sucesso da trilogia "O Senhor dos Anéis" e de um terrível ano de 2006.Shaye, 67 anos, está por trás da New Line há quarenta (!) anos, sempre ao lado de seu parceiro Michael Lynne. Atualmente uma empresa do grupo Time-Warner, a New Line conseguiu estabelecer um lugar de destaque comercial e respeitabilidade estratégica entre os estúdios do "segundo time". Com a trilogia de Peter Jackson, o status da empresa disparou e o estúdio conquistou seu primeiro Oscar principal, por "O Retorno do Rei", a conclusão.
Desde a consagração, porém, as marés têm sido conturbadas. Em 2005, Shaye foi acometido de uma forma letal e rara de pneumonia, semelhante à que matou subitamente Jim Henson, o pai dos Muppets, em 1990. Ele foi induzido ao coma por seis semanas para tratamento, permaneceu mais dois meses no hospital e passou ainda semanas conseguindo andar apenas poucos minutos por dia. Mas ele retornou ao seu ritmo. "Eu comecei esta companhia em 1967, e ainda venho trabalhar todos os dias, com a mesma paixão de então", declarou a Waxman.
Durante sua ausência, a New Line desorientou-se nitidamente. Ela não emplacou praticamente nada desde a trilogia de Jackson. Em 2005, o estúdio ainda conquistou um sucesso sólido (e inesperado) com a comédia "Os Penetras Bons de Bico" (The Wedding Crashers) e um resultado médio com outra comédia, "A Sogra" (Monster-in-Law), que marcou o retorno de Jane Fonda às atividades. Já em 2006, o único resultado razoável foi o do terror adolescente "Premonição 3" (Final Destination 3), com uma decepção extra para o filme "Serpentes a Bordo" (Snakes on a Plane), que arregimentou impressionante campanha na internet, mas, ao estrear, rendeu no mercado americano apenas o que custou (US$ 34 milhões).
Para 2007, ano em que a New Line pretende voltar a ser competitiva, Shaye destaca três apostas. A primeira delas já indicou não ter fôlego muito grande: "Mimzy – A Chave do Universo" (The Last Mimsy), uma fantasia familiar de ficção-científica, rendeu apenas US$ 10 milhões em seu fim-de-semana de estréia (23 a 25 de março), o que ficou bem abaixo das expectativas. Este é um projeto pessoal de Shaye, que dirigiu o filme (co-escrito por Toby Emmerich, presidente de produção da New Line) e nomeou um dos personagens como dr. Sherman, um dos médicos que o tratou. A premissa envolve uma mensagem do futuro sobre algo que estamos fazendo errado hoje.
A outra aposta apoia-se numa franquia já estabelecida, mas meio "antiga" em termos hollywoodianos: "A Hora do Rush 3" (Rush Hour 3), com Jackie Chan e Chris Rock, cuja segunda parte é de 2001 – com estréia americana marcada para 10 de agosto, o filme agora se passa em Paris. E há ainda "The Golden Compass", uma fantasia/aventura orçada em US$ 150 milhões, com lançamento mundial para dezembro e estrelada por Nicole Kidman, Daniel Craig e Eva Green. É a esperança de uma nova franquia, e Craig volta a contracenar com Green depois de "007 Cassino Royale".
Mas em meio a estas expectativas futuras, Shaye tem ainda uma outra grande preocupação pela frente: o próprio Peter Jackson. A trilogia, que trouxe inéditos US$ 1 bilhão à New Line, rendeu apenas a Jackson, segundo o ex-amigo Shaye, mais de um quarto deste montante. Mas o cineasta acredita que foi prejudicado e está processando o estúdio para compensar os ganhos. Shaye o chamou de "arrogante e míope" e disse não se importar se Jackson está pedindo mais US$ 50 ou 100 milhões. "Ele quer nos processar, não quer sentar para conversar", completou. E lamenta a perda de um amigo. Mas ainda atual parceiro comercial: New Line e Peter Jackson dividem até 2009 os direitos de adaptação de outro clássico de J.R.R. Tolkien, "O Hobbit". Shaye quer que o filme saia do papel. Só poderia ser com um diretor menos difícil, pondera.
Em contrapartida, Jackson, num texto com chamada de capa do colunista Tom Roston ("Notes from the Dream Factory"/ Notas da Cidade dos Sonhos), publicado na revista americana Premiere de março deste ano, declarou que o processo judicial começou porque a New Line não quis rever as contas referentes à primeira parte da trilogia, "A Sociedade do Anel". E coloca fogo na lenha ao declarar sua independência e afirmar que não dirigirá "O Hobbit" da forma que a New Line impôr, decisão apoiada de forma histérica por seus milhares de fãs on-line. Esta rusga está apenas se armando. E que Shaye tenha saúde!