Jornal da Mostra
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Nº 508
30ª Mostra > 30/07/2007
30ª Mostra > 30/07/2007
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
Leon Cakoff, para o ‘Jornal da Mostra’
INGMAR BERGMAN
CINEMA PERDE O MESTRE SUECO INGMAR BERGMAN
“Não há iniciação em cinema sem um mergulho no universo bergmaniano com seus seres atormentados diante do silêncio de Deus”. Guardo essa sentença nas minhas memórias de cinéfilo, de artigos recorrentes em revistas francesas e argentinas, quando aqui não as tínhamos no tempo da ditadura militar. Sem hastear qualquer bandeira ideológica, Bergman era capaz de abastecer os nossos anseios por reações diante da ignomínia e da vontade de viver.O exercício apaixonado de decifrar os códigos bergmanianos foram uma iniciação para legiões de admiradores que receberam a notícia da sua morte em 30 de julho de 2007. Como pouquíssimos cineastas do mundo, o seu nome é um adjetivo para sempre imortalizado para representar um estado de alma de personagens inesquecíveis e que serão sempre lembrados pela sua retórica própria.
Através da Mostra Internacional de Cinema conseguimos manifestar grande admiração por sua obra e manter alguns diálogos com o mestre sueco Ingmar Bergman. Seus filmes deveriam ser guardados para sempre como patrimônios da humanidade. Ao trazer à 29ª Mostra a trilogia “Ingmar Bergman Completo: Bergman e o Cinema, Bergman e o Teatro, Bergman e a Ilha de Farö”, Bergman diz à sua diretora Marie Nyreröd que guardava boas recordações de São Paulo, a cidade cujos críticos primeiro reconheceram o seu valor em todo o mundo. Digo para Marie Nyreröd transmitir a Bergman o nosso convite para vir a São Paulo no ano seguinte, para a 30ª Mostra Internacional de Cinema, em 2006. Para reforçar o pedido e já ter uma resposta ao seu argumento de sempre de que não viajava mais devido à sua avançada idade (em 2005 com 87 anos), peço para fotografarem a documentarista Marie Nyreröd ao lado do vigoroso cineasta português Manoel de Oliveira (então com 98 anos de idade) e que sempre que pode retorna a São Paulo com os seus novos filmes. Marie levou o prêmio da Mostra de melhor documentarista e a foto ao lado de Manoel de Oliveira. Soubemos depois que Bergman havia dado boas risadas com a provocadora sugestão.
Ver os filmes de Bergman sempre foi um desafio contracorrentes. Em 1977, ano de nascimento da Mostra Internacional de Cinema, ainda cuidando paralelamente da programação de cinema do Museu de Arte de São Paulo, tive a oportunidade maluca de trazer da Itália, com a ajuda do Instituto Italiano de Cultura, uma coleção de filmes antigos de Bergman, todos dublados em italiano. Fiz um belo e bem sucedido ciclo, juntando mais alguns títulos do acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, batizado como ‘Jovem Bergman’. Exercícios inesquecíveis de cineclubismo.
Outro interlocutor que nos introduz no admirável universo do pensador Ingmar Bergman é o então diretor do Göteborg Film Festival, o documentarista Gunnar Bergdahl, que nos traz para a 21ª Mostra “A Voz de Bergman”, realizado durante os ensaios teatrais da peça clássica “Ghost”, do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Por sugestão do próprio Bergman, o cartaz multilingüe do documentário também vem traduzido em português.
A 29ª Mostra Internacional de Cinema encantou os espectadores também com uma retrospectiva do pioneiro do cinema sueco Victor Sjöström, cujo filme “A Carruagem Fantasma”, de 1921, seria um dos preferidos e mais revistos por Ingmar Bergman. Na mesma retrospectiva, a inclusão de “Morangos Silvestres”, clássico dirigido por Bergman em 1957, onde o cineasta homenageia Sjöström confiando-lhe um dos marcantes papeis do filme.
O legado de Bergman e seus personagens atormentados contarão ainda muitas histórias e encerram revelações para legiões de novos espectadores que têm o cinema como condutor de vida e inteligência.
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