Jornal da Mostra
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Nº 504
30ª Mostra > 09/06/2007
30ª Mostra > 09/06/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, de Cannes, para o JORNAL DA MOSTRA
Leon Cakoff, de Cannes, para o JORNAL DA MOSTRA
Roy Andersson
‘YOU, THE LIVING’, DE ROY ANDERSSON, FOI O FILME MAIS PERTURBADOR DO 60º FESTIVAL DE CANNES
Sonhos e realidade em YOU, THE LIVING fazem o espectador ficar perplexo diante das tragicomédias da vida. Ao longo de 50 seqüências de precisão cronometradas, preferencialmente em planos-seqüência, ângulos abertos e fixos, veremos a grande comédia da vida, pois segundo o genial cineasta, o mais inovador de nossos tempos, “viver é tão complicado para cada um de nós, que o que nos salva é o senso de humor”.
Ele revela mais em seus apontamentos sobre YOU, THE LIVING. “O filme fala da natureza humana, da sua grandeza e miséria, alegria e tristeza, autoconfiança e ansiedade. Da natureza humana da qual rimos e por que choramos também. O filme é simplesmente uma comédia trágica ou uma tragédia cômica da qual somos o sujeito. Depois do neo-realismo e do cinema de absurdos, o que tento hoje é introduzir o trivialismo”.
A carreira de Roy Andersson é aquela sonhada por muitos cineastas pelo mundo. Com paciência ele conquistou os meios mais convenientes para exercer a sua mais confortável liberdade de expressão. Seu primeiro longa, A SWEDISH LOVE STORY, venceu em 1970 o Festival de Berlim. Seis anos depois, em 1976, GILIAP, seu segundo longa, foi visto na Quinzena dos Realizadores. Mas o que garantiu a sobrevida do estilo sempre desconcertante foi a publicidade, cinema de muitos recursos para poucos segundos em que se engajou ainda em 1975. Seus filminhos publicitários fizeram muito sucesso e levaram oito Leões de Ouro em Cannes. O reconhecimento e assédio de Roy Andersson permitiram-lhe a criação do Estúdio 24, na antiga estação telegráfica de Estocolmo, onde voltou a se dedicar a novos filmes de ficção com total liberdade. Vieram então os curtas SOMETHING HAPPENED (1987) e WORLD OF GLORY (1991). De fato, ele levou pacientes 32 anos para voltar a concluir um longa-metragem, que foi o aclamado SONG FROM THE SECOND FLOOR (2000). E agora, mais sete anos depois, o perturbado e arrebatador YOU, THE LIVING, seu quarto longa ao longo de 37 anos.
YOU, THE LIVING inspira-se nas tristes Elegias Romanas de Goethe, de onde Anderssen extrai a seguinte sentença: “Contente-se pois, ser vivente, em seu espaço quente e aconchegante, antes que a morte fatal venha lamber os seus pés fugitivos”. Os quadros em que seus mortos-vivos reagem tem inspirações pictóricas, de Millet, Delacroix e Van Gogh. O capricho está em puxar a quase monocromia das imagens para o verde-musgo.
Os quadros, embora estanques, acabam se interligando. Personagens, como fantasmas, aparecem em cenários fora de seus contextos. Andersson diz querer criar cenas e cenários tão intensos e refinados a ponto de passar aos espectadores o desejo de ver tudo novamente. “Meus filmes desafiam as estruturas narrativas convencionais do cinema. É o meu jeito de ser provocador”.
A antologia do cinema certamente reservará um patamar especial para várias seqüências desde novo filme de Roy Andersson. Para a mulher punk que blasfema contra o seu companheiro e o mundo que não a entende; para o trombonista que ensaia em seu apartamento para o desespero da mulher e dos vizinhos; para os bêbados solitários de um bar e do barman que toca toda noite um sino para anunciar a última rodada de bebidas; para o roqueiro e sua lua-de-mel em um vagão-casa de trem; para o vendedor de tapetes desconcertado depois da briga com a mulher. Enfim, para as tantas situações perturbadoras da tragicomédia humana. Viver parece já uma vitória diante das tantas provações que ofuscam a nossa existência. Roy Andersson esmera a arte do cinema sueco em resgatar do limbo as suas tantas almas atormentadas. CINEMA para esteta nenhum botar defeito. Cinema para cinéfilos.
Mais informações em:
www.festival-cannes.orgGaleria de Fotos

YOU, THE LIVING