Jornal da Mostra


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Nº 500
30ª Mostra > 27/05/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, de Cannes, para o JORNAL DA MOSTRA
MICHAEL MOORE ATACA A SAÚDE AMERICANA
SICKO, de Michael Moore

MICHAEL MOORE ATACA A SAÚDE AMERICANA

Untitled Document Depois de BOWLING FOR COLUMBINE (2002) e FAHRENHEIT 911 (Palma de Ouro em Cannes 2004), o documentarista explícito Michael Moore continua sendo a rara voz ativa contra as castas americanas que assaltam ‘democraticamente’ os EUA. Seu novo documentário SICKO expõe o abandono da população americana pelo sistema de saúde pública e a ganância praticada pela saúde privada.

Talvez seja conveniente seguir explicando o método explícito de Michael Moore. Ele segue aparecendo em cena (em SICKO apenas na segunda parte do filme) com seu corpanzil e sua cabeça expressando um monte de interrogações, interagindo com os entrevistados e conduzindo-os de acordo com os seus pensamentos e opiniões. Começa-se a dizer que Michael Moore é um manipulador e fabricante de falsos documentários. A inteligência americana a serviço do status quo sabe fabricar intrigas contra os seus combatentes. Para isso tem os maiores orçamentos da nação norte-americana. Isso não abala a Michael Moore. Ao contrário. A cada novo docu-drama-denúncia, seus filmes fazem mais sucesso e são vendidos a preços jamais alcançados por documentários em toda a história do cinema. O que Moore no máximo pode fazer é omitir algumas informações para dar mais dramaticidade aos seus enfoques. Mas isso também não é novidade na história do cinema que nasceu documentando, repetindo takes, eliminando outros, tudo para dar mais veracidade à ação e ao seu tempo.

SICKO, um trocadilho para resumir idéias em torno dos “negócios da doença”, é um duro ataque ao sistema de saúde nos EUA, manipulado por lobies das indústrias dos seguros de saúde e laboratórios farmacêuticos. Moore tem um achado precioso para o seu novo filme. Uma gravação em áudio com o presidente Nixon, em 1971, em exercício, dizendo que para empurrar o povo ao sistema de saúde provado basta piorar o atendimento público.

Dois entrevistados em SICKO revelam como operavam em seguradoras de saúde para aumentar o lucro de suas companhias: negando como podiam o atendimento aos pacientes nas horas mais dramáticas de necessidade. O documentário começa com uma cena absurda: um homem costurando (dando pontos) em seu próprio joelho rasgado porque, diz Morre em off, ele não tem saúde privada. Entrevista também pessoas golpeadas pela saúde privada. Uma viúva fala do marido que morreu de câncer por não conseguir um transplante de medula pela recusa de cobertura da seguradora como o argumento de que ela seria uma cirurgia “experimental”. Para dar uma idéia de toda a imensa lista de itens camuflados em contratos de seguro privado, Moore imita as cartelas em movimento em “Guerra nas Estrelas” com a sua música temática.

Michael Moore começa a entrar em cena quando compara a saúde americana com a de outros países que tratam infinitamente melhor seus cidadãos. Vai novamente ao Canadá, à Inglaterra e à França, onde os médicos visitam paciente em casa mesmo de madrugada sem custo algum. Se formos ao fundo desta questão, temos aí uma insignificante omissão do cineasta. O custo que haveria e que o filme “omite” é que a visita médica particular na França custa 50 euros, mas que são depois recuperáveis. É uma omissão inocente que não foge do foco principal: o sistema de saúde dos EUA é um grande negócio, como muitos interesses ramificados no poder. Mas para chegar aos lucros astronômicos, a saúde pública foi jogada no lixo. A maior potência mundial tem uma saúde pública situado em 38º lugar, apenas acima da Eslovênia, ex-República Soviética.

A ala igualmente milionária da advocacia, a serviço destas mesmas corporações que vendem saúde e não entregam, já estaria mobilizando ações na justiça para frear e intimidar a distribuição de SICKO nos Estados Unidos. Querem evitar que SICKO seja no universo da medicina uma ótima automedicação para ganhar consciência.

Seleção oficial, 60º Festival de Cannes, em apresentação especial.

Mais informações sobre o Festival de Cannes em:
www.festival-cannes.org