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Claude Lelouch

Em 1989, uma pesquisa realizada na França indicou Claude Lelouch como o cineasta mais popular do país. Razões não faltam para justificar o resultado. A mais prestigiada e cintilante delas veio na forma da Palma de Ouro, o principal prêmio do Festival de Cannes, quando o diretor tinha apenas 29 anos e cinco filmes no currículo. A premiação foi apenas o pontapé inicial do sucesso do romântico Um Homem, uma Mulher (1966) mundo afora, embalado pelo charme do casal central de atores, Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant, e pela melodia “chabadabada” de Francis Lai. Amor e música, aliás, seriam dois dos ingredientes que se consagrariam em definitivo em seu cinema. Basta lembrar que a paixão move boa parte de suas tramas e a trilha sonora muitas vezes ganha vida própria, como em Retratos da Vida (1981), filme responsável por popularizar o “Bolero” de Ravel. Os dois títulos somam-se a outros seis longas-metragens e um curta na retrospectiva que a 31ª Mostra dedica a Lelouch em suas mais de cinco décadas de carreira - número que também condiz com sua prolífica produção - no ano em que completa 70 anos de vida.

São títulos selecionados pelo próprio diretor e que representam seu cinema regido pelo espírito da vontade e da curiosidade.
As biografias romanceadas sobre Lelouch gostam de lembrar o jovem colegial que partiu para a ex-URSS com uma câmera presenteada pelo pai e, com o apetrecho escondido sob o casaco, realizou lá suas primeiras imagens documentais. Tais documentários serviram para construir um olhar profissional do futuro realizador de videoclipes, num formato precursor que ainda não levava esse nome. Atraído por disputas esportivas, Lelouch filmou, por exemplo, o Tour de France e as 24 horas de Les Mans. Desse universo nasceu o perfil do personagem de Trintignant, um piloto de corridas em Um Homem, uma Mulher, filme que utiliza cenas recicladas do curta citado. E mais: o Mustang que o ator dirige no filme é a primeira demonstração do tino comercial do diretor, que aproveitou o clima de aventura e paixão da história para incluir uma marca de renome internacional na produção. Repetiria essa fórmula muitas vezes para assim atrair investimentos. No curta C’Était un Rendez-Vous, de 1976, uma Ferrari é conduzida a toda velocidade pelas ruas de Paris. Publicidade à parte, o filme é uma síntese do namoro do homem com a máquina. De quebra, é cinema de tirar o fôlego.

Às características de produtor - em 1960, Lelouch fundou sua própria produtora, a Les Films 13 - somam-se outras de cineasta, como a preferência pela temática do homem comum, seus sonhos e frustrações. Em geral, são roteiros de próprio punho, mas também adaptados, caso do clássico Os Miseráveis (1995), de Victor Hugo. Outro hábito que se firmou é o trabalho com um grupo fiel de atores. Itinerário de um Aventureiro (1988), por exemplo, é um caso sintomático. Traz Jean-Paul Belmondo, ator recorrente, no papel de um empresário que joga tudo para o alto e some na África. Mas é no elenco feminino que se nota sua predileção, inclusive pessoal, em manter uma equipe coesa. Lelouch casou-se com algumas de suas atrizes. Duas delas, Marie Sophie Pochat (que assina Marie Sophie L.) e a atual mulher Alessandra Martines, podem ser vistas em Tem Dias de Lua Cheia (1990) e Tudo Isso... Pra Isso?! (1993), exemplos da vertente de filmes com muitos personagens e enredos paralelos, como num grande mosaico humano, que o cineasta voltou a adotar recentemente com A Coragem de Amar (2005). Vez ou outra, ele retoma alguma rota esquecida. Seu mais novo filme, Crimes de Autor, por exemplo, é um romance policial, gênero em que sempre esteve muito à vontade e que lhe rendeu fama junto ao público.

A 31ª Mostra exibe também um trabalho recente do cineasta, que comprova que sua estrela continua em alta no mundo cinematográfico: ele é um dos muitos mestres a colaborar no filme-coletivo A Cada Um Seu Cinema, obra que celebrou esse ano as seis décadas do festival de Cannes, o mesmo que deu o pontapé inicial em sua carreira. São dois veteranos a quem a Sétima Arte muito deve. E assim o ciclo se fecha.