Jornal da Mostra


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Nº 501
30ª Mostra > 27/05/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, de Cannes, para o JORNAL DA MOSTRA
‘IMPORT-EXPORT’ CHOCA E POLEMIZA SOBRE RELAÇÕES HUMANAS
IMPORT-EXPORT, de Ulrich Seidl

‘IMPORT-EXPORT’ CHOCA E POLEMIZA SOBRE RELAÇÕES HUMANAS

Untitled Document Ulrich Seidl é o mais demolidor dos cineastas austríacos. No seu país, segundo seus filmes, há hipócritas insensíveis, egoístas cegos com os males do mundo, legiões de anestesiados sem sentimentos. A Mostra sempre acompanhou o seu cinema que provoca e incomoda, com personagens flagrados em suas solidões e intimidades. O 60º Festival de Cannes apresentou seu novo IMPORT-EXPORT em competição.

IMPORT-EXPORT faz ver dois mundos muito próximos, em algumas frivolidades quase iguais, mas com diferenças sociais abissais. De um lado, o mundo de Olga, enfermeira e mãe solteira. Ela quer o melhor dos mundos para o seu pequeno filho. Olga vive na Ucrânia e decide tentar sorte melhor na Áustria. Leste e Oeste se assemelham pelo clima frio e cinzento do inverno. A Ucrânia é pobre e a Áustria é opulenta. Mas nem para todos.

A segunda história é a de Paul, um jovem austríaco sem sorte no trabalho. Deve dinheiro para amigos e tipos suspeitos e violentos. Até que o padrasto decide levá-lo junto para um trabalho na Ucrânia. Eles exportam máquinas de videopôquer. Em nenhum dos dois universos parece restar dignidade e respeito humanos. Olga é sensível e afetuosa. O seu emprego com sexo por computador, com clientes invisíveis que ordenam seus desejos à distância, dura pouco. O seguinte, como empregada doméstica, acaba quando a patroa descobre que os seus filhos estão gostando e se comunicando com ela.

No trabalho seguinte, em um asilo de idosos, ela acha melhor esconder todos os seus sentimentos.

Na contramão da história, os exportadores aparecem como vilões. Eles conseguem encontrar a quem explorar na mais sórdida miséria. A seqüência da contratação de uma menina ucraniana em um clube noturno e as cenas de sexo no quarto do hotel estão entre as mais perturbadoras de todo o 60º Festival de Cannes.

Aos poucos Seidl volta seu foco a Olga e Paul, em quem concentra as reações e as tentativas de dignidade nas relações humanas. Como diz o diretor em seu press book de Cannes em forma manifesto, “ambos lutam para acreditar neles mesmos, para encontrar um sentido na vida. Ambos estão indecisos entre Leste e Oeste. Ambos viajam para descobrir um novo mundo. IMPORT-EXPORT negocia com sexo e morte, vivos e mortos, vencedores e perdedores, poder e abandono.”

Entre documentários e ficção, Ulrich Seidl tem um estilo único e inconfundível. Seus planos são longos, chocantes, polêmicos e por vezes constrangedores pelas verdades que expõe de frente e sem artifícios. Seus filmes são sempre inesquecíveis. Seu primeiro filme de ficção DOG DAYS levou o Grande Prêmio do Júri em Veneza 2001. Antes ele foi construindo seu cinema com filmes como JESUS, YOU KNOW, MODELS e ANIMAL LOVE. IMPORT-EXPORT pede passagem.

Mais informações em:
www.festival-cannes.org