Jornal da Mostra
Assine aqui o 'Jornal da Mostra'
Nº 506
30ª Mostra > 02/07/2007
30ª Mostra > 02/07/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
THE MAN FROM LONDON
NOVO FILME DE BÉLA TARR USA SIMENON PARA FALAR DE RUPTURA E CUMPLICIDADE
Esta produção entre Hungria, Alemanha e França, em raro e denso preto-e-branco, resulta em, o novo filme existencialista do mestre húngaro Béla Tarr, inspirado na novela de Georges Simenon L’HOMME DE LONDRES. O filme foi concluído ao longo de quase três anos muito conturbados de filmagens e foi apresentado na seleção dos filmes em competição do 60º Festival de Cannes. Depois de investir na construção de um milionário cenário especial na Córsega, simulando um terminal ferroviário num porto, ao custo de dois milhões de euros, Béla Tarr foi surpreendido dois dias antes de começar as filmagens, em fevereiro de 2005, com o suicídio de seu produtor francês Hubert Balsan. Começou então uma nova batalha do cineasta para liberar os fundos congelados no banco Coficine e o reagrupamento de outros parceiros envolvidos no seu belo projeto: Eurimages, Hungarian Founds. e ARTE.
Enquanto Béla Tarr refazia o seu orçamento para torná-lo mais econômico, a federação internacional de críticos de cinema lançou um apelo na tentativa de ajudar o projeto, dizendo: “Béla Tarr tenta retomar as filmagens sem produtor e sob condições devastadoras e humilhantes”.
John Simenon, o filho do escritor belga, apoiou o filme com a seguinte declaração: “Com ou sem (o inspetor) Maigret, as novelas de meu pai sempre nos convidam a seguir a vida de um homem ou uma mulher que é particularmente parecida com a nossa na sua dramaticidade e em direção de um destino inevitável... O que Béla Tarr trata de fazer em seu filme, apesar das incríveis dificuldades que enfrentou, é um brilhante exercício de estilo que me tocou profundamente.”
Esta é a questão principal nos filmes de Béla Tarr – o exercício de estilo, com caprichos elípticos na narrativa e nos movimentos hipnóticos de câmera, com diálogos ou expressões envoltas em silêncio e forte carga dramática. E o ápice dessa carreira de apenas oito longas desde 1977 foi SATANTANGO, rodado entre 1990 e 1994 (seleção da 18ª Mostra), apontado como obra-prima em todo o mundo e que levou a escritora Susan Sontag à seguinte declaração: “Devastador, encantador em cada minuto da suas sete horas (de fato, com 435 minutos). Eu ficaria feliz de assisti-lo a cada ano do resto de minha vida”. O seu cinema visionário arrancou ainda entusiasmos de cineastas norte-americanos da potência de Gus Van Sant (“é como ver o nascimento de um novo cinema”) e Jim Jarmusch (“seus filmes são como eventos altamente recomendáveis”).
“O filme fala sobre desejo, a indestrutível ânsia por uma vida livre e feliz”, diz Béla Tarr em seu manifesto em Cannes. Ansiedade talvez seja o sentimento mais forte na obra de Tarr. Mais que a liberdade que ele sempre perseguiu no seu país, ainda nos tempos de praticar cinema em Super 8. Béla Tarr tinha apenas 16 anos, aspirante a estudante de filosofia, quando decidiu filmar um caso político com ciganos e acabou presioneiro do regime de inspiração soviética da Hungria. Para a época, o futuro cineasta foi corajoso demais. Seu filme em 8mm. recriava o protesto de um grupo de trabalhadores ciganos que mandava uma carta ao patrão (o Partido Comunista) escrevendo a seguinte provocação ou ingenuidade: “Por favor, nós gostaríamos de deixar o país. Nós queremos partir para a Áustria porque não conseguimos mais viver aqui na Hungria. Nós não temos trabalho, não temos comida, não temos nada.”
Elíptico, implacável, inconformista, o cinema de Béla Tarr segue até hoje destacando personagens de ruptura, aturdidos entre a inocência e a cumplicidade. Esta sua coragem inscreve um capítulo especial na história do cinema.
Mais informações em:
www.festival-cannes.org