Jornal da Mostra


Assine aqui o 'Jornal da Mostra'

Nº 495
30ª Mostra > 18/05/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, de Cannes, para o JORNAL DA MOSTRA
CLAUSTROFOBIA SOCIALISTA COM MORBIDEZ AMERICANA
4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, de Cristian Mungiu

CLAUSTROFOBIA SOCIALISTA COM MORBIDEZ AMERICANA

Untitled Document Dois longas na competição do 60º Festival de Cannes, da Romênia e dos EUA fazem ver inquietudes de passados recentes. Na Romênia dos anos 80, quase no fim da era socialista, suas paranóias e claustrofobias, em 4 LUNI, 3 SAPTAMINI SI 2 ZILE/ 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS/ 4 MONTHS, 3 WEEKS AND 2 DAYS, de Cristian Mungiu. Nos EUA ao final dos anos 60, o início das investigações sobre os assassínios cifrados de um serial killer, em ZODIAC, de David Fincher, diretor de sangrentas e arrepiantes lembranças (ALIEN3, SE7EN, FIGHT CLUB).

O romeno Mungiu explicita os preparativos nervosos e a consumação de um aborto clandestino por duas amigas de quarto numa universidade de Bucarest. O título do filme registra o tempo de vida do feto. Além do aborto ser de alto risco, se descoberto levará à severa condenação e prisão de todos os implicados. A portas sempre fechadas e sob o domínio de códigos de silêncio e combinações cifradas, o plano será nervosa e friamente executado.

O executor é um personagem especial, misto de médico e monstro, um tipo clandestino, como de uma sociedade paralela. Ele se comporta com violência e discrição.

Com requintes de crueldade e infâmia. Embora clandestino, é símbolo de mais coisas que a sociedade nega oficialmente aos seus jovens ou velhos cidadãos. Cristian Mungiu aproxima o seu exercício de reconstituição ao cinema feito in loco e em tempo real do socialismo pelo mestre polonês Krisztof Kieslowski.

ZODIAC também anda às paralelas com sociedades secretas e códigos cifrados. O filme nos encerra numa redação de jornal de San Francisco, quando a juventude americana reage contra a Guerra do Vietnã ou se engaja em novos movimentos políticos. Mesma na redação de jornal, não veremos nada similar à dupla de repórteres que investigaram Watergate. Estamos na editoria de polícia, essa que domina o noticiário com os assassinatos de um maníaco. As pistas, as mortes e ameaças se sucedem sem que a polícia consiga chegar ao seu macabro executor.

Não fosse a obsessão do cartunista Robert Graysmith, plantonista de redação, e o livro que escreveu – base para o filme de Fincher – o caso estaria esquecido há muito tempo. E por que motivos relembrá-lo agora? Paralelo à enxurrada de cartas cifradas que o assassino envia às redações dos jornais, vemos que o entusiasmo tanto da imprensa como da polícia acaba sendo tragicamente superado pela força de novos eventos. A sociedade seguirá doente. Mas ouviremos falar apenas de novas doenças.

Mais informações sobre o Festival de Cannes em:
www.festival-cannes.org