Jornal da Mostra


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Nº 516
30ª Mostra > 05/09/2007
ATO DE MACARTHISMO CONTRA AMOS GITAI EM ISRAEL
‘Disengagement’, de Amos Gitai

ATO DE MACARTHISMO CONTRA AMOS GITAI EM ISRAEL

A Autoridade de Radiodifusão de Israel decidiu contra o apoio financeiro para ‘DISENGAGEMENT,’ o novo longa-metragem de Amos Gitai, sob o pretexto de que ‘ele não é um diretor israelense.’ Em resposta, Gitai pediu aos membros do comitê que perguntassem aos sírios, que atiraram nele na Guerra do Yom Kippur War, quanto à sua nacionalidade. Estrelando Juliette Binoche, o filme vai abrir o Festival de Cinema de Haifa.

Este artigo foi publicado originalmente por Merav Yudilovitch em ‘Israel Culture’ (29.08. 07).

Amos Gitai é, sem dúvida, a pessoa que abriu as portas para Israel de locais respeitáveis como os prestigiados festivais de cinema de Cannes, Berlim, e Veneza. Embora seja aclamado internacionalmente, o trabalho de Gitai cria antagonismos em Israel, mas até hoje não se havia duvidado de sua identidade israelense. Essa situação mudou semana passada quando o comitê de TV da Autoridade de Radiodifusão de Israel rejeitou por unanimidade um pedido de apoio financeiro para “DISENGAGEMENT”, retrocedendo em relação a um acordo anterior.

Alguns meses atrás, o diretor geral da ARI, Moti Shklar fez uma oferta por escrito ao chefe da United Studios, Moshe Edri, na qual ele afirmava: “Eu pretendo apoiar a indústria cinematográfica israelense e apresentar às instituições da ARI com seu pedido de apoio a “DISENGAGEMENT” com até 0,000. De acordo com nosso acordo anterior, em troca desse apoio, o filme será veiculado no Canal 1 e, ao mesmo tempo, a ARI receberá os direitos de exibição de todos os filmes que o diretor Amos Gitai já produziu.”

Em sua carta, Shklar esclareceu que, de acordo com o procedimento, o acordo acima requer a aprovação das instituições ARI, e que apenas depois que for aprovado, poderá ir oficialmente adiante. Na última quinta feira, o caso foi apresentado para o comitê de TV ARI, que rejeitou por unanimidade o acordo inteiro.

Falando com Ynet, a membro do comitê Dorit Inbar disse que, entre outras razões Gitai foi recusado porque “ele não é um artista israelense, ou seja, segundo informações que temos, ele não vive aqui.”

Sabendo da notícia, Gitai – que passa seu tempo entre Tel Aviv, Haifa,e Paris – ficou mudo por um tempo. “Esse é um simples ato de Macartismo,” ele disse. “Eu moro em Israel, eu servi o exército, e os meus filhos também, e agora eu tenho que conseguir um carimbo kosher deles? Eu me encontro no mesmo banco que Eyal Sivan , e, embora eu não me identifique com ele, parece que eles estão marcando cada vez mais pessoas assim. Até onde isso vai?”

Quando perguntado sobre o fato de que Gitai mora e trabalha em Israel, Inbar sublinhou: “O comitê aceitou completamente a alegação de que ele não mora ou cria em Israel. Há muitos cineastas israelenses que precisam muito de nosso apoio. O ARI é uma autoridade israelense e deveria assistir uma grande variedade de artistas israelenses ao invés de ajudar uma só pessoa que não trabalha em Israel, o que é de conhecimento geral. Que filme ele fez em Israel?”

Israelense só no estrangeiro

Gitai, que foi muitas vezes atacado e atingido pela mídia, críticos e fundos de cinema israelenses, ficou furioso mas ainda mais ferido. Falando com Ynet, ele ressaltou que os filmes que foram oferecidos como um pacote para o ARI foram filmados e editados em Israel.
“Eu sei por certo que ele produz a maior parte de seus filmes fora de Israel,” Inbar insistiu. “Tenho certeza de que ele filma em Israel também, mas o grosso de seu trabalho não é feito em estúdios ou ilhas de edição israelenses, nem se apóia na indústria local. Os membros do comitê compartilham dessa visão.”

Os filmes que foram oferecidos para o ARI como parte do pacote do acordo com Gitai incluíam “Kippur,” filmado inteiramente nas Colinas do Golan ; “Yom Yom,” que foi filmado em Haifa; “Kadosh,” que foi filmado em Tel Aviv e Jerusalém; “Alila,” filmado em Tel Aviv; e “Kedma” que foi filmado em locação perto de Bet Govrin. “DISENGAGEMENT” também foi parcialmente filmado em Israel, com elenco e produção locais.

Segundo Gitai, uma breve mirada sobre seus filmes seria suficiente para certificar sua identidade nacional, e todos eles foram montados em Israel, ele diz.

“Tenho nojo de todo esse negócio de israelense-não-israelense. É nojento,” ele disse, listando os prêmios que já recebeu da indústria cinematográfica israelense.

“Com toda modéstia, eu acredito que fiz uma grande contribuição para o status da indústria cinematográfica israelense no mundo todo. No mundo lá for a, eu sempre fui apresentado como israelense, mas Rommema (escritórios do ARI) ainda não ficou sabendo,” ele disse, acrescentando sombriamente: “Eu sinto que houve uma rápida deterioração nas normas razoáveis com que filmes e trabalhos artísticos são discutidos em Israel. A maneira com que a cultura é tratada como um todo sofreu uma grande queda.”

Parece que você não apenas não é apreciado aqui, mas também que seus críticos estão negando que você seja daqui.

“O que eu posso dizer? Eu era israelense o suficiente para os sírios, que atiraram no jato em que eu estava na Guerra de Yom Kippur, mas parece que Dorit Inbar ainda não foi atualizado nesse sentido. Talvez ela devesse perguntar à inteligência síria quanto à minha nacionalidade.”

Não é política

Gitai está certo de que a decisão de rejeitar o acordo está associada com seus pontos de vista políticos, mas Inbar negou categoricamente. “As visões políticas de Gitai nunca foram a questão. Uma observação foi feita de que os trabalhos dele eram controvertidos, mas não no contexto político.”

Ela alegou que o que pesou na balança para o comitê foi o preço do acordo - 0,000. “É uma quantia descomunal para dar a apenas um artista. Poderia pagar por cinco filmes,” ela disse, sublinhando: “Como presidente do Conselho de Cabos e Satélite, eu forcei o ‘Hot Cables’ a investir não menos que NIS 200,000 e não mais que NIS 400,000 por filme, e eles conseguiram produzir 12 filmes por ano.”

Gitai reagiu a isso dizendo, “É interessante que Keshet destinou 0,000 para ‘Beaufort’ (apresentado no Festival de Berlim este ano) e eu acabo de ver um relatório hoje de que eles estão investindo NIS 3.5 milhões em 10 projetos de documentário, cujos orçamentos são muito menores que os de longas-metragens.”

Em outra reação, o ARI disse: “A gerência do ARI estava realmente interessada em exibir os filmes de Gitai, mas sublinhou que isso tem que ser aprovado pelas instituições ARI.

“O comitê de TV, que discutiu o assunto, decidiu por unanimidade contra o acordo, por uma série de razões, uma das quais foi sua situação financeira difícil. Os membros do comitê alegaram que, embora suas intenções sejam boas, são tempos difíceis e o ARI está à beira do colapso, e não pode sustentar outros corpos – nomeadamente, a indústria cinematográfica.

“Além disso, certos membros do comitê mantiveram que eles não deveriam selecionar só um diretor, e que se a ajuda deve ser entendida, ela deve seguir certos critérios, e outros artistas deveriam poder apresentar seus trabalhos. As posições políticas de Gitai não tiveram nada a ver com a decisão contra o acordo.”

Deve-se sublinhar que “DISENGAGEMENT” – o novo filme de Gitai, estrelando Liron Levo e Juliette Binoche – será exibido nos festivais internacionais de cinema de Veneza e Toronto sob a prestigiosa alcunha de Os Mestres, que englobará filmes de diretores de primeira linha, como Woody Allen, Manoel de Oliveira, Takeshi Kitano, Ken Loach, e Sean Penn. O filme de Gitai também sera exibido na noite de gala do Festival Internacional de Cinema de Haifa, e essa será a primeira vez que um filme israelense será exibido na noite de abertura do evento mais importante da indústria israelense.

O novo filme de Gitai conta a estória de um encontro entre um jovem israelense (Levo) e sua irmã (Binoche) que vive na França com o pai deles. Enquanto Israel está lidando com o processo de DISENGAGEMENT do Gush Katif, os dois se redescobrem. O filme também tem as participações de Jeanne Moreau, Dana Ivgi, Uri Klauzner, e Israel Katorza.

Tradução: Laura Rebessi